Uso de tecnologia e automação serão de uso intenso e irrerverssível, analisa especialista da USP

Uso de tecnologia e automação serão de uso intenso e irrerverssível, analisa especialista da USP

Transformações do trabalho durante a pandemia foi tema de seminário da Assembleia Legislativa do RS

Sidney de Jesus

Seminário ocorreu em formato virtual

publicidade

“A crise sanitária em todo o planeta alterou as rotinas dos indivíduos, das famílias e do trabalho. As alterações provocadas no mundo do trabalho, como o trabalho remoto, as tecnologias digitais e o uso intenso da automação, serão de longa duração e irreversíveis”, afirmou o professor titular do Departamento de Economia da FEA-USP, José Paulo Chahad. Ele falou sobre “O futuro do trabalho: como a transformação digital e a pandemia impactam o rumo das profissões”, tema da 5 ª edição do seminário “O RS pós-pandemia – reflexões e caminhos para o futuro do Estado”, promovido pela Assembleia Legislativa e transmitido de forma virtual do Teatro Dante Barone, na noite desta quarta-feira.

De acordo com Chahad, ao lado da aceleração da digitalização dos processos de trabalho, outros dois impactos surgem com evidência: o aumento da pobreza e a redução do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Ele destacou que em enquete do Forum Econômico Mundial, 84% das empresas mundiais estão dispostas a investir na automação das tarefas, o que exigirá treinamento adequado. “É um cenário que no Brasil, antes da pandemia, registrava apenas 25% de condições para o trabalho remoto, embora a mesma pesquisa indique no país disposição de 50% das empresas em oferecer mais de 75% de oportunidade de trabalho remoto”, destacou o professor da FEA-USP.

Chahad mostrou ainda que 92% das empresas nacionais querem acelerar a digitalização e 85% têm interesse em oferecer a oportunidade de trabalho remoto, coincidindo com a tendência mundial. Ele observou que há desigualdades nessa condição, uma vez que algumas profissões, como a construção civil, apenas 17% das tarefas do setor podem ser feitas de forma remota. Na área administrativa de todos os setores, as possibilidades alcançam 87% para o trabalho remoto, situação que o professor adverte que vai “provocar desigualdade no mercado de trabalho e criar no futuro uma diferença salarial entre os setores, situação que exigirá um marco regulatório específico”.

O professor titular do Departamento de Economia da FEA-USP, José Paulo Chahad também destacou o avanço irreversível do comércio eletrônico, que na Europa cresceu de duas a cinco vezes mais do que as vendas a varejo, e três quartos desses usuários não pretendem voltar ao modo presencial de compras. “Isso requer políticas para disciplinar o comércio eletrônico, e treinamento das pessoas, o que está associado ao futuro das profissões”, observou.

O desembargador Luiz Eduardo Gunther, membro da Academia Brasileira do Direito do Trabalho e da Unicuritiba, destacou os cinco milhões de mortos pela pandemia no mundo, sendo que o Brasil é o segundo país em número de óbitos (607 mil), com grande impacto nas pessoas e nas empresas. Mostrou situações de regulamentação durante a pandemia, como de gestantes e suspensão do contrato de trabalho, lei justa mas em algumas situações incompatíveis com a natureza do trabalho, inviável no sistema remoto, e a recente portaria do Ministério do Trabalho que proíbe as empresas de exigir o passaporte vacinal e abre conflito com a fiscalização. Ele também referiu a adaptação das empresas e dos serviços, em especial na Justiça, ao trabalho remoto, e apontou questões como o direito à desconexão, “a ideia de que o trabalhador que lida com o teletrabalho precisa ter o respeito a seus intervalos, férias e descanso semanal, o que nem sempre é observado no trabalho a distância”.

A desembargadora da Justiça do Trabalho aposentada e pesquisadora do CESIT/Unicamp, Magda Biavaschi, trouxe elementos do Centro de Estudos do Trabalho da Unicamp e do Observatório dos Impactos da Reforma Trabalhista no mercado de trabalho. Ela traçou o histórico do capitalismo tardio brasileiro e o viés da regulação pública de proteção ao trabalho, que enfrentou a “crença nas virtudes da liberdade de trabalho, não admitindo regras nem normas legais que fixem as bases do contrato entre empregados e empregador, conforme definiu em livro de 1905 o primeiro consultor do Ministério do Trabalho, Evaristo de Morais.

Segundo Magda Biavaschi, a reforma trabalhista de 2017, fundamentada no princípio da supremacia do negociado sobre o legislado, que avançou no sentido da supremacia do contrato individual, entre indivíduos livres e iguais, “transtocou as fontes do direito do trabalho e foi a desconstrução de um processo lento, difícil, tipicamente brasileiro, iniciado em 1930, simultâneo à industrialização, com avanços e recuos, passando pela CLT, as Juntas de Conciliação e Julgamento, a Justiça do Trabalho, chegando em 1988, na Constituição Cidadã, ampliando direitos para excluídos, como os rurais e domésticos”.

A desembargadora referiu o papel da regulação pública e o sistema público de proteção social ao trabalho, onde estão as normas trabalhistas, para advertir que “as plataformas digitais dissolvem as relações sociais, intensificam o trabalho, desproporcionalização do tempo”, o que exigirá regulação pública para assegurar a proteção social do trabalho.

Conforme o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Gabriel Souza (MDB), o tema do evento está intrinsecamente ligado à educação, que deve ser a demanda prioritária do Estado enquanto ente federado nos próximos anos. “A próxima grande reforma do RS precisa ser pautada pelo ensino, que deve migrar e se adaptar às transformações do tempo para estar de acordo com as gerações futuras, que já são naturalmente digitais”, destacou o parlamentar.


Mais Lidas


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895