O governo eleito no RS vai intensificar nas próximas duas semanas as articulações com partidos que não estavam em sua coligação original ou não apoiaram a candidatura de Eduardo Leite (PSDB) no segundo turno da eleição estadual, com o objetivo de garantir maioria no Legislativo. Em troca, as legendas poderão indicar nomes para ocupar cargos no Executivo.
Para ter maioria e aprovar seus projetos no Legislativo o governo precisa de pelo menos 28 votos entre os 55 parlamentares. É o número necessário para a apreciação de vetos, projetos de lei, projetos de lei complementar, projetos de decreto legislativo, projetos de resolução e requerimentos. Já para aprovar propostas de emenda à constituição, as PECs, são necessários pelo menos 33 votos, em dois turnos.
A coligação encabeçada pelo PSDB (federado ao Cidadania), arrancou com uma base de 17 parlamentares eleitos: seis do MDB, cinco do PSDB, três do União Brasil, dois do Podemos e um do PSD. Há, contudo, integrantes da base que devem adotar postura de independência, a depender do que for apreciado, como já ocorria na legislatura passada.
Na semana passada, a próxima gestão obteve o apoio do PP, que terá a segunda maior bancada da Assembleia na próxima legislatura, com sete parlamentares. O PP foi o principal aliado do PSDB na corrida ao Piratini em 2018, e ocupou espaços importantes da administração. Mas, nas eleições de 2022, lançou candidato próprio no primeiro turno e, no segundo, oficialmente, ficou com Onyx Lorenzoni (PL), apesar de várias lideranças abrirem dissidência, anunciando apoio a Leite.
Estão bem encaminhadas ainda as tratativas com o PSB, que elegeu um deputado. O partido, que também participou na primeira gestão tucana, assim como o PP, teve candidato próprio ao governo. A diferença foi que, já no segundo turno, abriu apoio a Leite. Somados, PP e PSB elevam o tamanho da base para 25 parlamentares.
Mesmo com a dificuldade evidente em função das divergências que aumentaram na eleição, nos últimos dias chegou a ser ventilada a possibilidade de negociação com o PL, que elegeu cinco deputados. Internamente, contudo, na bancada eleita, está consolidada a posição de que o partido vai se manter independente no Legislativo e não ocupará cargos no governo.
Para tentar fechar o número de deputados que precisa para formar maioria, o governo eleito se voltará nos próximos dias principalmente para o Republicanos e o PTB. O primeiro elegeu cinco deputados e, o segundo, um. “Estamos na expectativa de uma conversa com o governador, na qual ele deverá dizer o que pensa e se quer contar com o apoio do Republicanos. Vamos ouvir. Acredito que isso possa ou deva acontecer nas próximas semanas. Mas, se não acontecer, vida que segue”, resume o presidente estadual do Republicanos, o deputado federal Carlos Gomes. O apoio da legenda aumentaria para 30 o número de deputados da base.
Aproximação com o PDT gera questionamentos
Para além do Republicanos e do PTB, parte de lideranças do governo eleito, em especial do MDB, destacam as conversas com o PDT, que elegeu quatro deputados. O partido foi oposição no primeiro governo Leite e lançou candidato próprio ao Piratini no primeiro turno, o ex-deputado federal Vieira da Cunha. No segundo turno, contudo, por iniciativa de prefeitos e parte dos deputados, apoiou o tucano. Vieira era contra, mas foi voto vencido. A deputada Juliana Brizola, hoje líder da bancada, e que também tem postura crítica ao governo, não se elegeu para a Câmara Federal.
Um dos que está à frente das tratativas para a composição é o deputado estadual reeleito Eduardo Loureiro. Mais votado entre os pedetistas que concorreram à Assembleia, ele deverá assumir a liderança da bancada no próximo ano. Também trabalha pela adesão o deputado eleito Gilmar Sossella, que vem dando destaque em suas redes sociais a registros de encontros com integrantes do atual e do futuro governo.
Nos bastidores, porém, pedetistas insatisfeitos com o rumo das articulações assinalam que, apesar do destaque dado à participação do ex-reitor da UFSM, Paulo Burmann, na transição, na prática o governo eleito teria ignorado uma série de nomes propostos pelo partido para fazer parte do processo.
Outro ponto de tensão é a Corsan. “Depois de passarmos a campanha denunciando a privatização da CEEE feita pelo governo Leite, agora nós, que participamos de todos os atos do Sindiágua denunciando também a privatização da Corsan, ficamos correndo atrás para entrar no governo que tem como uma de suas prioridades vender a companhia”, resume um trabalhista que acompanha as conversas.
Loureiro avalia como “muito possível” que o PDT venha a compor o governo, e lembra que Leite se comprometeu a não privatizar o Banrisul, e a priorizar a Educação e as escolas de tempo integral. Sobre a Corsan, diz que a sigla ainda vai ponderar a questão com a nova administração, mas ressalva que o projeto já foi aprovado e está muito adiantado. “Há ainda outros itens que provavelmente colocaremos na mesa, como os da valorização do funcionalismo e da estruturação em áreas estratégicas”, elenca. O parlamentar nega, contudo, que esteja à frente das tratativas. “Quem está conduzindo tudo é nosso presidente, Ciro Simoni”, assegura. Simoni não retornou os diversos contatos da reportagem.