Política

Sem Xi nem Putin, Brics realiza cúpula no Rio em meio à cautela diante de Trump

Encontro ocorre no domingo e segunda-feira no Rio de Janeiro

Rio de Janeiro a reunião anual do grupo de 11 países
Rio de Janeiro a reunião anual do grupo de 11 países Foto : Fernando Frazão/Agência Brasil/CP

Sem Xi Jinping nem Vladimir Putin em sua cúpula no Rio de Janeiro, o Brics buscará impor seu peso em um mundo conturbado pelas políticas de Donald Trump, mas a cautela deve prevalecer entre vários países-membros para não prejudicar as relações com os Estados Unidos.

Com forte presença das Forças Armadas, a capital fluminense acolherá neste domingo (6) e na segunda-feira a reunião anual do grupo de 11 países - que incluem Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e juntos representam quase metade da população do planeta e cerca de 40% do PIB mundial.

O anfitrião, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, deverá compor com as ausências de seu par chinês Xi, que faltará pela primeira vez à reunião desde que assumiu o poder em 2012, e seu colega russo Vladimir Putin, que é alvo de um mandado de prisão internacional por supostos crimes de guerra na Ucrânia.

O primeiro-ministro Li Qiang substituirá Xi, enquanto Putin pode participar de modo virtual, segundo Moscou.O presidente iraniano Masoud Pezeshkian, no foco da atenção pela recente escalada bélica com Israel e Estados Unidos, e o egípcio Abdel Fattah al Sissi também faltarão à cúpula, disse à AFP uma fonte do governo brasileiro.Além da guerra no Oriente Médio, a reunião estará marcada pelas tensões tarifárias, outra frente na qual Trump desafia a diplomacia dos países emergentes.

Tom cuidadoso

'A tendência é que o tom da cúpula seja cuidadoso: vai ser difícil que os Estados Unidos sejam nomeados diretamente na declaração final', disse à AFP Marta Fernández, especialista em Relações Internacionais e diretora do BRICS Policy Center da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

A China, por exemplo, 'vem tentando uma postura contida sobre Oriente Médio, e uma cúpula capturada por esse conflito talvez não seja do interesse de Pequim'.Além disso, o governo chinês está 'em negociação sobre tarifas com os Estados Unidos e pode não ser o momento de gerar mais atritos' entre as duas maiores economias do mundo.

Após o bombardeio ordenado em junho por Trump contra instalações nucleares iranianas, o Brics emitiu 'uma declaração totalmente vaga' sobre o conflito, afirmou, por sua vez, Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).Isso se deveu 'às divergências entre os membros', com países como a Índia, que negociam acordos comerciais com Washington e 'não querem se indispor com os Estados Unidos', acrescentou.

Apesar disso, o Brasil pretende orientar uma posição comum no Rio.'O Brics, ao longo da sua história, tem construído consensos para falar com uma só voz sobre os grandes temas da realidade internacional, e não será diferente desta vez sobre o Oriente Médio', assegurou à AFP o chanceler brasileiro Mauro Vieira.

'Reforço do multilateralismo'

A busca de uma alternativa ao dólar para o comércio entre os membros, que durante algum tempo esteve sobre a mesa, hoje parece descartada. A desdolarização se tornou uma 'palavra proibida' para o Brics, depois que Trump ameaçou os países-membros com tarifas de 100% se avançassem nessa ideia, segundo Marta Fernández. A Presidência brasileira busca consensos em temas como a luta contra a mudança climática -chave para o país, que este ano receberá a COP30 em Belém (PA) -, a governança da inteligência artificial e a reforma das organizações multilaterais.

'Essa escalada [no Oriente Médio] reforça a urgência do debate sobre a necessidade de reforma da governança global e do reforço do multilateralismo', frisou Mauro Vieira.

Desde 2023, a lista de países do Brics se ampliou para Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, incorporados tardiamente ao grupo fundado em 2009 para fortalecer o chamado Sul Global perante as potências ocidentais.'A ampliação recente do Brics torna mais difícil a tarefa de construir consensos fortes', opina Marta Fernández.

Caças com mísseis sobre o RJ

As forças armadas mobilizaram mais de 20 mil agentes para blindar a segurança do Rio de Janeiro durante o evento, uma operação similar à montada para a cúpula do G20 na capital fluminense em novembro do ano passado.

A força aérea fechará o aeroporto Santos Dumont e usará caças com mísseis para controlar o espaço aéreo, uma medida que não era tomada desde os Jogos Olímpicos de 2016.'Os presidentes da Rússia e da China não vêm, então obviamente que muda o nível de risco', mas 'o momento geopolítico não pode ser descartado', considerou o general Lúcio Alves de Souza, porta-voz da operação de segurança.

Veja Também