Yara Suñé assumiu os negócios da família ainda jovem, ao 23 anos. Foi só depois de entrar para o agronegócio que iniciou o curso de agronomia, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Desde então, é ela que comanda a criação e venda de gado na fazenda Querência, em São Gabriel e Lavras do Sul, terras próximas à fronteira do Estado com o Uruguai.
O exemplo de liderança feminina veio de berço, já que a mãe ficou viúva aos 39 anos e foi, por muito tempo, a referência familiar. Hoje, aos 50 anos, Yara acumula uma trajetória de sucessos na gestão agropecuária, já foi diretora da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) e representa uma força inspiradora para mulheres mais jovens que assumem negócios parecidos ou que desejam seguir uma profissão no agronegócio.
“Na época em que assumi a propriedade, não era tão comum ver mulheres à frente das atividades rurais. Eu mesmo, tive dificuldades de atuar como gestora do nosso negócio, enfrentei muita resistência dos antigos colaboradores, mas com paciência e estabelecendo bons processos de gestão podemos reverter a situação e hoje considero que tivemos êxito”, relembra Yara.
Mas, na visão dela, o cenário se transformou nas últimas duas décadas. “Há 20 anos atrás não tinha meninas no setor. Hoje, vemos elas fazendo visitas a propriedades, dirigindo kms sozinha em estradas desertas e dando cursos nas propriedades para um público totalmente masculino.
Na parte comercial, tu já vê mais mulheres. Se tu olhar os stands aqui na Expointer, vai ver a quantidade de meninas trabalhando na idade de 25 a 30 anos, veterinárias, técnicas. Acho muito legal esse movimento, que é novo, eu estou há 25 anos nesse negócio, vejo essa diferença”, reflete a pecuarista.
De todo modo, ainda é preciso evoluir, aponta Yara. “Onde eu acho que está faltando mais lideranças femininas é em cargos maiores, mais estratégicos. Mas eu acho que quando as gerações atuais chegarem aos meus 50 anos, talvez esteja mais equilibrado. Assim a gente espera, né? Acho que é um caminho passo a passo, mas que tem vindo com velocidade”, pontua.
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Desafios do setor agropecuário
Conforme a criadora de gado, o momento é oportuno e positivo para as exportações na pecuária gaúcha. “Mesmo com o tarifaço (norte-americano), isso abriu novos mercados. A nossa carne ficou muito barata, então os países vieram e compraram. O mercado já se acomodou. Então as perspectivas são positivas”, afirmou a pecuarista.
Mas ainda há pontos de gargalo que precisam ser observados, cita Yara. “Falta produto bem acabado para terminação para frigorífico. Isso requer que a gente tenha um trabalho mais forte na nossa base produtiva forrageira, que hoje é majoritariamente dependente do campo nativo. Para isso, investimentos são necessários, como o melhoramento do campo nativo, maior uso de pastagens cultivadas e redução de perdas do sistema produtivo como um todo. Com estas medidas, melhor padronização, acabamento e volume trariam maiores oportunidades de mercado para a carne gaúcha”, ressalta.
A inconstância de oferta do produto e a falta de padronização afetam o preço recebido pelo produtor. “Nos falta produção de carne em determinadas épocas do ano, junho, julho e agosto temos escassez de carne para abaster o mercado gaúcho, vindo as carcaças do Brasil Central. O aumento da base nutricional seria uma das soluções para cobrir este gargalo, mas além disso precisaríamos termos um amplo programa de apoio do governo, com juros adequados e com uma melhor coordenação de cadeia para fazer isto acontecer”, aponta Yara.
Ainda de acordo com a pecuarista, falta mão de obra no campo. A falta de infraestrutura, como estradas, transporte, conectividade e escolas, dificultam a permanência dos trabalhadores e suas famílias no campo, o que impacta a produção, compromete a gestão das propriedades rurais de difícil acesso. Também temos em consequência o aumento do êxodo rural, a perda do conhecimento do homem do campo e da cultura gaúcha. É urgente criar programas de capacitação, treinamento, motivação e fixação do homem do campo nos seus locais de origem", defende.