Um dos grandes desafios do setor agropecuário na atualidade tem sido encontrar um equilíbrio entre a busca por aumento de produtividade e a sustentabilidade socioambiental. O plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono), do Ministério da Agricultura, é um exemplo. Em dez anos, as tecnologias do programa chegaram a 52 milhões de hectares, possibilitando a redução de cerca de 170 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente. A produção sustentável foi o tema da segunda edição do ciclo de debates Correio do Povo Rural desta Expodireto, que foi ao ar ontem nas redes sociais do jornal. Os convidados discutiram o papel que o setor agropecuário terá no compromisso assumido pelo Brasil de reduzir as emissões de carbono em 50% até 2030.
Para o assessor da presidência da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Marcelo Camardelli, o país é exemplo em termos de produção sustentável, mas nem sempre consegue comunicar isso da melhor forma. Ele ressaltou que o plano ABC é um modelo a ser utilizado inclusive para as próximas conferências das partes (COPs). No Grupo de Trabalho Conjunto em Agricultura Koronivia, o Brasil é considerado modelo em plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e recuperação de pastagens. “Enxergamos o papel brasileiro nesta meta (de redução das emissões de carbono) como parte da solução, não somos parte do problema”, observou. Num momento em que a produção do Rio Grande do Sul é assolada por uma estiagem, os debatedores concordaram que o incentivo à irrigação não é incompatível com a preservação ambiental. Camardelli salientou que há limitações do ponto de vista da legislação, que estão sendo discutidas com o Ministério Público. Com relação à pecuária, observou que animais mais precoces e com melhor conversão alimentar tendem a reduzir a emissão de gases. Uma das novidades desta edição da Expodireto é a presença de um trator movido a biometano, exposto pela fabricante New Holland. Para Camardelli, um dos desafios é como monetizar iniciativas semelhantes no mercado internacional como crédito de carbono.
"Enxergamos o papel brasileiro nesta meta como parte da solução, não do problema", disse Marcelo Camardelli, Assessor da Presidência da Farsul. Foto: Guilherme Almeida
O pesquisador Gustavo Martins, da Embrapa Pecuária Sul, de Bagé, acredita que muito já se avançou, mas ressaltou que é possível evoluir na questão da produção sustentável. “Precisamos trabalhar juntos para mostrar o que já temos e buscar cada vez mais sistemas de produção sustentáveis”, resumiu. Uma das metas é não olhar as diferentes atividades agropecuárias em separado, mas sim como parte de um sistema de produção. Sobre a necessidade de se investir em alternativas à estiagem, o pesquisador ressaltou que o principal reservatório de água na propriedade é o solo. “Olhando a questão do solo, a gente percebe a integração funcional que pode ter o sistema mantendo e construindo a fertilidade do solo, mas fundamentalmente desenhando e construindo sistemas de produção rentáveis e produtivos, e ambientalmente com o menor impacto possível”, explicou. O especialista também abordou a questão da emissão de gases na pecuária. Ele salientou que os ruminantes emitem gases por natureza, mas ressaltou que a pesquisa tem se debruçado em alternativas que visam produzir mais em menos tempo, proporcionando condições de bem-estar e selecionando genética para aumentar a eficiência – o que irá permitir reduzir a emissão de gases.
"Precisamos trabalhar juntos para mostrar o que já temos e buscar cada vez mais sistemas sustentáveis", observou Gustavo Martins, Pesquisador da Embrapa. Foto: Guilherme Almeida
O pesquisador da Cooperativa Central Gaúcha Ltda (CCGL) Tiago Hörbe afirmou que a busca pela produtividade no campo caminha junto com a sustentabilidade. “As boas práticas agrícolas vão refletir no bem-estar do próprio produtor e da sociedade”, definiu. Segundo ele, boas práticas agrícolas fazem com que tenhamos solos mais resilientes, que por sua vez irão refletir em um menor escoamento superficial. Em relação ao compromisso assumido pelo Brasil de reduzir as emissões de carbono, Hörbe salientou que já há dados de propriedades com balanço negativo para a emissão de gases. Sobre a relação entre a necessidade de irrigação e a preservação ambiental, o especialista alertou que a técnica de disponibilizar água às plantas é um mitigador do estresse hídrico, desde que feito dentro de um planejamento correto de barragens e açudes.
Porém, o alto custo de energia elétrica decorrente da irrigação pode abrir espaço para a energia fotovoltaica, segundo Hörbe, aproveitando a boa luminosidade existente no Estado. Há muito a avançar, segundo ele, em relação à construção do reservatório natural de água que é o solo, para que a água da chuva seja captada – assim como para que as raízes da planta tenham condições de se desenvolver e buscar essa água. O pesquisador também destacou a importância da integração lavoura-pecuária e salientou que o sistema integrado com a criação de gado melhora a qualidade do solo, além de garantir a sustentabilidade do ponto de vista econômico para o produtor. “O carbono no solo é incorporado através de raízes, e a pecuária propicia um maior estímulo de raízes e carbono no solo”, destacou.
"As boas práticas agrícolas vão refletir no bem-estar do próprio produtor e da sociedade", destacou Tiago Hörbe, pesquisador da CCGL. Foto: Guilherme Almeida
O ciclo de debates chega ao fim hoje, com uma discussão sobre o cenário econômico para o agronegócio em 2022. A atração será transmitida às 15h, pela internet. A atividade tem o patrocínio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/RS) e do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea/RS).