O Rio Grande do Sul convive com um dilema desde maio de 2024. O Estado precisa solucionar a difícil equação de evitar que novas tragédias climáticas, com as enchentes do ano passado, possam colocar sua população novamente em risco.
Construção de diques, planejamento urbano, planejamento hídrico, investimento em engenharia e tecnologia, deslocamento populacional, armazenamento de água, desacelerar o curso dos rios, entre outras soluções estão em discussão. Com poucos recursos financeiros disponíveis, em um Estado que há anos busca deixar uma crise fiscal, parece uma missão impossível – que só pode ser superada elegendo prioridades, avalia a enviada Especial para Assuntos Internacionais da Água da Holanda, Meike van Ginneken.
“Nunca tem dinheiro suficiente para tudo em todos os países, mesmo nos países ricos. É necessário estabelecer prioridades. Eu acredito que, neste momento, após a limpeza, é preciso pensar em soluções de médio e longo prazo. Pensar no que é preciso fazer antes, em quais comunidades é preciso começar, quais são as soluções”, afirma Meike van Ginneken.
Van Ginneken cumpriu roteiro no Rio Grande do Sul nos últimos dias. Ela viajou ao Brasil para participar da COP30, em Belém do Pará, e aproveitou a oportunidade para conhecer de perto o que aprendeu sobre as enchentes no Estado durante uma expedição gaúcha nos Países Baixos em fevereiro de 2025.
Ela visitou vários locais que sofreram com inundações em Porto Alegre, como a região das Ilhas, e conheceu o Delta do Jacuí de barco, além de participar de reuniões com autoridades. “Ainda é possível ver nas paredes o quão alto foi o nível da água. Quando você conversa com as pessoas e percebe que a água não esteve lá por um, dois ou três dias, mas por quatro, cinco semanas… só assim é possível entender o real impacto. Você pode ler artigos, ver fotos, mas estar presente é realmente algo que vou levar comigo”, relatou Van Ginneken.
A enviada especial é referência mundial em gestão hídrica e a Holanda é um país com séculos de experiência com cheias. Assim, visitou o Estado junto a uma comitiva do Escritório de Apoio aos Negócios da Holanda com foco na ampliação da cooperação internacional no enfrentamento às enchentes.
“Há diferentes alternativas e a Holanda pode ajudar com conhecimento de engenharia e de planejamento. É preciso olhar para as bacias hídricas como um todo. Por que tanta água desce pelos rios e como evitar que a água venha toda ao mesmo tempo? E também armazenar água para garantir que a água não vá para os rios imediatamente, desacelerar um pouco”, pontua.
“Muitas das soluções para adaptação climática passam por reservar água para usar nos períodos de seca e impedir que ela chegue toda ao mesmo tempo, inundando cidades. É preciso perceber que 99% da água armazenada está na natureza. Está em cachoeiras, em lagos, em zonas úmidas. Quando se fala em reservar água, as pessoas pensam em grandes barragens. Mas muito disso é sobre preservar a natureza e ter certeza que a água será reservada na natureza”, diz ainda Van Ginneken.
Deslocamento populacional deve ser último recurso, mas pode ser necessário
A adaptação climática tem limites. O aquecimento global e a emergência no clima ensejam que eventos adversos como as enchentes de 2024 sejam cada vez mais frequentes em todo o planeta Terra. Há regiões que dificilmente poderão voltar a ser habitadas – como o bairro Passo de Estrela, no município de Cruzeiro do Sul, onde 700 casas foram devastadas pela força do Rio Taquari. Assim como há locais que, historicamente, alagam – caso da região das Ilhas, em Porto Alegre.
“Soluções não são apenas sobre infraestrutura. Soluções também são sobre comunidades. Como planejar onde as escolas, os prédios públicos estão, como garantir que as casas que as pessoas vivem são resilientes. É sobre pessoas e comunidades. Nem para as ilhas, nem para o RS, você pode dizer ‘ok, construa um dique lá e tudo está pronto’. É sobre como a comunidade local quer ver seu futuro”, afirma Meike van Ginneken.
“Reassentamento é uma coisa muito difícil de se fazer e deveria ser a última medida. As pessoas se importam com seu lar, com o lugar que cresceram, sua escola, sua vizinhança, sua igreja. Primeiro de tudo, temos que pensar se é necessário. Mas, às vezes, quando você vive em uma área que inunda todo ano e que não pode ser protegida, pode ser uma razão para fazer isso. É muito importante ter uma boa conversa com as pessoas, explicar para garantir que elas tomem suas próprias decisões e garantir que a vida que elas terão no futuro será melhor do que a vida que têm hoje. Conheço experiências em que as pessoas estavam muito reticentes em se mudar e, quando o processo foi concluído, depois de dois ou três anos, entenderam que foi para melhor”, relata a enviada Especial para Assuntos Internacionais da Água da Holanda.
Planejamento urbano e reservação de água para irrigação
Pensando sobre a dinâmica nas cidades, a neerlandesa destaca três prioridades: “Apostar em engenharia e tecnologia, mas também aprendemos que não são suficientes. Também precisamos armazenar água e planejar as cidades para que, quando as chuvas vierem, haver certas áreas para reter a água. A terceira é planejamento urbano. É difícil, as cidades do Brasil cresceram de forma não tão planejada, mas é preciso ter atenção para onde há riscos de inundação, de onde a água vem, e talvez fazer mudanças no planejamento urbano”, elenca.
Ela cita exemplos holandeses de cidades que contam com lugares como quadras de basquete, por exemplo, que ficam fechadas para servir de reservatórios de água em períodos de grandes chuvas.
Há, no RS, o debate sobre armazenar água para utilizar na irrigação agrícola, de forma a driblar períodos de seca e estiagens que recorrentemente ocasionam quebra de safra na produção de grãos. Os próprios holandeses reverteram seu excesso de água para o cultivo de diferentes culturas ao longo das décadas. Van Ginneken, no entanto, alerta para o uso consciente de recursos hídricos.
“É importante manter a água das chuvas para os períodos secos. E temos que pensar em para que precisamos da água. Em todo mundo, 85% da água é usada na agricultura. Às vezes, precisamos pensar qual é o melhor uso para a água”, afirmou.