Política

Os argumentos favoráveis e contrários a Lula no TRF4

Tribunal em Porto Alegre analisa acusação sobre triplex do Guarujá

Tribunal em Porto Alegre analisa acusação sobre triplex do Guarujá
Tribunal em Porto Alegre analisa acusação sobre triplex do Guarujá Foto : Sylvio Sirangelo / TRF4 / Divulgação CP
Porto Alegre será palco, nesta quarta-feira, do debate jurídico mais importante do ano, no julgamento do recurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra a condenação por corrupção. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) terá três de seus juízes analisando as acusações contra Lula, aceitas pelo juíz Sérgio Moro. Em contraponto, a defesa do político busca reverter a condenação.

Leia os argumentos:


ACUSAÇÃO

A acusação foi elaborada pelos procuradores federais da força-tarefa da Lava Jato no Paraná. Segundo eles, em 2005, Lula deu início ao pagamento de um apartamento simples em um empreendimento imobiliário no Guarujá, então a cargo da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop). Ainda conforme o MPF, em 2009, após assumir o empreendimento, a OAS teria disponibilizado ao ex-presidente um tríplex, sem cobrar a diferença de valores entre os imóveis.

Mais tarde, em 2014, o apartamento passou por reformas que objetivariam atender às necessidades determinadas pela família de Lula, sem a cobrança de qualquer valor. O cálculo da vantagem indevida em relação ao imóvel apontado na sentença de primeira instância é de R$ 2,4 milhões. A OAS teria arcado com os valores como parte do montante da propina paga ao PT e a Lula em troca de contratos por licitações fraudadas. Após a sentença em Curitiba, os procuradores paranaenses ingressaram com recurso solicitando o aumento da pena do ex-presidente, justificando que ele cometeu três e não um ato de corrupção, uma vez que os valores seriam referentes ao pagamento de propina por três contratos diferentes da OAS com a Petrobras.

O procurador regional da República Maurício Gotardo Gerum, do MPF no Estado, responsável pelo parecer do processo na segunda instância, acolheu a tese de três atos de corrupção e aumento da pena. Dos argumentos da defesa de Lula, o procurador só aceitou o da diminuição dos dias-multa impostos como parte da pena. Gerum também representará o MPF no julgamento.

DEFESA

A defesa está centrada em quatro pontos. O primeiro é o de que o tríplex continua em nome da OAS, sem provas de sua transferência a Lula. A OAS usou o imóvel em operações financeiras com um fundo da Caixa Econômica Federal em 2011 e decisão judicial de 2017 determinou a penhora do imóvel para quitar dívidas da construtora. O segundo argumento é de que não foi identificado ato de Lula, o chamado "ato de ofício", para beneficiar a OAS e, no primeiro grau, o juiz Sérgio Moro embasou a sentença referindo-se a "atos indeterminados", utilizando a técnica dos "saltos lógicos".

Entre criminalistas costuma prevalecer o entendimento de que, para uma condenação por corrupção passiva, é preciso haver conexão direta entre o favorecimento dado e a vantagem recebida em troca. O terceiro ponto está ligado ao segundo. A defesa diz que o próprio Moro prejudicou a acusação quando, ao julgar embargos de declaração, respondeu que o juízo jamais afirmou que os valores obtidos pela OAS nos contratos com a Petrobras teriam sido usados para pagamento de vantagem indevida a Lula.

Também se valendo do despacho, a defesa solicitou a anulação da sentença. O quarto ponto é a teoria de que o julgamento e a condenação, até aqui, são políticos. Nos memoriais que precedem o julgamento, entregues no TRF4 na segunda-feira, a defesa de Lula, além da absolvição e da anulação do processo, pede que, se mantida a condenação, seja levada em conta a prescrição da pena, já que a “suposta consumação” dos crimes pelos quais se deu a condenação em primeiro grau teria ocorrido em 2009.