O advogado José Yunes, ex-assessor especial do Palácio do Planalto, afirmou em depoimento à Polícia Federal, no âmbito da Operação Skala, ter contado ao presidente Michel Temer, seu amigo pessoal há mais de 50 anos, sobre a entrega de um "envelope lacrado grosso" do doleiro Lúcio Funaro em seu escritório, a pedido do ministro Eliseu Padilha (Casa Civil).
É a primeira vez que Yunes, que já prestou ao menos dois outros depoimentos sobre o assunto, cita o nome de Temer neste episódio.
"Sobre os fatos já noticiados relativos ao recebimento de documentos de Lúcio Bolonha Funaro, a pedido de Padilha, lembra-se de que se tratava de envelope lacrado grosso, da espessura de pouco mais de dois centímetros, que não era pesado", afirmou Yunes em depoimento prestado no dia 30 de março ao delegado Cleyber Malta - responsável pelo inquérito do "Quadrilhão do PMDB".
Yunes disse que "alguns dias depois" da entrega detalhou a Temer o tal pedido, e que ele demonstrou "estranhamento" e não ter conhecimento sobre o assunto. "Inclusive falou para Michel Temer que ficou estarrecido com a 'tal figura delinquencial', após tomar conhecimento através do Google sobre envolvimento em escândalos por Lúcio Funaro", afirmou.
Para a Procuradoria-Geral da República (PGR), o "pacote" entregue por Funaro a Yunes conteria R$ 1 milhão em dinheiro e seria parte da propina no valor de R$ 10 milhões acertada entre a Odebrecht e o PMDB para campanhas de candidatos do partido em 2014. Em colaborações premiadas, Marcelo Odebrecht e Cláudio Melo Filho, presidente e ex-diretor da empreiteira, disseram que o valor foi acertado em reunião com representantes do MDB, no Palácio do Jaburu, na qual o então vice-presidente Michel Temer estaria presente.
Segundo os delatores, parte deste valor, R$ 6 milhões, seria repassada a Padilha.
"Mula involuntária"
A citação de seu nome nas delações foi o estopim para o pedido de exoneração de Yunes da assessoria especial da Presidência em dezembro de 2016. Dois meses depois, o advogado prestou depoimento voluntário à PGR para falar sobre o assunto. Na ocasião, afirmou ter atuado como "mula involuntária" de Padilha.
"Padilha pediu se eu poderia receber no escritório um documento, um pacote, para que outra pessoa fosse pegar", contou na ocasião ao jornal O Estado de S. Paulo. "Quem levou o documento foi Lúcio Funaro, que eu não conhecia. Por isso eu brinquei que fui mula involuntária do Padilha", disse.
No dia 29 de março deste ano, Yunes foi preso pela Polícia Federal no âmbito da operação Skala - que investiga suspeitas de irregularidades na edição de decreto dos Portos. Além dele, também foram presos preventivamente o coronel da Polícia Militar aposentado, João Baptista de Lima Filho, o coronel Lima, o ex-ministro de Agricultura Wagner Rossi e o presidente da empresa Rodrimar, Antonio Grecco. Eles foram soltos três dias depois.
O advogado de Temer, Antônio Claudio Mariz de Oliveira, disse que não iria se manifestar porque não teve conhecimento do teor dos depoimentos de Yunes. A defesa de Padilha afirmou que "não obstante o equívoco de tal afirmação, o ministro, em respeito ao Poder Judiciário, se pronunciará apenas dentro dos autos".
Yunes avisou Temer sobre "envelope" de doleiro
Ex-assessor do presidente foi preso na operação que investiga irregularidades no decreto dos Portos