O resultado da eleição nos Estados Unidos, seja qual for, tende a não gerar impactos diretos, como, por exemplo, influenciar tendências de voto, nas eleições municipais no Brasil, que ocorrem daqui a 11 dias. Na manhã desta quarta-feira, a apuração nos Estados Unidos segue mostrando uma disputa extremamente acirrada entre o democrata Joe Biden e o republicano Donald Trump. Mas, na avaliação de pesquisadores e cientistas políticos, apesar do interesse dos brasileiros e da identificação com a polarização que marca o pleito lá, além de a associação entre as duas disputas ser distante, o timing, o tempo entre a definição do próximo presidente norte-americano e as votação do primeiro turno no Brasil, não dá margem a maiores influências. O que a definição entre Biden e Trump deve gerar é mais um movimento de médio e longo prazo, uma tendência, que, aqui, deve pesar sobre o pleito de 2022.
“A resposta curta é: a escolha lá não influencia as eleições municipais aqui porque são pleitos de natureza muito diferente e o tempo entre eles é muito curto. É lógico que as eleições nos EUA impactam o mundo inteiro, mas a repercussão de seu resultado, para nós, é mais provável em 2022. O vencedor lá tende a ser copiado, ou seja, a partir do resultado, a tendência é de haver um movimento em outros lugares, inclusive no Brasil, de repetir a estratégia que ganhou”, explica o professor dos programas de pós-graduação em Ciência Política e em Estudos Estratégicos Internacionais da Ufrgs, Eduardo Svartman.
O professor avalia que, em caso de vitória de Trump, a tendência é de que, pelo mundo, siga sendo imitado o conceito que ele representa, o do populismo de direita, fortemente sustentado em práticas já conhecidas, como uso intenso das redes sociais por parte da liderança política para se comunicar com a população, disseminação de fake news e utilização farta de linguagem chula.
Já caso a vitória seja de Biden, a tendência é oposta. Quem imita Trump deve perder prestígio e a onda de outsiders, sejam eles genuínos ou apenas autodeclarados, deve apresentar desgaste ainda maior. “Biden é um político mais tradicional, é um insider, pertence ao mainstream do Partido Democrata”, elenca Svartman, ao assinalar que, seja em Porto Alegre, seja em outras capitais pelo Brasil, os candidatos não tentaram estabelecer associações com Biden ou Trump.
Para o professor Rodrigo González, do Departamento de Ciência Política da Ufrgs, e que pesquisa a qualidade da democracia, no pleito brasileiro deste ano os eleitores estão preocupados com uma realidade muito mais próxima, a das suas cidades, e associações com o desfecho da disputa nos Estados Unidos e suas consequências são feitas de forma distante. Ele também concorda que não há tempo para que a definição, lá, gere algum resultado concreto aqui até 15 de novembro. “O que pode acontecer é algum candidato, no segundo turno, tentar explorar o resultado das eleições nos Estados Unidos, mas de forma mais conceitual”, adianta.
Conforme o professor, caso Biden vença, por exemplo, isso pode ser usado por candidaturas aqui como um ‘início de virada’ em direção a um modelo mais progressista, e com destaque mais ao que foi derrotado (Trump e seu padrão) do que propriamente ao que o substitui. Já se Trump vencer, “obviamente reforça todo um discurso de, por exemplo, negação da pandemia do coronavírus e preponderância da economia sobre a saúde”, resume.