Política

Oposição usa Lava Jato para fazer terceiro turno, diz ministro da Justiça

Para José Eduardo Cardozo quem defende impeachment de Dilma tem "problema psicológico"

Oposição usa Lava Jato para fazer terceiro turno, diz ministro da Justiça
Oposição usa Lava Jato para fazer terceiro turno, diz ministro da Justiça Foto : Valter Campanato / Agência Brasil / CP
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, acusou nessa quarta-feira o PSDB de usar fatos da Operação Lava Jato, que revelou um esquema de corrupção na Petrobras, para "apagar o passado e criar um clima passional no País" contra a presidente Dilma Rousseff. No diagnóstico do ministro, quem defende o impeachment de Dilma tem "problema psicológico".

Com a silhueta 12 quilos mais magra após fazer a mesma dieta da presidente, mas com apetite para o ataque, Cardozo ressuscitou o clima do "nós contra eles" da campanha eleitoral e afirmou que depoimentos obtidos pelo Ministério Público indicam que o esquema na petrolífera vem desde 1997, quando o presidente era Fernando Henrique Cardoso. "Há uma corrupção histórica na Petrobras. "O governo vai enviar ao Congresso, nos próximos dias, um pacote de medidas para combater a corrupção. Não é o mesmo que trancar a porta depois que a casa foi arrombada? Não. Avançamos muito no combate à corrupção. Se não tivéssemos tomado as medidas que tomamos desde o governo do presidente Lula e durante o governo da presidenta Dilma, nós não teríamos hoje a investigação no padrão que temos.

Mas as propostas são antigas e muitas já tramitam no Congresso há tempos, como a que prevê o confisco dos bens de funcionários públicos corruptos. Por que o governo só vai agir agora, no rastro da Operação Lava Jato?  


"Há medidas que estão em discussão no Congresso, mas há outras novas. O caixa 2 eleitoral, por exemplo, tem que ser considerado crime. Além disso, o Brasil há muitos anos firmou o tratado de Palermo, que fala da necessidade de combatermos o enriquecimento sem causa. Mas, segundo juristas, o confisco exige uma norma constitucional." 

O governo está sob cerco político e a oposição convoca manifestações pelo impeachment. Como o Planalto deve reagir?

"Eu não diria que o governo está sob cerco político. Eu diria que existem pessoas que ainda não entenderam o resultado das urnas e querem o terceiro turno. Antes mesmo da posse, estavam convocando atos para defender o impeachment da presidenta. Agora, a Lava Jato está sendo aproveitada por lideranças políticas para fazer imputações indevidas à presidenta Dilma. Eu acho curioso porque não há absolutamente nada em relação a ela. Os depoimentos da Lava Jato mostram que a corrupção na Petrobras começa muito antes do governo Lula, infelizmente. Segundo depoimento de um dos delatores (Pedro Barusco, ex-gerente executivo da Petrobras), começa em 1997. No entanto,
ninguém fala - nem poderia falar - que Fernando Henrique Cardoso foi conivente ou estava envolvido naqueles fatos."

O senhor está dizendo que o governo Fernando Henrique fechou os olhos para a corrupção?

"Não. O que digo é que não existe nenhum fato que possa implicar a presidenta Dilma. Isso é de uma evidência
solar. Quem tenta envolver a presidenta age com dois pesos e duas medidas. Aqueles que querem fazer isso têm motivação política e problema psicológico, por não aceitarem o resultado das urnas. Exibem sentimento de frustração. Infelizmente há uma corrupção histórica na Petrobras, que agora é descoberta. É como uma doença que se descobre depois, com o diagnóstico correto."

Mas foram 12 anos para o diagnóstico? O senhor acha crível que ninguém soubesse de nada?


"Não foram 12 anos para diagnosticar. As pessoas que sabiam ou participavam serão, obviamente, objeto de
apuração e investigação. Existe a tentativa de algumas lideranças de criar um clima de revanche eleitoral. Fico espantado ao ver pessoas que, embora sem tomar as medidas necessárias para que a corrupção fosse investigada, tentem hoje, subitamente, apagar o passado, colocar o problema no presente e criar um clima passional que contradiz com o espírito democrático que sempre tiveram."

A situação do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, acusado de desvio da Petrobras para abatecer o caixa do partido constrange o governo?


"Um governo que busca combater a corrupção não se sentirá minimamente constrangido em relação a nenhuma investigação. O que é importante ter claro é que jamais podemos prejulgar alguém, seja ele petista, seja ele tucano ou quem quer que seja. Não vivemos numa arena romana."

O que mais preocupa o governo: os desdobramentos da nova CPI da Petrobras ou a lista de políticos suspeitos, muitos da base aliada, que será enviada ao Supremo pela Procuradoria-Geral da
República?


"Se nós não quiséssemos que a investigação ocorresse, poderíamos estar preocupados, mas não estamos."

Antes da eleição se dizia que Lula teria protagonismo em um eventual segundo mandato, mas isso não está ocorrendo. Nesta quinta a presidente deve se encontrar com ele, mas até agora havia um distanciamento.

"Não há distanciamento. O presidente Lula tem um protagonismo natural em qualquer conjuntura. Seguramente as opiniões dele são e serão sempre úteis ao governo."

A articulação política do governo está sendo criticada até pelo PT após a vitória de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara. Haverá mudanças?

"Eduardo Cunha pertence a um partido muito importante para o governo, o PMDB, e saberá respeitar a autonomia do Legislativo. O ministro Pepe Vargas (Relações Institucionais) sempre foi um parlamentar competente. Tenho visto pessoas que também defendem minha saída (risos)."

Entre as pautas que Cunha sugere está a PEC da Bengala. Se aprovada, o governo sofrerá uma grave derrota, pois Dilma deixaria de nomear cinco ministros do Supremo até 2018...


"Mudanças constitucionais não devem se ater a discussões casuísticas, sobre quem vai nomear mais ou menos, se fulano de tal deve ou não se aposentar. Mudanças constitucionais devem ser sempre consideradas sob a ótica da melhoria institucional do Estado brasileiro. Esse é o caminho correto do debate."