Para impedir que o presidente Michel Temer seja responsabilizado criminalmente, o governo costura com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que flexibiliza a chamada "regra de ouro". Prevista na Constituição, essa norma impede a emissão de dívida para o pagamento de despesas correntes.
O mecanismo, também usado em outros países para garantir o equilíbrio das contas públicas, é um dos três instrumentos de controle da política fiscal brasileira junto com a fixação de uma meta fiscal (economia que o governo promete fazer para impedir que a dívida cresça, a partir de projeções de receitas e despesas) e o teto de gastos, que impede o crescimento das despesas acima da inflação.
A proposta poderá ser incluída numa espécie de "super PEC" com 27 medidas para retirar as amarras do Orçamento e dar mais liberdade de gestão das despesas e receitas do governo que está sendo elaborada a pedido de Maia. Se aprovada, abrirá caminho para que o próximo presidente da República assuma o governo com menos dificuldade para administrar as contas públicas e de quebra evita que Temer corra o risco de ser responsabilizado em 2018.
A pedido de Maia, a proposta está sendo desenhada pelo deputado Pedro Paulo (PMDB-RJ). Em entrevista ao Estadão/Broadcast, Pedro Paulo disse que a proposta em discussão é aplicar uma regra de "waiver", uma espécie de carência para dar liberdade ao governo de não cumprir a regra de ouro por alguns anos. O período dessa liberdade, contudo, ainda não foi definido. De acordo com o parlamentar, esse tempo vai depender de outras medidas que devem ser incluídas na PEC.
Impossível
Maia disse ao Broadcast/Estadão que o risco de descumprimento em 2019 "parece" de 100%. "Não é uma questão de ser contra ou a favor. É praticamente impossível cumprir a regra no ano de 2019. Segundo ele, o governo é que deve apresentar a PEC. Hoje, as contas do governo possuem um volume excessivo de vinculações de receitas e despesas que dificultam a gestão orçamentária. A ideia é diminuir essas travas.
Além da flexibilização da "regra de ouro", no pacote há uma medida para aumentar o porcentual de receitas que o governo pode desvincular do Orçamento da União. Uma das ideias em análise, diz Pedro Paulo, é elevar dos atuais 30% para 50% a Desvinculação de Receitas da União (DRU). De acordo com Pedro Paulo, outra proposta do pacote em discussão é a suspensão do reajuste salarial para servidores públicos. O peemedebista contou ainda que a PEC começou a ser articulada há cerca de um mês e meio.
O parlamentar fluminense ressaltou que o governo quer que a PEC trate apenas da flexibilização da regra de ouro. "O governo tem a leitura da importância das medidas do pacote, mas teme a questão do tempo", disse. O assunto foi discutido em reunião na residência de Maia com os ministros da Fazenda, Henrique Meirelles, e do Planejamento, Dyogo Oliveira.
Temer quer flexibilizar "regra de ouro"
Norma impede a emissão de dívida para o pagamento de despesas correntes