Política

“Mais difícil construir consenso” no segundo mandato, diz Melo

Neste balanço de final de ano, o prefeito de Porto Alegre aborda as principais diferenças entre os dois mandatos, concessão do Dmae, déficit no caixa, educação, eleições e futuro político

Sebastião Melo concedeu entrevista exclusiva
Sebastião Melo concedeu entrevista exclusiva Foto : Mauro Schaefer

Mesmo prefeito, outro governo. Sebastião Melo (MDB) completa um ano de segundo mandato na prefeitura de Porto Alegre com o desafio de manter uma base pluripartidária unida. Em entrevista exclusiva ao Correio do Povo, aborda as principais diferenças das gestões Melo I e Melo II. E mais: concessão parcial do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), déficit no caixa, educação, eleições e futuro político são abordados neste balanço de final de 2025.

  • Está plenamente satisfeito com a performance da prefeitura neste ano?

A gente renovou o contrato com a população, mas num momento difícil. No segundo mandato, sempre a população cobra mais, porque no primeiro mandato ela te dá um tempo de espera. No segundo, entende que já tem experiência, então tem que entregar mais. É ótimo ganhar eleição com muito partido, mais difícil é governar. Sempre há mais demandas do que espaço no governo. É uma combinação da política com o técnico. Tivemos bons avanços no primeiro mandato, mas nos reelegemos com um sentido de mais mudança. As entregas têm acontecido, mas estou sempre insatisfeito. Gostaria de entregar mais, mas a ‘burrocracia’ impede mais entregas, muitas vezes. A gente teve avanços importantes na educação, com diminuição da fila, a questão desta relação com os próprios professores, várias construções de escola e obras que estavam inacabadas, assim como a questão dos diretores (fim das eleições diretas). A gente chega ao final do ano ainda com desequilíbrio fiscal, porque a gente gastou mais do que arrecadou, um gasto que veio das enchentes. É o segundo ano que a prefeitura chega desequilibrada. Nos anos anteriores, tudo com equilíbrio fiscal. Acho que tem avanços, mas se você perguntar, eu gostaria de ter feito mais. Não foi possível.

  • Para 2026, o orçamento apresenta equilíbrio.

O orçamento de 2023 nós fechamos com déficit em 2024, o orçamento de 2024 vamos fechar com déficit agora em 2025. No ano que vem, pretendemos recuperar as finanças, mas neste ano não conseguimos.

  • Sobre a educação, que foi eleita como o principal tema do segundo mandato e, na campanha, o senhor prometeu zerar as filas nas creches até o final deste mandato. O secretário Leonardo Pascoal afirmou que iria tentar acabar com as filas nos primeiros dois anos de governo. Como está essa questão?

Nosso compromisso é zerar até o final do nosso mandato. Este ano, nós acolhemos 3 mil na educação infantil. E aprovamos uma lei na Câmara que vai permitir a ampliação dessas escolas conveniadas. Então, vai aumentar um pouco mais de vagas, são 221 escolas. Se atingirmos em dois anos, legal. Nosso compromisso é zerar essa fila até o final do mandato e vamos cumprir rigorosamente.

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  • O que não deu certo, onde teve problema?

Problemas é o que não falta. A segurança pública é um grande desafio da cidade. Ampliamos o Centro Integrado de Coordenação de Serviços da Cidade (Ceic), que está em obras, aumentamos o número de totens da cidade, o número de guardas (municipais). Furto de fios é um problemaço. Morador em situação de rua, por mais que tenhamos avançado, é uma questão dramática na cidade. Tem áreas sensíveis, como a questão de emprego e renda. O custo de vida em Porto Alegre não é barato. A saúde ainda tem problemas sim, pois atendemos boa parte do Rio Grande do Sul.

  • A Secretaria de Desenvolvimento Econômico foi alvo de trocas durante o ano e tem um interino no comando até março. Como solucionar essa pasta?

Se a cidade fosse um trem com vários vagões, o vagão de Desenvolvimento Econômico é o mais importante. Se o desenvolvimento econômico não acontecer, a vida da cidade não acontece em todas as outras áreas. O desenvolvimento econômico sempre foi um carro-chefe da nossa gestão nos quatro anos. Nessa gestão compartilhada, tivemos a primeira secretária que cumpriu ali o papel e entendeu depois que deveria voltar à vida privada. A Fernanda (Barth), eu tinha uma expectativa de que ela permanecesse no governo até março, mas ela tomou uma decisão. Estou conversando com a direção do PL para encontrarmos um nome que dialogue com o desenvolvimento econômico da cidade. Só não temos um novo secretário porque não conseguimos construir juntos isso. Um nome que tenha uma visão de turismo, de negócio, de atração de investimento.

  • Quais são os próximos passos para a concessão parcial do Dmae?

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) teve que refazer a consultoria que eles, por edital, contrataram e nos deu um calendário para entregar os estudos até julho do ano que vem. Após, tenho que mandar para o Tribunal de Contas do Estado (TCE). Então, se der tudo certo, teremos leilão em 2027.

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  • Ano que vem tem eleição e outros secretários deverão deixar a prefeitura para concorrer. Como pensa em repor essas baixas?

O critério será o mesmo. Secretário não indica sucessor. Quando é um secretário político, é construído com o partido que deu origem, com a força política que indicou. Se é um secretário técnico, o prefeito junto com a vice constrói. Eleição e democracia são importantes, mas não vou permitir que interfiram nos avanços que a cidade precisa ter. Os secretários saem e vamos botar bons quadros que possam tocar a política aqui.

  • Quais as principais diferenças na relação com a Câmara do governo passado para o atual?

Tenho origem no Legislativo e sei conviver com as diferenças dentro da base e na oposição. A oposição aumentou a sua participação. Tinha dez representantes e agora tem 12. No caso da CPI, é um direito da minoria de instalar. Acho que, no Brasil, as CPIs não têm dado muito certo, nem lá em cima (Congresso), nem nas assembleias, nem no município. Elas politizam demais e acabam não aprofundando. Existem outros órgãos com mais eficiência. Quanto à base, foi a base que a eleição nos deu. E ela tem diferença, sim, no olhar a cidade. É muito mais difícil, precisa trabalhar mais, conversar mais, para construir consenso. Até agora, a gente construiu todos os consensos necessários para poder aprovar na Câmara. Tem temas mais tensionados, temas menos tensionados. Essa questão da planta genérica de valores (do IPTU) é um processo mais tensionado.

  • Na base, há um bloco formalizado de 10 vereadores de direita, que anunciaram voto contrário ao IPTU. Tem sido mais difícil articular com esse bloco?

Eu nunca tratei e não vou tratar até o final do governo como blocos. Somos base de governo. Se, internamente, quer formar bloco, não compete a mim. Mas não tratarei como bloco da centro-esquerda, bloco do centro ou bloco da direita. Somos uma base construída na urna. Eu nunca fui um prefeito de botar nada goela abaixo. Ou você convence ou não convence. Se tem vereador que não está convencido, vou respeitar, mas isso tem consequência. Bom, se não votar a planta de valores (do IPTU), a cidade perde em desenvolvimento econômico. A democracia tem dessas coisas. Não vou sair por aí afrontando a Câmara. Esse é um governo liberal social. Cuida do liberalismo, mas tem uma vocação social muito forte. E sem dinheiro para o social, não tem entrega.

  • Como cobrar alinhamento da base quando o partido da vice-prefeita, o PL, abre publicamente voto contra um projeto da prefeitura?

Não tem outro caminho, temos um casamento de quatro anos e tivemos uma DR (discussão de relação) no primeiro ano, nesse tema pontual (do IPTU), uma discussão de relação, e a gente tem que recompor, afinal fomos eleitos para enfrentar problemas.

  • Essas divergências não antecipam, de certa forma, uma eleição que terá PL contra MDB?

Estou 100% dedicado ao municipalismo. Não tenho ido nem nos encontros do MDB no interior. Tenho uma vida partidária de 45 anos. MDB é o partido das divergências e convergências. Mas estou dedicado à cidade. Há quatro candidaturas na base do governo. Tenho que ter cuidado, pois, além de 2026, ainda tenho 2027 e 2028.

| Foto: Mauro Schaefer
  • Seria possível uma grande frente de centro-direita, do PL ao MDB, em 2026?

Não quero entrar nessa seara. Quero ficar na seara municipal.

  • A próxima pergunta seria se haveria possibilidade de o senhor sair para se candidatar.

É natural. Muitos prefeitos de Porto Alegre ascenderam à condição de candidato ao governo do Estado. Recebo manifestações no Interior, na Região Metropolitana, em Porto Alegre. Mas eu fui reeleito para ser prefeito em um momento dramático da cidade. Não está na minha pauta ser candidato e não faltam candidatos para os partidos que me apoiam.

| Foto: Mauro Schaefer