O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, durante coletiva ao lado do seu homólogo da França, Emmanuel Macron, que o Brasil não deixará a presidência do Mercosul antes que seja feito o acordo entre o bloco e a União Europeia (UE). O governo francês tem colocado entraves para a aprovação das negociações, alegando prejuízo aos agricultores de seu território.
A França, inclusive, lidera um grupo de países europeus reticentes em assinar o acordo, mas a pressão cresce no bloco para a assinatura do pacto como uma medida para aliviar o impacto da guerra comercial desencadeada pelas tarifas de Donald Trump.
O governo da França enfrenta forte oposição de seu setor agrícola, que tem sido protagonista de intensas mobilizações nos últimos anos, e exige que as exportações do Mercosul atendam aos mesmos padrões de produção da UE.
Durante a coletiva com Macron, Lula pediu aos franceses que mudem a ótica ao olhar para o Brasil. "A França deveria ter orgulho de dizer que a maior fronteira dela com qualquer país do mundo é no território amazônico (em referência à Guiana Francesa). A França deveria estar para a América do Sul como está para a Europa", destacou.
O presidente brasileiro enfatiza justamente que o acordo é necessário em um contexto de retorno do protecionismo econômico. “Quero afirmar na frente da imprensa brasileira e francesa que eu assumirei a presidência do Mercosul no próximo dia 6. Não deixarei a presidência do bloco sem concluir o acordo com a União Europeia. Portanto, meu caro (Macron), abraça seu coração", afirmou.
O que acordo facilitaria
A Comissão Europeia, que está negociando em nome da UE, chegou a um acordo comercial em dezembro com Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, embora ainda necessite definir qual mecanismo adotará para aprovação e ratificação pelo lado europeu.
Se for confirmado, a UE poderá exportar mais facilmente carros, máquinas e produtos farmacêuticos, enquanto o bloco sul-americano conseguirá exportar mais carne, açúcar, soja, mel, etc. para a Europa.
Enfraquecimento de relações
Lula disse, ainda, que a relação comercial entre Brasil e França deu “um passo atrás” nos últimos anos e que será preciso “dar agora dois passos à frente”.
“Ressaltei ao presidente Macron que o intercâmbio bilateral não condiz com a envergadura de nossa parceria estratégica. No plano comercial, não é possível que os valores registrados em 2024, US$ 9 bilhões, seja inferior ao observado em 2012. Significa que no comércio demos um passo atrás e é preciso dar agora dois passos à frente”.
Guerras na Ucrânia e em Gaza
Nas declarações à imprensa, Lula também tratou de outros assuntos, dentre eles as guerras na Ucrânia e em Gaza. O presidente brasileiro destacou que tem buscado juntamente com os governos ucraniano e russo a paz, mas no final das contas cabe a eles a decisão final.
Lula afirma que já ficou provada a "insanidade" da guerra e que quando os países decidirem por finalizar o conflito, o Brasil se fará presente nas negociações.
Ao lado de Lula, Macron pediu que Rússia e Ucrânia não sejam tratadas de forma igualitária. "Há um agressor, a Rússia. Há um agredido, a Ucrânia. Todos nós queremos a paz, mas os dois beligerantes não podem ser tratados de forma igual", disse o presidente francês, enfatizando que o Brasil tem "um papel muito importante a desempenhar" na busca de uma solução para o conflito.
Sobre Gaza, Lula acusa Israel de cometer um "genocídio premeditado". "O que está acontecendo em Gaza não é uma guerra, é um genocídio de um Exército altamente preparado contra mulheres e crianças".