Política

Liminar que suspendeu votação gera mal-estar político na Assembleia

Tensa reunião de líderes avaliou que houve interferência indevida do Judiciário

Episódio foi discutido em tensa reunião de líderes
Episódio foi discutido em tensa reunião de líderes Foto : Vinicius Reis / Agência ALRS / CP
O ingresso na Justiça e a obtenção de liminar pela oposição, que culminou com a suspensão da votação do projeto de adesão ao Regime de Recuperação Fiscal pelo plenário da Assembleia, não atrapalhou apenas os planos do governo Sartori, mas gerou mal-estar e descontentamento entre parlamentares. O episódio foi discutido em tensa reunião de líderes e a avaliação, inclusive entre deputados de ala da oposição, é a de que houve interferência indevida do Judiciário nas prerrogativas do Legislativo e do próprio Executivo.

Mesmo com o entendimento de interferência, a decisão de apresentar recurso contra a liminar foi definida em placar apertado dos integrantes da mesa diretora. Votaram contra a reação jurídica da Assembleia o presidente da Casa, Marlon Santos, do PDT; Nelsinho Metalúrgico, do PT; e Juliano Roso, do PC do B. Acabaram vencidos pelo posicionamento a favor do ingresso na Justiça de Edson Brum, do PMDB; Frederico Antunes, do PP; Maurício Dziedricki, do PTB; e de Zilá Breitenbach, do PSDB.

A oposição recorreu à Justiça, mas não esperava obter êxito na ação. “É pouco provável que o Judiciário se envolva em um tema como este, meta a mão nesta cumbuca”, chegou a reconhecer um deputado da oposição à coluna na tarde de segunda-feira. Horas mais tarde, a liminar foi concedida. Na prática, a oposição judicializou o caso porque sabia que não venceria o governo no voto, em plenário, e, sim, reduziu o papel do Legislativo, com iniciativa que terá vigência temporária, já que o projeto deve ser analisado, e aprovado, em breve.

Alerta foi dado e ignorado


O projeto de adesão ao Plano de Recuperação Fiscal foi protocolado pelo governo na Assembleia em novembro de 2017. À época, com base em análise técnica da procuradoria-geral da Casa, o então presidente, Edegar Pretto, do PT, avalizou a tramitação da proposta, mas fez alerta, em despacho, de que fragilidades jurídicas do texto deveriam ser analisadas na Comissão de Constituição e Justiça.

Pretto poderia ter negado a admissibilidade, mas não o fez para evitar acusação de que estaria agindo politicamente para prejudicar o governo. Como o Executivo solicitou regime de urgência, que limita a tramitação da matéria a no máximo 30 dias, o projeto cumpriu o prazo e foi ao plenário sem passar pelo crivo da comissão. Mesmo assim, não houve nenhum recurso da oposição ao grupo na tentativa de garantir o aperfeiçoamento do texto.

Expectativa de que aprovação sirva de sinal


Uma das expectativas de integrantes da cúpula do governo Sartori é a de que a aprovação do projeto de adesão ao Plano de Recuperação Fiscal sirva de indicativo ao Supremo para que não avance a análise de recurso da Advocacia-Geral da União. A AGU tenta derrubar a liminar do ministro Marco Aurélio Mello, que desde agosto de 2017, desobrigou o Executivo a pagar o serviço mensal da dívida.

Depende de decisão exclusiva de Marco Aurélio analisar o recurso monocraticamente ou levá-lo à análise do plenário. Caso a liminar seja derrubada, além de voltar a pagar as parcelas mensais, o governo terá de desembolsar o passivo de cerca de R$ 1,2 bilhão.