Tomar consciência da responsabilidade e ao mesmo tempo da oportunidade que será atender a crescente demanda mundial por alimentos nas próximas décadas é o desafio dos brasileiros. Mas a tarefa não é só dos produtores. É também da sociedade e, principalmente, do governo. Esta foi a tônica da terceira edição dos Debates Correio do Povo Rural, realizado nesta quinta-feira. Os encontros foram promovidos na casa do jornal e do Grupo Record durante a Expodireto Cotrijal, esta semana, em Não-Me-Toque. O tema do encontro, que reuniu seis convidados de diferentes áreas, foi a necessidade de ampliar a produção de alimentos com sustentabilidade.
Um dos caminhos será a biotecnologia. “Acreditamos que as plantas geneticamente modificadas terão uma contribuição muito grande nesse processo, pois são tecnologias que economizam terras”, prevê a pesquisadora Magali Ferrari Grando, professora do Laboratório de Biotecnologia Vegetal da Universidade de Passo Fundo (UPF). Outra vantagem da biotecnologia, de acordo com a pesquisadora, é o uso de produtos químicos em menor escala. Magali destacou que a instituição de ensino está desenvolvendo variedades resistentes a insetos.
Outra alternativa será a irrigação, que possibilita ampliar a produtividade sem aumentar a área. Chefe da Divisão Técnica do Senar, João Augusto Telles comenta que estudos indicam que 97% da água usada na irrigação retorna para o ciclo biológico. “Eu diria que biotecnologia e irrigação é o ‘casamento’ perfeito”, acrescenta. Na avaliação do dirigente, o Brasil está crescendo em produtividade e este é um mérito do produtor, mas o país não está sabendo aproveitar a oportunidade de atender à demanda crescente por alimentos.
Para avançar, Telles pontua que é necessário investimento em infraestrutura – rodovias, portos, hidrovias, ferrovias e aeroportos – citando como exemplo da falta deles os problemas de abastecimento decorrentes da greve dos caminhoneiros. “O governo não está dando apoio ao produtor”, destacou o veterinário, reclamando da falta de incentivos e também da carência de assistência técnica. Ao mesmo tempo, ele comenta que a agricultura é uma atividade relativamente nova no Brasil – até 50 anos atrás, era uma prática de subsistência.
Na mesma linha, a agrônoma Sandra Zoldan, pesquisadora em Resistência a Doenças da OR Sementes, acrescenta que o melhoramento genético é outra ferramenta que poderá ajudar na tarefa de ampliar a produção de alimentos, diminuindo o uso de agroquímicos. Ela aponta a necessidade de melhorias na logística, mencionando a dificuldade de trazer germoplasma de outros países e de agregar valor aos produtos. “Falta união da cadeia”, avalia.
A agrônoma Celi Webber Mattei, responsável técnica da Webber Sementes, avalia que a conscientização do setor sobre a responsabilidade e oportunidade de atender a crescente demanda mundial por alimento é um processo que ainda está “engatinhando”. Segundo ela, para buscar este caminho por meio da sustentabilidade é preciso continuar apostando na diversificação e rotação de culturas, além de manter os campos sempre com algum cultivo. “A planta funciona como um arado, abrindo a porosidade do solo pra chuva infiltrar”, ressalta.
O coordenador técnico da Cotrijal, Fernando Martins, destaca que a atividade é de risco. “Nossa condição é sempre no limite máximo”, referindo-se a chuvas, granizo e mercado, entre outras variáveis. “Um país essencialmente agrícola não tem uma política agrícola”, lamenta. Ele destacou a importância de equilibrar as complexidades do setor e da busca por conhecimento técnico, lembrando que o profissional que não buscar este caminho automaticamente ficará de fora do mercado.
O diretor executivo da Tovese Corretora de Seguros, Otavio Simch, comentou sobre a adesão de produtores ao seguro agrícola. No Brasil, 2014 fechou com 14% da área plantada segurada, enquanto nos Estados Unidos é 92%. Entretanto, segundo Simch, lá a modalidade existe desde 1929, enquanto no Brasil começou a operar em 2006.
Debates Correio do Povo apontam desafios da demanda mundial por alimentos
Encontro da Expodireto Cortijal discutiu aumentar produção com sustentabilidade