O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ironizou, em entrevista à TV Record nesta terça-feira, as demandas bolsonaristas por anistia para o ex-presidente Jair Bolsonaro, que procura contar com o instrumento para evitar uma possível prisão decorrente das investigações das quais é alvo. “Tem um monte de gente que nem foi condenado e já quer anistia”, disse Lula sem citar o adversário. “Primeiro, você espera ser condenado, você vai ser processado, julgado, aí, sim, você pode discutir anistia”, disse o presidente. “Mas as pessoas nem foram julgadas e já estão pedindo anistia, significa que essas pessoas estão dizendo 'eu sou culpado’”, disse.
"Estamos em um processo de investigação, de apuração ... Quando esse processo estiver terminado, nós vamos discutir o que fazer, não tem por que colocar o carro na frente do bois”, completou o petista. Além dos inquéritos nos quais é investigado atualmente, como nos casos da falsificação de cartões de vacina, tentativa de golpe de Estado e venda ilegal de joias recebidas como presente no cargo, e cujas possíveis condenações poderiam ser alvo de uma possível anistia, Jair Bolsonaro está inelegível até 2030, após decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Lula discordou da afirmação de que atualmente poucas pessoas teriam coragem de confrontá-lo dentro de sua equipe. De acordo com o presidente, 'muita gente' se sente à vontade para fazê-lo, 'porque eu estabeleço com as pessoas uma relação muito verdadeira, isso com os meus ministros e com outros, que não são do meu governo', afirmando que ninguém está 'proibido' de falar com ele.
“Eu jamais ficarei de biquinho, jamais ficarei de cara feia porque você disse uma coisa que eu não gosto. Se você disser uma coisa que eu não gosto, às vezes essas coisas podem me ajudar mais do que se você fosse uma pessoa lambe-botas”, disse o presidente.
Desde o início do mandato, se fala nos bastidores que, dentro da equipe do presidente, poucos nomes teriam coragem de bater de frente com o petista, o que poderia criar 'pontos cegos' para Lula, que não estaria sendo devidamente informado dos principais problemas de sua gestão.
Lula também discordou que teria mais contato com representantes dos outros poderes nos seus mandatos anteriores. “Não é verdade que tive mais convivência com outros políticos no primeiro mandato que agora”, disse.
O presidente também voltou a citar sua mãe, Dona Lindu, como um exemplo de como aprendeu a ter responsabilidade fiscal, observando como ela fazia a gestão das contas de casa durante sua infância. De acordo com o presidente, ele está 'ciente do que tem que fazer' e que, a exemplo do que aprendeu em casa, o País só vai gastar o que tem, e só vai se endividar 'em alguma coisa que aumente o nosso patrimônio'. O argumento foi usado para justificar o déficit do País ser zero, 0,1% ou 0,2%.
“É apenas uma questão de visão, você não é obrigado a estabelecer uma meta e cumpri-la se você tiver coisas mais importantes para fazer. Esse país é muito grande, é muito poderoso, o que é pequena é a cabeça dos dirigentes desse país e a cabeça de alguns especuladores”, disse Lula, que prometeu fazer tudo com previsibilidade. “Vamos fazer ao meio-dia, não à meia-noite, com todo mundo assistindo”, disse.
Apesar de citar melhoras na economia, o presidente continuou com críticas à taxa básica de juros, tema que o incomoda desde que assumiu a Presidência, em 2022. De acordo com Lula, a taxa de juros é a única coisa que 'não está controlada'. Lula, no entanto, desta vez não citou nominalmente o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.
O líder da autarquia virou o principal alvo do petista devido ao ritmo de queda da Selic, que atualmente está em 10,50% ao ano. Também não agrada o petista a proximidade de Campos Neto com o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).