Política

Procuradores dizem que projeto de ajuda aos Estados é ilegal

Plano de Ajuste Fiscal interfere na autonomia e deixa governadores à mercê dos humores do governo federal

Plano de Recuperação Fiscal encaminhado pelo presidente Michel Temer (PMDB) ao Congresso
Plano de Recuperação Fiscal encaminhado pelo presidente Michel Temer (PMDB) ao Congresso Foto : Marcelo Camargo / Agência Brasil / CP
O Plano de Recuperação Fiscal encaminhado pelo presidente Michel Temer (PMDB) ao Congresso, na forma do PLP 343, fere o princípio de autonomia dos Estados brasileiros e viola dispositivos constitucionais que definem a independência entre os poderes estaduais e responsabilidades entre os entes federados, de acordo com as entidades nacional e gaúcha de procuradores estaduais.

“O estado brasileiro que aderir a este plano como ele está colocado no projeto de lei enviado ao Congresso deixará de ter governo daqui para a frente. Termina a autonomia administrativa e organizacional do Estado. O governo passará a ser mero articulador político”, define o presidente da Associação Nacional de Procuradores dos Estados e do DF (Anape), Marcello Terto e Silva.

A entidade lançou nota afirmando que acompanha “com preocupação” a tramitação do projeto de ajuda aos Estados em maior dificuldade financeira. O documento foi divulgado no dia em que o projeto chegou à Câmara dos Deputados, 23 de fevereiro, e avalia que “o novo texto repete o anterior ao retirar dos Estados e do Distrito Federal a autonomia para decidir sobre a gestão de seus serviços, bens e recursos”, descreve o texto da Anape.

O presidente da entidade lembra que a União já é dona de cerca de 70% das receitas tributárias do país e impõe, aos Estados e municípios, uma exigente agenda de obrigações em serviços públicos nas área de segurança pública, saúde, educação e infraestrutura. “Para avançar na quantidade e no volume dos serviços sociais estes entes federados precisam recorrer a financiamentos. Não há outra alternativa, pois o pacto federativo já está desequilibrado”, analisa Terto e Silva.

Ele, contudo, acredita que um plano de ajuda financeira aos Estados é necessário. Porém, afirma que a União precisa exercer seu papel de promotora do equilíbrio na Federação. “O que esta proposta poderá fazer é parar o Brasil com intervenções federais sobre os Estados”, lamenta.

Terto e Silva também considera que uma proposta de repactuação da dívida pública não pode deixar de conter uma revisão sobre o valor devido, sobre a forma de pagamento e de correção dos valores. “A cláusula que proíbe os Estados de questionarem, na Justiça, os termos da dívida pública é um verdadeiro absurdo”, conclui.

Nesta semana, o governo gaúcho sinalizou que irá contestar alguns componentes da proposta federal, entre as quais está justamente o impedimento de judicializar divergências sobre a dívida pública.

O presidente da Associação dos Procuradores do Estado do RS, Luiz Fernando Barboza dos Santos, alerta que a matéria enviada por Temer trata “um tema delicado de forma extremamente genérica”, diz. Segundo ele, “o texto não trata de questões essenciais e mais parece um contrato de adesão, como aqueles que o consumidor assina com uma operadora de telefonia, pois só há garantias para uma das partes”, argumenta. “Não discute a revisão do índice de correção e despreza encontro de contas referente a Lei Kandir, cujo montante devido ao RS é significativo”, completa.