Política

"Militares não buscam protagonismo no governo", diz ministro da Defesa

Para o general do Exército, Joaquim Silva, maior participação militar na gestão de Temer foi circunstancial

"Militares não buscam protagonismo no governo", diz ministro da Defesa
"Militares não buscam protagonismo no governo", diz ministro da Defesa Foto : Fernando Frazão / Agência Brasil / CP
Primeiro integrante das Forças Armadas a comandar o Ministério da Defesa, o general do Exército Joaquim Silva e Luna, de 68 anos, afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo que "militares não buscam protagonismo" ao assumir funções no governo. Para ele, a maior participação na gestão do presidente Michel Temer é "circunstancial". Em sua primeira entrevista após assumir o cargo interinamente, o que ocorreu na última quinta-feira ele refutou a ideia de um possível uso eleitoral da intervenção no Rio por Temer e devolveu a pergunta com outras.

O Exército no governo

"Não se busca protagonismo. Entendemos (a maior participação de militares) como cumprimento de destinação constitucional. Quando um militar escolhe esta profissão é por vocação. Não se pode deixar de contribuir, com sua experiência, em área de gestão e administração, só porque se é militar. Aí parece que o militar não integra a sociedade. Seria falta de bom senso. E isso é circunstancial, não vemos isso como protagonismo. A colaboração de militares que foram convidados e aceitaram participar do desafio incomoda? Não incomoda porque é nossa missão. No momento o País precisa disso e estamos disponíveis."

Militares e uso eleitoral

"Não vi essa percepção em canto nenhum. Posso falar pelas três Forças (Exército, Marinha e Aeronáutica). Não percebo dessa forma. O presidente é o comandante supremo das Forças Armadas e ele se comunica bem com as Forças. Ele busca esse contato. O que existe hoje é a necessidade de participação de todos os brasileiros na busca de solução dos problemas de segurança pública." Intervenção como agenda positiva - "Eu vejo a percepção do presidente igual ao da população. Existia causa mais urgente do que segurança pública? Principalmente no Rio de Janeiro? Não existe nada mais urgente do que isso aqui. É a história da prioridade e da urgência. Tem assunto que é prioritário. Tem outro que, além de ser prioritário, é urgente. E ele (Temer) foi atender a uma urgência que é a questão da segurança pública."

Violência 

"O nível de insegurança pública chegou a um ponto insuportável. Vimos uma senhora pedindo socorro e isso nos doeu e emocionou. Não existe uma solução mágica. Precisamos de integração, inteligência e legislação. Há um desalinhamento entre quem prende, quem libera e quem julga. Não há garantia de o preso ser punido pelo crime que cometeu. Maior vulnerabilidade é o desemprego, que torna o indivíduo vulnerável. Um garoto que vai pro crime ganha R$ 4 mil por semana."

Ministério da Segurança Pública

"É fundamental. Há uma convergência de preocupações, mas o grande clamor é por dinheiro para segurança pública. A Constituição de 1988 deu responsabilidades, mas não prevê os recursos." Forças Armadas no combate à violência - "O emprego excessivo das Forças Armadas é uma preocupação, sim. Já existe a Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Nos países vizinhos, onde as Forças Armadas se envolveram no combate ao crime, houve contaminação como na Colômbia. Hoje 60% do pessoal das Forças é temporário. Dos 222 mil militares, 135 mil são temporários e 75 mil são recrutas. Esse pessoal, quando sai, depois de treinado, pode ser cooptado pelo crime, daí a preocupação também."

Cooptação de militares no Rio

"O prazo (da intervenção no Rio) é muito longo até dezembro. Há preocupação com a contaminação da tropa, mas não vimos outra solução."

Desarmamento

"Tem países que armam a população como forma de aumentar a segurança, mas não vejo que um homem armado vá ajudar na segurança, sobretudo se for um homem despreparado. O que tem de acontecer é desarmar o bandido, porque senão vai desequilibrar esse jogo. Caso contrário, vai se cometer o erro de que, se não é possível desarmar o bandido, arma-se a população, o cidadão de bem. A solução não passa por aí, a solução é desarmar o bandido.

Regra de engajamento

"Precisam ser muito claras e bem definidas para que o soldado saiba exatamente a hora que pode ou não atirar, se há intenção hostil. As Forças Armadas estão preparadas e hoje o combate se dá no meio do povo." 'Governos fracos apelam a militares' - "Cada um tem a sua percepção a partir de suas convicções e experiências. A ideia de separar civis e militares é retrógrada, é olhar tão para trás. A defesa é questão de todos os brasileiros." Salário dos militares - "Está muito defasado, o salário do coronel, que é o ultimo posto da carreira militar, é menor do que o valor inicial de muitas outras carreiras de Estado. A situação salarial é crítica, principalmente para os praças."