O ministro da Transparência, Fiscalização e Controle, Torquato Jardim, disse em entrevista concedida no dia 18 de maio, em Teresina, no Piauí, que os partidos políticos brasileiros são um "balcão de negócios" e que o Centrão, formado por 225 deputados de 13 partidos foi montado "em nome da corrupção e da safadeza". O grupo parlamentar é o maior da Câmara e dá sustentação ao governo do presidente em exercício, Michel Temer.
As declarações foram dadas por Torquato durante o 6º Congresso de Ciência Política e Direito Eleitoral do Piauí, evento do qual foi palestrante, antes de ser convidado para assumir o ministério da Transparência. Trechos da entrevista foram publicadas na quinta-feira pelo jornal O Diário do Povo, do Piauí. O áudio da entrevista foi revelado nesta sexta-feira pelo portal estadao.com.br.
Na ocasião, Torquato também se mostrou cético com a possibilidade de as investigações e condenações da Operação Lava Jato resultarem no fim da corrupção sistêmica no País.
"O que mudou com o impeachment de (Fernando) Collor ? O que mudou no Brasil depois da CPI do Orçamento, quando os sete anões foram cassados? O que mudou com o mensalão? O que vai mudar com a Lava Jato?", questionou o ministro. "Enquanto o mensalão estava sendo condenado, a Lava Jato estava sendo operada. Eles aconteceram ao mesmo tempo."
Ao ser questionado sobre as ações de combate à corrupção e o que ele imaginava que deveria ser feito para aumentar a eficácia dessas ações, Torquato respondeu com ironia e bom humor: "Se eu soubesse o que fazer, eu ganhava o Prêmio Nobel. Ganhava o Oscar da política."
Torquato que é advogado e ex-ministro do TSE, foi nomeado para a pasta da Transparência anteontem, em substituição a Fabiano Silveira, que deixou o cargo após a divulgação de áudios de conversas nas quais ele discutia estratégias de defesa de investigados da Lava Jato. As gravações foram feitas pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, que fez acordo de delação premiada com o Ministério Público já homologado pelo Supremo Tribunal Federal.
Partidos
Ao falar sobre o sistema político brasileiro, Torquato disse que no País, "partido político é um balcão de negócios todos com o mesmo programa, com o mesmo propósito". E deu como exemplo o Centrão, que reúne deputados do PP, PR, PSD, PRB, PSC, PTB, Solidariedade, PHS, PROS, PSL, PTN, PEN e PTdoB.
Para o ministro, o grupo de parlamentares "é um vexame triste para a cidadania brasileira em que o baixo clero se reúne contra o presidente Michel Temer. E não é em nome da governabilidade, é em nome da corrupção e da safadeza." Para ele, as medidas contra a corrupção não surtem o efeito esperado porque os envolvidos nas denúncias nem sempre são punidos pelo eleitor. "Vivemos num País em crise. Não sei qual a esperança que temos. O Brasil vive da ração e não da razão. Qualquer programinha social onde se distribua bônus disso, bônus daquilo, se ganha a eleição", afirmou.
"O Brasil tem que sair da ração para chegar à razão. O Brasil tem que sair da senzala para chegar à Casa Grande. Quando isso acontecer, se muda a história", completou Torquato. "Se há esperança? Não sei. O Brasil tem que ressurgir. Temos que descobrir o que é ser brasileiro. Nós somos Estado, antes de sermos uma sociedade civil", afirmou
O ministro confirmou que concedeu a entrevista e o conteúdo de suas afirmações em Teresina. Ele procurou minimizar as declarações, que provocaram forte reação entre líderes partidários na Câmara.
Torquato Jardim é advogado em Brasília desde 1979, foi ministro do Tribunal Superior Eleitoral entre 1992 e 1996 e entre 1988 e 1992. Também presidiu o Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral (Ibrade) no período de 2002 e 2008.
Professor de Direito Constitucional na Universidade de Brasília por quase 20 anos, Torquato Jardim é pós-graduado pela Universidade de Michigan, na Universidade Georgetown (Washington) e no Instituto Internacional de Direitos do Homem (Estrasburgo, França, 1982). Ele foi advogado do governo brasileiro na Comissão de Empresas Transnacionais das Nações Unidas em New York e Genebra, em 1980 e 1981.
Ministro da Transparência vincula Centrão a "corrupção" e "safadeza"
Grupo parlamentar é o maior da Câmara e dá sustentação ao governo Temer