A 48ª edição da Expointer, que começa neste sábado e ocupa o Parque de Exposições Assis Brasil até o dia 7 de setembro, em Esteio/RS, acontece ao mesmo tempo em clima de otimismo, como grande celebração e congraçamento do agronegócio gaúcho, e de tensão, com a espera do setor por medidas concretas que equacionem os problemas que mais tiram o sossego dos produtores do Rio Grande do Sul: o endividamento e a sucessão de crises climáticas. Lideranças que participarão da feira acreditam que esses temas devem estar em pauta durante o evento, que coincide com o início do plantio da safra 2025/2026.
O secretário estadual de Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), Edivilson Brum, se mostra otimista para uma grande feira. “A expectativa é muito boa. Esperamos fazer uma grande Expointer”, prevê.
“E não uma grande Expointer em negócios, em recorde no número de pessoas que visitarão o parque Assis Brasil. Uma grande Expointer se dá pelos importantes debates que vão estar no palco da nossa exposição como o endividamento agrícola, a jornada internacional do Direito, a rolagem da dívida dos agricultores, o alongamento destas dívidas”, lista.
Brum ressalta que há uma enorme expectativa entre os produtores, especialmente entre os que enfrentam o desafio de renegociar dívidas, ser requalificados a voltar a plantar, “porque esta é a vocação dos gaúchos.”
O presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Gedeão Pereira, acredita que a feira vai ser excelente.
“No ano passado, que tivemos aquele monte de problemas, não tínhamos aeroporto e Trensurb, fizemos uma bela Expointer”, ressalta o dirigente, para quem o evento de Esteio funciona à margem do momento econômico.
Em relação à pecuária, Pereira avalia que apesar do “tarifaço” do presidente dos EUA, Donald Trump, o boi já voltou a patamares de preços normais porque o Brasil tem diversidade de mercados. Quanto a agricultura, o dirigente admite preocupação. “No ano passado, estava espetacular e neste ano (o orizicultor) está vendendo abaixo do seu custo, e o produtor está realizando prejuízo. Então, não acredito que tenhamos uma força econômica para fazer bons negócios na área da máquina e equipamento agrícola”, analisa.
Marcos Tang, presidente da Federação Brasileira das Associações de Criadores de Animais de Raças (Febrac), observa dois cenários para o evento. Em um, o aumento representativo de animais inscritos, o que significa que o agropecuarista segue investindo na produção.
“E quem ficou na atividade nestes quatro a cinco anos de estiagens intercaladas por enchentes continua firme na genética”, explica. Ele lembra que esse criador tem sempre disposição para expor sua genética. “É o fruto de trabalho, investimento, conhecimento, tecnologia. É o topo. Ali teremos o que há de melhor do Estado, país e mundo”, completa.
No entanto, lembra Tang, esse mesmo agropecuarista está buscando a securitização e a renegociação para o endividamento, consequência de anos seguidos de clima adverso a comprometer a produção de comida aos seus animais.
“Infelizmente os novos investimentos estão comprometidos, pois o que tem de dinheiro novo para o agropecuarista, ele tem que pagar conta velha”, observa.
A agricultura familiar tem na Expointer o ambiente ideal para, orgulhosamente, expor o trabalho realizado em suas propriedades durante o ano. “A expectativa é muito boa para as agroindústrias e para o pessoal dos animais. É sempre uma exposição muito boa. Vemos isso como uma vitrine e uma oportunidade”, avalia o presidente da Federação dos Trabalhadores da Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag/RS), Carlos Joel da Silva. O dirigente ressalta, porém, que a feira sempre foi um evento de celebração de colheitas e safras, mas o momento é de safra pequena, ruim e de dificuldade por parte dos agricultores com o “endividamento batendo na porta”. Joel entende que neste momento o futuro dos produtores rurais é incerto.
“Por este lado também vai ser muito importante a Expointer para a gente debater todo o momento que estamos vivendo”, diz.
O presidente da Organização das Cooperativas do Estado do Rio Grande do Sul (Ocergs), Darci Hartmann, classifica sua expectativa como “positiva, mas contida”. “Não é um entusiasmo porque temos muitas coisas a serem solucionadas no agro. Tem muitas regiões do Estado que terão dificuldades em plantar porque os impactos climáticos foram muito grandes e isso vai refletir principalmente na qualidade. Algumas regiões não vão conseguir plantar 100% das áreas”, descreve. “Mas acreditamos que dentro deste processo do Estado de buscar se reconstruir com enchentes, com seca, nós precisamos fazer uma feira vendendo aquilo que dá para vender”, complementa.
Hartmann avalia que a tendência é de que as vendas de máquinas sejam afetadas pelos custos financeiros altos com juros “proibitivos”, sobretudo para financiamentos mais longos.
“O caminho vai ser de resiliência, de reestruturação, de uma Expointer possível. A feira não vai conseguir ser plena porque tem uma série de questões que não foram solucionadas”, conclui.