Uma maratona de encontros públicos com entidades empresariais domina a agenda do governador Eduardo Leite (PSDB) neste mês de março. Neles, ele lista o que considera como grandes avanços de suas duas administrações. Apresenta estatísticas sempre positivas do Estado. Posiciona-se como opositor de Lula, quando diz que “o governo do PT é ruim, porque compromete o futuro do Brasil.” Não menciona diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), de forma a não melindrar a audiência. Insiste na tese de que o RS mantém uma condição fiscal delicada em função de políticas nacionais que beneficiariam demais outros estados e regiões. E, na sequência, ouve elogios e é incentivado a concorrer a presidente. Foi assim durante sua participação na Expodireto Cortijal, em Não-Me-Toque, e na abertura do Fecomércio Debates, em Porto Alegre, ambos na semana passada.
O mesmo roteiro é aguardado para sua palestra nesta terça-feira, 18, na primeira edição do evento INDX, lançado pela Fiergs, no formato reunião-almoço, e que tem por objetivo debater os interesses do setor. E na quarta, quando o tucano abre as reuniões de 2025 do já tradicional ‘Tá na Mesa’, promovido semanalmente pela Federasul. Do agronegócio ao setor de serviços, o empresariado do Estado acredita que “ter de novo um presidente gaúcho” devolveria ao RS um protagonismo que ostentou no passado.
As agendas estão alinhadas à intensificação da aproximação de Leite com os comandos dos setores produtivos, uma parte da estratégia que visa consolidar o entendimento de que ele possui tamanho suficiente para entrar na corrida presidencial. O chefe do Executivo repete o movimento em direção às chamadas organizações do terceiro setor, que representam a sociedade civil em diferentes áreas.
Na palestra na Fecomércio, por exemplo, para embasar sua apresentação, utilizou um ranking desenvolvido pelo Centro de Liderança Pública (CLP), organização fundada por Luiz Felipe D’Avila, que disputou a presidência da República pelo Novo em 2022. Em outra frente, também na semana passada, como forma de alavancar o evento alusivo aos seis anos do programa RS Seguro, que trata de ações na área da segurança, o governo garantiu a participação de especialistas de organizações reconhecidas na área, como os institutos Sou da Paz e Cidade Segura.
O evento da segurança deu o ‘start’ no aprimoramento de ações de comunicação que devem se repetir em diferentes áreas, a depender do momento, sempre seguindo a estratégia que Leite define desde o primeiro mandato como “dedo no pulso”. O aniversário do RS Seguro com pompa aconteceu duas semanas após pesquisa realizada pela Genial/Quaest com eleitores de oito estados detectar a segurança como a área pior avaliada em quatro. Entre eles São Paulo, maior colégio eleitoral do país, e onde o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) desponta como potencial candidato à sucessão presidencial. No RS a segurança foi a segunda área mais mal avaliada, atrás apenas da saúde.
Comandos de partidos aliados consideram que, após, nas próximas semanas, serem definidos o que vai acontecer com o PSDB e se Leite fica ou não no partido, vários outros pontos vão precisar de atenção caso o tucano pleiteie de fato participar da disputa nacional. A começar pelo ajuste no discurso bairrista, que não atrai em nada eleitores para além da fronteira com Santa Catarina.
Os opositores locais têm prontos os questionamentos sobre como o governador resolveria a questão da dívida do Estado com a União caso um dia chegue ao Planalto. E pretendem insistir em lembrar o quanto o RS recebeu de recursos tanto do governo de Jair Bolsonaro (PL) como de Lula (PT) em função de duas tragédias: a pandemia do Covid-19 e as enchentes.
Para além deste ponto, adversários e mesmo aliados identificam duas fragilidades que por enquanto seguem a margem dos debates. A primeira é o resultado concreto das privatizações promovidas pelas administrações do PSDB, com ênfase nos sucessivos problemas enfrentados pelos consumidores de energia elétrica em diferentes cidades. Mais recentemente, há também situações envolvendo o abastecimento de água.
A segunda é a postura frente à tragédia climática que assolou o Estado em 2024, e seus desdobramentos. Já à época, o governador foi questionado insistentemente, entre outros pontos, sobre as flexibilizações promovidas no Código Ambiental e a lei que permitiu o uso, no RS, de agrotóxicos proibidos em seus países de origem. As duas mudanças ganharam destaque na imprensa nacional. Após a tragédia, o RS seguiu avançando em alterações, entre elas a modificação da lei estadual que trata de recursos hídricos e, mais recentemente, as mudanças para concessão de outorga de uso da água.