Política

Ministro nega que governo tenha desistido de propor reforma trabalhista

Segundo Ronaldo Nogueira, prioridade seria resolver déficit fiscal no país sem pressa

Segundo Ronaldo Nogueira, prioridade seria resolver déficit fiscal no país sem pressa
Segundo Ronaldo Nogueira, prioridade seria resolver déficit fiscal no país sem pressa Foto : Lucas Basilio / Ministério do Trabalho / CP
O ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, negou a suspeita de que o governo do presidente Michel Temer tenha desistido de propor uma reforma trabalhista ao Congresso Nacional. A declaração foi dada após ele participar de mais uma edição do Fóruns Estadão - Brasil Competitivo que, nesta edição, aborda questões trabalhistas.

A especulação sobre a possibilidade de desistência do projeto ganhou força após comentários do ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha e também de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de terça sobre jornada de trabalho. Na segunda-feira, o ministro Padilha afirmou que a reforma trabalhista vai acontecer "naturalmente", sem precisar do envolvimento do Executivo.

Na ocasião, Padilha citou projetos de lei que já estão em tramitação no Congresso e processos em curso no Judiciário que tratam de questões como a terceirização do trabalho, ao dizer que o governo não precisa abrir frente nesse assunto. Na terça, o STF julgou constitucional a jornada do bombeiro civil com 12 horas de trabalho para 36 horas de descanso, abrindo jurisprudência acerca da flexibilização de regra trabalhistas.

Questionado se o governo desistiria de enviar a reforma a partir de decisões importantes como essa, Nogueira afirmou apenas que não comenta decisões do STF. "Os assuntos que dizem respeito à legislação trabalhista nós estamos construindo, conversando com sindicatos, trabalhadores e empregados", disse.

No seu discurso na edição desta quarta do Fóruns Estadão, o ministro anunciou que a proposta de mudanças na legislação trabalhista deve ser enviada ao Congresso Nacional no segundo semestre do ano que vem. Anteriormente, Nogueira vinha dizendo que a reforma seria apresentada ainda neste ano.

"Precisamos fazer uma coisa de cada vez. A prioridade agora é resolver a questão do maior déficit fiscal da história do País. Não dá para resolver tudo de forma apressada. A orientação do presidente Michel Temer é que a sociedade participe do debate. Nesse primeiro momento, a prioridade é o déficit fiscal, mas a atualização da legislação trabalhista é uma necessidade", afirmou em conversa com jornalistas após sair do palco.

O ministro voltou a dizer que nenhum trabalhador vai perder direitos e que o objetivo do governo é modernizar a legislação. Em uma crítica ao governo Dilma Rousseff, ele afirmou que a verdadeira ameaça de perda de direitos ocorreu até maio, lembrando que só em 2015 foram destruídas mais de 1,5 milhão de vagas de trabalho.

Questionado se, enviando a proposta de reforma trabalhista no segundo semestre de 2017, será possível aprovar o projeto ainda no governo Temer, o ministro tergiversou. "Os governos são transitórios, nós precisamos pensar o Brasil da próxima geração, não podemos pensar em ações pontuais e imediatas", afirmou.

Polêmica

Ronaldo Nogueira disse que o governo do presidente Michel Temer não vai suprimir nenhum direito dos trabalhadores. No discurso durante a edição do Fóruns Estadão Brasil Competitivo, ele citou a polêmica gerada com estudos que o governo estaria fazendo para ampliar a jornada de trabalho para 12 horas diárias.

"Jamais defendi qualquer supressão de direitos, tampouco um aumento de jornada diária de trabalho para 12 horas, o que seria um verdadeiro disparate", afirmou Nogueira em discurso. Ele destacou que o governo não vai propor aumento da jornada de trabalho de 40 horas semanais, que não haverá supressão do 13º salário, FGTS, férias remuneradas, repouso semanal remunerado e "muito menos" o fim do aviso prévio indenizado ou do vale transporte e refeição.

"A orientação do presidente Michel Temer é muito clara, é de preservar direitos. Pois direito não se revoga, direito você aprimora", afirmou Nogueira. O ministro disse que o governo Temer é "preocupado" com o trabalhador. Rebatendo a tese que ele teria sugerido o estabelecimento de uma jornada de trabalho diária de 12 horas, ele afirmou que ninguém de bom senso faria a proposta.

Garantia na Constituição

O professor de Direito da USP, Nelson Mannrich, afirmou que o País não precisa de uma nova lei que trate sobre a prevalência dos acordos coletivos sobre a legislação trabalhista, pois esse mecanismo já está previsto na Constituição. "Não precisaríamos de uma lei do negociado sobre o legislado. A constituição já reconhece os acordos coletivos, mas falta
espaço para os atores negociarem."

Para Mannrich, o grande problema é a falta de legitimidade dos sindicatos, porque muitas categorias não vão ter força para pleitear com as empresas. Segundo ele, por esse motivo, muitas vezes o Tribunal Superior do Trabalho não reconhece os acordos e, por isso, defende uma reforma sindical. "Quando o TST não reconhece o acordo coletivo, reflete a falta de legitimidade que esses atores têm, o que leva à necessidade de uma reforma sindical. Nós precisamos avançar nesse sentido."

França

O pesquisador da Universidade de Paris Nicolas Chenevoy destacou em São Paulo que a reforma trabalhista aprovada neste ano na França valorizou os acordos coletivos entre empresas e sindicatos ou até mesmo entre companhias
diretamente com seus trabalhadores.

Ele salientou que a proposta colocada em prática a partir de agosto deste ano no País coloca o governo para acompanhar e controlar as empresas, além de proteger o trabalhador. "O governo tem missão de controlar e acompanhar as empresas, não só de oferecer proteção ao empregado", disse o pesquisador, durante o Fóruns Estadão Brasil Competitivo, na sede do Grupo Estado.

Para ele, as negociações coletivas são mais eficientes em determinar as relações de trabalho diante das mudanças tecnológicas que afetam o mercado. "O problema hoje é adaptar o marco jurídico à mesma velocidade que as transformações introduziram ao mercado frente às novas tecnologias", disse. Para ele há uma dupla constatação na nova legislação trabalhista francesa: uma proteção aos trabalhadores e um asseguramento às empresas.

Ele citou mudanças introduzidas na lei, como a determinação de, no máximo, 48 horas semanais para os empregos nas empresas. O termo ainda pode ser adaptado por acordos entre sindicatos e empregados. "A mudança era colocada como necessária para oferecer aos trabalhadores melhores condições e uma flexibilização para satisfazer necessidades da revolução digital, que não tem precedentes", relatou.

Chenevoy também comentou as reações populares que ocorrem contra a reforma no país e falou que, apesar das polêmicas, as regras aprovadas cumprem com a ordem pública e social. Segundo o pesquisador, em dois anos todos os trabalhadores da França estarão adaptados à nova legislação.