Expointer

Expointer começa com desafios e apostas

Em meio a cenário de endividamento, crédito caro e riscos climáticos, feira reflete expectativas com biocombustíveis, pecuária e agricultura familiar

A partir deste sábado, parque em Esteio concentra exposição de animais, máquinas agrícolas e agroindústrias
A partir deste sábado, parque em Esteio concentra exposição de animais, máquinas agrícolas e agroindústrias Foto : Dani Barcellos / Palácio Piratini / CP Memória

Principal marco do calendário do campo no Brasil, a 49ª Expointer atrairá os holofotes de todo o país ao Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, deste sábado (31 de agosto) até 6 de setembro. Para lideranças gaúchas, a feira celebrada como uma vitrine da pujança da agropecuária do Estado deverá refletir o momento delicado pelo qual passa o setor, diante da combinação de alto endividamento, crédito caro e margens apertadas. No ano em que o avanço do fenômeno El Niño aponta risco a produtores rurais já afetados por problemas climáticos anteriores, a feira carrega um simbolismo histórico – será, pela primeira vez, um evento carbono neutro, que compensará suas emissões de gases do efeito estufa.

O secretário estadual de Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), Márcio Madalena, diz não esperar recordes em volume de negócios. Ainda assim, há muitas razões para otimismo quanto ao sucesso do evento, a começar pelo grande número de animais inscritos (cerca de 8 mil), um termômetro da boa fase da pecuária e da valorização da genética animal.

“Não é um cenário de terra arrasada, existe um potencial de comercialização. Mesmo com essa dificuldade, a indústria não deixou de vir, ela tem que mostrar a tecnologia, trazer o sistema financeiro para dentro do processo, para tentar fazer os ajustes necessários e avançar na questão do crédito”, avalia Madalena.

Para o secretário, um dos principais ativos desta edição serão as reflexões sobre demanda energética. Nos últimos anos, novos projetos vêm impulsionando a produção de biocombustíveis no Rio Grande do Sul a partir de grãos e cereais como trigo e canola. “Começamos a nos reposicionar para sermos não apenas um produtor de commodities, mas também agregar valor. Vamos para a Expointer do ano que vem com uma mensagem clara em relação ao reposicionamento agropecuário. Então, é uma Expointer que pode surpreender muito, apesar das dificuldades”, afirma o titular da Seapi.

Na mesma linha, o presidente da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Domingos Velho Lopes, prevê uma Expointer “extremamente quente”, turbinada pelo interesse em torno dos biocombustíveis. Ele observa que o conflito no Irã, com o fechamento do Estreito de Ormuz, escancarou a vulnerabilidade das economias dependentes de recursos fósseis e abriu perspectivas para a exploração de fontes alternativas. “O mundo já depende do Brasil sob o ponto de vista energético e alimentar. Isso vai mudar a matriz produtiva gaúcha e brasileira”, afirma Domingos.

Outro motivo para a expectativa de sensação térmica elevada no evento, segundo o dirigente, é a sua realização às vésperas das eleições gerais, em plena campanha nas ruas e na TV. Estão previstas visitas de candidatos ao parque de Esteio, além de um debate entre os aspirantes ao governo gaúcho, e o acesso ao crédito rural deverá ser um tema constante nesses encontros.

“A politização será extremamente grande, e as visões institucionais, técnicas e de mercado exterior, cada vez maiores”, diz Domingos.

A Farsul espera um evento memorável também pelo gesto em favor do desenvolvimento sustentável. A entidade irá contabilizar e compensar as emissões de efeito estufa geradas em seus eventos e nos pavilhões de animais. “É um grande exemplo, o Rio Grande do Sul (adotará) o pioneirismo de ter um primeiro evento carbono neutro sob o ponto de vista da produção agropecuária”, afirma Domingos.

Agricultura familiar

Do lado da agricultura familiar, a mostra gaúcha receberá produtores cautelosos com relação à modernização das propriedades. Além do alto endividamento no segmento e dos potenciais danos do El Niño, pesa no cenário a falta de proteção das lavouras contra perdas de produção. O presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetag-RS), Eugênio Zanetti, explica que, em 2020, em torno de 40% das áreas de cultivo no Estado estavam cobertas pelo Proagro, o seguro rural do governo federal. Hoje, esse percentual é estimado em apenas 10%.

“O produtor está plantando por conta e risco dele. Tem que medir muito bem o investimento para ver se vai ter retorno ou se não é vantagem continuar com a máquina que ele tem por mais um ano ou dois”, explica Zanetti.

Nada disso, porém, comprometerá o brilho de uma das grandes atrações da Expointer, o Pavilhão da Agricultura Familiar, segundo o líder da Fetag-RS. O espaço, que em 2025 movimentou R$ 13,6 milhões, reunirá nesta edição um recorde de 509 expositores e deverá superar as vendas do ano passado. “A vitrine da Expointer é sempre aguardada com muita expectativa. Entrar no pavilhão sem comprar pelo menos um produto é quase impossível”, destaca o dirigente. Para as pequenas agroindústrias, observa Zanetti, a feira representa a oportunidade de atingir novos mercados e, no evento, muitas geram receitas suficientes para garantir sua operação ao longo de um ano inteiro.

O presidente da Organização das Cooperativas do Estado do Rio Grande do Sul (Ocergs), Darci Hartmann, afirma que a entidade aproveitará a possível presença de representantes do governo federal na feira para tratar de questões decisivas para o setor. A principal preocupação é a solução das pendências relacionadas à Medida Provisória 1.376/2026, que trata da renegociação das dívidas de crédito rural de agricultores afetados por problemas climáticos. Publicada em julho, a norma ainda depende de portarias complementares e está em análise no Congresso Nacional, podendo perder a validade se não for votada até 12 de setembro.

No caso das cooperativas, observa Darci, o teto para a renegociação das dívidas foi fixado em R$ 50 milhões por organização. “Lembrando que 33% (um terço) do endividamento é o produtor que deve para as cooperativas, mas muitas vezes só se fala das instituições financeiras”, afirma o dirigente, acrescentando que a indefinição ameaça o plantio da safra 2026/2027.

“Fim de outubro já é o período de plantar e muita gente ainda não comprou insumos, está tentando financiamento, ainda não se regularizou. Então, acho que a Expointer vai ser uma bela mesa de negociações para fazermos esses encaminhamentos todos”, explica Darci.

No setor orizícola, o clima pré-Expointer também é de apreensão com a MP, segundo o presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Estado (Federarroz), Denis Dias Nunes.

“Há uma dúvida muito grande (...) devido à MP, aos ajustes que têm que ser feitos para que a grande maioria dos produtores seja contemplada. Não temos ainda uma ideia clara de como os produtores vão conseguir fazer a próxima safra”, avalia. “Vai ser (uma Expointer) de poucos investimentos por parte dos produtores de arroz.”