Política

Grijó: “O suicídio de Getúlio Vargas foi um ato político com grandes consequências”

Professor da Ufrgs detalha impacto e desdobramentos da morte do ex-presidente da República, 70 anos depois

Edição especial da Folha da Tarde retrata a morte do presidente Getúlio Vargas
Edição especial da Folha da Tarde retrata a morte do presidente Getúlio Vargas Foto : Reprodução

Na semana em que completaram-se 70 anos do suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas, o historiador e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Luiz Alberto Grijó, analisa a importância do pai do trabalhismo, mesmo após mais de sete décadas da sua morte, para a política nacional.

Grijó, que desenvolveu pesquisas sobre o político gaúcho, também ressalta a relevância de Vargas para a política nacional.

A seguir, os principais trechos da entrevista ao Correio do Povo:

Como é possível descrever a figura de Getúlio Vargas?

Falar sobre Getúlio Vargas é falar quase sobre o Brasil do Século XX pelo menos. Ele faleceu em 1954, mas a importância dele continua após. Inclusive até redobrada, e vai até boa parte do período da Ditadura Militar e na reabertura política, depois nos anos (19)80 com Leonel Brizola, tentando resgatar a imagem do getulismo, do trabalhismo.

Getúlio vai assumir a presidência em diferentes momentos e contextos. Na primeira vez, fruto da revolução de 1930 e durante o Estado Novo, e retorna, depois de 12 anos, eleito. São diferentes governos?

São vários governos. São vários enquadramentos institucionais e constitucionais que vamos ter. Em 1930, com a Revolução, que é um golpe militar-civil, ele assume como ditador. Ele assinava os documentos assim, porque é um governo provisório. Esse governo vai até 1934, com a Constituição. Ele ganha a eleição na Constituinte, que o elegeu, e vira presidente eleito de forma indireta. E vai até 1937, quando ele dá um golpe de novo, mas com uma parte das Forças Armadas. E aí vem o Estado Novo, que tem outra Constituição e é outra ditadura e que vai até 1945, quando ele é obrigado a se afastar por uma série de motivos. Quando ele retorna em 1950 e fica o período final. Entre esses dois momentos (30 e 50) ocorreram muitas coisas no mundo, como a II Guerra Mundial, e no país, como há outros grupos sociais e há outra configuração social. Nesse período também tem uma coisa importante que é a própria configuração das Forças Armadas, que vai começar a se espelhar no modelo militar norte-americano. E dentro das próprias Forças Armadas havia muita divergência política

Reportagem publicada no dia 24 de agosto de 1954 relembra crise que antecede morte de Getúlio Vargas | Foto: CP Memória

As Forças Armadas terão, de certa maneira, uma ação muito importante na derrocada do governo do Getúlio, em 1954.

Se a gente for pensar o que vai levar ao suicídio de Getúlio no fundo está uma crise militar. A questão que vai ser detonada pelo tal atentado da rua Tonelero, que envolve o ferimento no Lacerda, que era um civil, mas que estava muito próximo de algumas dessas lideranças militares descontentes. Um agitador um pouco inconsequente até. O esquema dele era incitar uma certa situação caótica para ver se poderia lucrar alguma coisa. E ele ganhou alguns adeptos, especialmente entre opositores de Getúlio. Vivíamos um momento muito polarizado entre getulistas e antigetulistas. Não era tanto a questão de trabalhismo e não-trabalhismo, era mais a questão do Getúlio mesmo. E claro uma certa perspectiva de um determinado empresariado brasileiro, que queria uma abertura maior da economia. E algumas políticas, como a questão do salário mínimo e as próprias leis trabalhistas.

Detalhe da edição de 25 de agosto de 1954 | Foto: CP Memória

A relação do Getúlio com essa massa de trabalhadores será um marco, correto?

Essa relação do Getúlio com os trabalhadores, de forma geral, é marcante. Essa questão da “massa” é preciso ter cuidado. Porque em São Paulo ele não tinha uma penetração, como tinha no Rio de Janeiro e em Porto Alegre. Mas é uma coisa muito importante. Isso era uma das coisas que dava muita sustentação para ele. Por isso, inclusive, ele tinha que fazer uma política que não fosse desfavorável aos interesses sindicais e dos proletários. Porém, voltando a essa questão militar, é preciso ter cuidado também, porque havia muito militar que era getulista. Havia alguns que ficavam em cima do muro mesmo. Mas aquela era uma época em que essas coisas estavam muito misturadas. E, realmente, o que tem no ambiente interno dentro das Forças Armadas, eles conseguiram criar tamanha instabilidade que acabou inviabilizando o governo do Getúlio. Grande parte do sucesso do Getúlio e de ele ter ficado tanto tempo como presidente da República era o perfil de conciliação. Ele sempre foi um cara com essa característica.

E como será o clima naquele 23 e 24 de agosto de 1954?

Naquela conjuntura toda, com o que ele está ouvindo dos outros, ele realiza uma reunião de ministros. Quer dizer, o que me parece é que ele se viu sem muita saída. Talvez não tenha aventado a questão de uma renúncia como algo viável para ele. Me parece. Claro, são interpretações. É provável que ele tenha pensado que talvez o último ato político mais importante que ele pudesse fazer naquele momento era aquela carta-testamento e se suicidar. O suicídio de Vargas é um ato político e muito importante, que inclusive teve consequências muito grandes. Com toda a propaganda do Lacerda, quase que se criando um ambiente um pouco contrário ao Catete, ao governo dele e tudo mais. Na medida em que ele se suicida e a carta-testamento é lida, a coisa vira de forma muito forte. Com tudo isso, a gente visualiza muito bem o quão político foi esse ato dele.

Como que o senhor vê a política a partir da morte de Getúlio, que foi inclusive um ato inesperado?

É interessante isso porque é um ato inesperado. Quem iria esperar que alguém fosse chegar a esse ponto…? Por exemplo, pensando numa coisa parecida, o [Salvador] Allende [presidente do Chile entre 1970 e 1973, deposto por um golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet com o apoio dos EUA] que morreu no Palácio, mas porque os militares invadiram o Palácio. Quer dizer, o Getúlio poderia ter feito isso? Não sei. Ele fez isso em (19)38. Ele e a família defenderam o Palácio Guanabara no atentado integralista [levante organizado pela Ação Integralista Brasileira (AIB) em maio de 1938]. Lá eles ganharam. Poderiam ter feito? Não sei. Tu tem toda a razão de dizer que o fato dele ter se suicidado foi uma coisa que pegou todo mundo obviamente de surpresa. Então, assim, acho meio complicado falar de ponto zero. Eu vejo aquilo como mais um momento, que por um aspecto, evitou ou adiou algo que estava se gestando do descontentamento militar e os problemas internos nas Forças Armadas que estavam levando a um certo tipo de ação política. Então, já havia nas Forças Armadas alguns grupos que estavam se radicalizando. Bem, quando Getúlio comete o suicídio, era dificíl de conseguir apoio popular para qualquer coisa neste sentido. Me parece que, neste sentido, sim, a gente pode pensar a partir do suicídio de Vargas em um certo retardamento de uma ação militar, que vai acabar acontecendo em 1964, em uma outra conjuntura.

Como é possível pensar o legado deixado por Getúlio Vargas 70 anos depois da sua morte?

Acho que o legado do Getúlio pode se medir por uma fala de Fernando [Henrique] Cardoso, nos anos 90, de que o século XX teria acabado e que teria então que se superar o trabalhismo e o getulismo, e o Getúlio Vargas. O fato dele ter falado isso já mostra que isso nunca foi superado. Quer dizer, nos anos 90, o Getúlio ainda era uma presença marcante importante. Ele tem um lugar nas discussões e nos debates políticos que teremos nas campanhas à presidência [da República], etc. O Brizola estava lá como um que tentava encarnar isso naquele momento. Ao mesmo tempo, o trabalhismo passou a sofrer a concorrência de um outro grupo político, que se organizou a partir do final da ditadura, e que acabou, vamos dizer assim, assumindo um papel mais hegemônico frente aos grupos dos trabalhadores e profissionais, que é o PT. É uma novidade política, que de certa forma, propõe uma superação do trabalhismo clássico, do getulismo.