Depois de oito anos à frente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul, (Sistema Farsul, que também engloba Senar e Casa Rural), o médico-veterinário Gedeão Silveira Pereira passa o cargo a Domingos Velho Lopes, e assume o segundo mais alto posto na Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o de primeiro vice-presidente da entidade onde já era segundo vice.
Nesta entrevista, Gedeão, que também é produtor rural em Bagé e ex-dirigente de várias outras entidades gaúchas, elenca as principais dificuldades e frustrações – assim como lista os maiores “opositores” do agro gaúcho e brasileiro – no período em que esteve no comando da entidade que se tornará centenária em 2027. E ainda projeta o futuro promissor do agronegócio brasileiro: “O Brasil está se habilitando a ser a maior agricultura do mundo”, estima.
Gostaria de citar uma marca da sua gestão, algo que queira destacar que marcou a sua passagem pela presidência da Farsul?
Nós tivemos muitas dificuldades nesta gestão impostas por algumas razões todas alheias à nossa vontade. Pandemia foi um primeiro grande problema, em que o agronegócio se saiu muito bem, diga-se de passagem. O Brasil teve uma demonstração de eficiência na sua indústria relativa ao agro, tanto é que em alguns países do primeiro mundo, a exemplo os Estados Unidos e a Europa, chegou a faltar comida na gôndola do supermercado, e no Brasil isso nunca aconteceu. Porque realmente houve um trabalho muito forte. Mas impactou a nossa economia, nos impactou a todos aquele período muito difícil que que vivemos por causa do lockdown, evidentemente, né? Na sequência disso tivemos grandes impactos climáticos, sem dúvida nenhuma, que afetou o nosso PIB do Estado do Rio Grande do Sul, qualquer coisa em torno de 0,5% a menos, que nós calculamos um valor entre R$ 400 bilhões e R$ 500 bilhões, que foram 50 milhões de toneladas de grãos que se colheram a menos. E isso aí, evidentemente, que impactou na economia do Estado e no bolso dos gaúchos, porque é dinheiro que deixou de circular no Estado. As pessoas às vezes não se dão conta disso aí. Não se dão mesmo, porque se eu não tive, eu não conheço, mas nós poderíamos estar é 0,5% de PIB à frente. Tanto é que nós somos invejosos do crescimento de Santa Catarina. O Rio Grande do Sul ficou estacionado, e uma das causas desse estacionamento, a não evolução, é justamente esse aspecto das perdas do agronegócio, da agricultura, porque a agricultura é o carro-chefe da economia gaúcha, como hoje é o carro-chefe da economia brasileira. Não é diferente. É verdade que nós temos nichos no estado do Rio Grande do Sul de grande progresso aí. A exemplo, eu diria assim, daquela região do Passo Fundo a Erechim. Ali é uma região que tá crescendo muito, superando o PIB de outras regiões do Estado do Rio Grande, investimentos muito elevados numa numa versão nova da nossa agricultura que a agricultura brasileira hoje não é só produção de comida, senão produção de energia. Mas eu acho que o tema de maior impacto que nós estamos deixando como legado, porque nós sempre nos preocupamos muito com treinamento e educação das pessoas... Porque, na realidade, o Estado brasileiro não nos entrega uma pessoa bem treinada. Hoje as verbas de educação são vultosíssimas, mas eu não sei quais são os gargalos, quais são os problemas que acontecem, porque, realmente, se nós vamos nas camadas de menor poder aquisitivo da nossa população, tu não consegue enxergar um preparo adequado para dominar as tecnologias que são expostas. Porque se olharmos na realidade as tecnologias de ponta no mundo em termos de agricultura estão sendo lançadas também no Brasil, concomitantes com os Estados Unidos, concomitantes com a Europa. Por quê? Porque o Brasil tá se habilitando a ser a maior agricultura do mundo. Agora, quando eu recebo todas essas tecnologias, quem é que opera isso? Por exemplo, eu não tô falando sobre máquina agrícola, mas tenho tecnologia genética vegetal, genética animal, que são também tão complexas quanto. Mas, nesse quesito, máquinas e equipamentos agrícolas de altíssima geração que são linkados ao satélite, inclusive. Quem é que opera isso aí? Então, nós, como Senar, que nós somos um sistema, como o Senar, sempre nos preocupamos muito com qualificar pessoas. Porque no momento que eu qualifico alguém, eu não só qualifico, como entrego para ele uma atividade superior que remunera melhor. Então, ele é uma pessoa que sobe na escala social pela capacitação. Porque é o que o Estado teria que fazer que não faz. Então, é feito por nós, para o nosso caso, através do nosso Senar. Então, dentro dessa preocupação, nós estamos construindo, inauguraremos em abril do ano que vem, a maior escola de tecnologia para esse tipo de operador do Brasil, que está sendo feita no município de Hulha Negra, porque o nosso entendimento é que esse seria um legado contínuo e permanente. Os outros vão se apagando ao longo da história, mas treinamento, educação, é permanente.
Dirigente assumiu a entidade gaúcha com o falecimento de Carlos Sperotto, em dezembro de 2017
E teria alguma outra frustração além da pandemia nesse período marcante, que gostaria de ter visto melhorar e não foi possível por alguma razão?
Agricultura. Eu não gostaria de ter vivenciado aqui dentro da Federação da Agricultura, como presidente dela, que tive nesses 8 anos, eu não gostaria de ter vivenciado essas crises agrícolas, porque isso eu trouxe... é algo mais impactante a falta de progresso. Porque nós empreendedores, nós empresários, nós queremos ver as coisas irem para a frente. Jamais voltar para trás. Então, eu quero ver, por exemplo, aqui para o nosso setor, eu quero ver a nossa infraestrutura melhorar, por exemplo. Eu quero ver uma rodovia duplicada, quero ver uma ferrovia funcionando, quero ver desenvolvimento econômico, quero ver as pessoas subindo cada um dentro da sua atividade com mais recursos, porque isso é que mexe a nossa vida. Evidentemente que nós não aceitamos andar para trás, queremos andar para frente. E, realmente, isto nos impactou bastante. Talvez é o que mais tem impactado dentro da Casa, este rema, rema, que é inaceitável. E por questões que nós sabemos de grande dificuldade e que muitos delas, inclusive, fogem ao nosso... mas também temos tecnologia para minimizar, e esta Casa trabalhou muito durante esses anos. E aí tivemos até uma certa incoerência de todas as autoridades, de tudo que vem com as dificuldades crescentes que são criadas no país contra o desenvolvimento econômico. Por exemplo, nós sabemos que para minimizar o impacto das secas em cima do estado do Rio Grande do Sul tu tem que trabalhar com duas medidas: irrigação e construção de solo. Construção de solo é algo mais recente. Irrigação é algo mais antigo, que nós viemos trabalhando há mais tempo, diga-se de passagem. Nós viemos trabalhando com irrigação aqui nesse estado desde o tempo do governador Tarso Genro (2011-2014), quando se fez o programa Mais Água, Mais Renda, que essa Casa teve uma uma participação ativa e forte nesse sentido. Mas por que que não aumentou a irrigação? Porque quando nós tínhamos recurso, taxa de juro equivalente exequível, tínhamos capital, os entendimentos dos processos ambientais muito complexos pelos responsáveis públicos, a Secretaria de Meio Ambiente na época, a Fepam, o próprio Ministério Público Estadual criaram complicações quase que intransponíveis para os produtores na época que tinham recursos poder investir. Nós trabalhamos, nós Federação da Agricultura, governo do Estado recente, trabalhamos na minimização desses aspectos legais. Para trazer segurança jurídica para que o produtor possa investir. Conseguimos evoluir e muito. Só que agora não temos nem dinheiro e nem taxa de juro exequível. Agora estamos descapitalizados porque o produtor se descapitalizou, evidentemente, pelas crises climáticas, hoje a taxa de juro tá inexequível, e, consequentemente, a dificuldade está criada. Então o programa não evolui. Vamos continuar na mesma, sempre olhando para São Pedro. E, evidentemente, que nas questões de solo, olhar da superfície para baixo, não só para cima, porque a irrigação tu olha da superfície para cima, o quanto vai mexer em solo, tu olha para baixo, evidentemente, na vida e na saúde do solo. Hoje nós temos alternativas tecnológicas, são bastante recentes, evidentemente, para também mexermos nisso aí para minimizarmos o impacto da seca. Estamos utilizando muito a própria Embrapa (Trigo), de Passo Fundo, que tem nos ajudado muito nesse sentido, tem nos dado o caminho, mas também são coisas que custam caro, nada é barato nessa história. E também o produtor tá na mesma situação. Então, veja bem, esse é o impacto que nós estamos sofrendo, pelo qual nós não vemos as coisas irem para a frente. Evidentemente, o que nos preocupa aí muito é o baixo nível de investimento do país. Porque nós tínhamos que estar, e principalmente aqui no Rio Grande do Sul, investindo e muito, porque isto, essas questões climáticas, isso vai se solucionar. A agricultura vai voltar a acolher forte. Vai. Vamos acreditar assim. E aí nós esbarramos na falta de infra. E o país tá investindo muito pouco em infraestrutura. E, principalmente, não só em rodovias, que para o estado do Rio Grande do Sul a rodovia chega a ser até mais importante que a ferrovia, que a ferrovia é algo de “tiro longo”. A ferrovia não não se viabiliza em 300 quilômetros, ela tem que ser de 500 quilômetros “para fora”. Tanto é que essa privatização que houve aí desativou ‘n’ ferrovias do Estado. Mas nós tínhamos que estar trabalhando melhor o sistema rodoviário. Mais privatizações para que as coisas aconteçam. Mais, porque se o Estado não tem dinheiro, o (Poder) Público não tem dinheiro, tem que privatizar. E temos um gargalo profundo que são as estradas vicinais. Porque a propriedade rural, via de regra, esmagadora, a maioria delas não tá na beira de uma BR asfaltada ou uma RS asfaltada. Ela tá na beira de uma vicinal, que é de terra e de baixa qualidade. Então, qualquer crescimento, e isso aí é para Brasil, não é só o Rio Grande do Sul, qualquer crescimento que houver nesse sentido, esbarra... E se nós estamos nos candidatando a sermos a maior agricultura do mundo lá entre 2035 e 2040 - e o Brasil vai ser a maior agricultura do mundo se nada nos impactar negativamente -, nós vamos ter sérios problemas da logística.
De certa forma já respondeu, mas o que nesse período o senhor viu como maiores “opositores” ao agro gaúcho?
A insegurança jurídica que tem sido gerada no país. Aí nós vamos para outro terreno que é um terreno legal. Porque, veja bem, os partidos de esquerda têm dificuldade, e não é aqui, é no mundo inteiro, de lidar com a iniciativa privada e o direito de propriedade. Tanto é que o que o comunismo fez? Acabou com o privado. E quando acabou com o privado os países sucumbiram. Vamos ser claros. O único exemplo que nós temos aí de uma coisa que é híbrida hoje, que é um capitalismo selvagem misturado com o comunismo, é o caso da China, que tem que ser avaliado do lado positivo e não do lado negativo. Mas a China também é um fenômeno, e o crescimento da agricultura brasileira está altamente ligado ao crescimento da China, mas é outra história. Eu colocaria que a insegurança jurídica inibe investimentos. E faz muitos anos que nós estamos com partidos de esquerda no poder, tivemos um interregno pequeno aí, e faz muitos anos que nós lutamos contra as inseguranças jurídicas que eles criam. A exemplo, lá atrás, no passado, o que era? Invasão de propriedade. E desapropriação, por índices estapafúrdios que foram criados. Como o direito de responsabilidade social da propriedade, etc., etc. Ou seja, relativização do direito de propriedade. Parece que essa fase nós superamos. Aí vem outra questão muito grave, que ainda está até hoje, do marco temporal. Não que a gente seja contra as populações originárias. Não!, todos têm o seu direito. Mas se vamos cumprir o direito dos povos originários na tendência que está sendo demonstrada hoje, eu acho que a população brasileira tem que voltar para Europa e entregar o Brasil de volta para a população indígena Então, nós vemos que isso é um absurdo. Tá? Então nós precisamos do marco temporal, que já foi colocado, já foi votado pelo Congresso Nacional e, de repente, o STF teve um outro pensamento. Porque o STF passou também a fazer, a legislar aqui no Brasil, né?, o que tá trazendo muita insegurança jurídica, não só nesse setor, em todos. E o produtor, o investidor, ele precisa de segurança jurídica. E estamos com outra questão muito séria, que são as questões ambientais. Que a questão ambiental trouxe no seu bojo também uma relativização do uso da propriedade. Quer dizer, a propriedade é do produtor, mas não é 100% dele. Ele não tem o direito de 100%. Porque, por exemplo, eu para converter uma área para fazer agricultura, substituir uma vegetação pela outra, tenho que pedir licença para um burocrata? Isso não me entra na cabeça. No passado não era assim. Veja bem, não tinha que nada. Eu sou proprietário, tchau, faço. Hoje, não. E quais são os entraves que isso cria o desenvolvimento? A pessoa fazer o investimento, aí precisa pedir autorização para um burocrata que vai levar um ano, dois ou três para dar resposta, se der. Consequentemente, tu não tem autorização, e te traz insegurança jurídica, porque aí as pessoas sabem o que fazem? Fazem. O privado não espera o público, ele vai e faz, só que ele fica à mercê de uma decisão estapafúrdia de alguém. Então, essas inseguranças, e é no Brasil inteiro isso aí, diga-se de passagem. Tivemos outra luta recente que apenas foi postergada, a faixa de fronteira. Tivemos que que fazer ou temos que fazer o levantamento da cadeia dominial dos 150 quilômetros de faixa de fronteira desse país gigantesco. Para quê isso? Então, esse tipo de coisa é fomentado pelos partidos de esquerda, porque eles atingem o coração do desenvolvimento econômico, que é a segurança jurídica, é a propriedade privada, e quando falo no privado não falo só na propriedade privada da terra, mas em qualquer tipo de propriedade, inclusive intelectual, que também é propriedade, e temos que respeitar. Então, estas inseguranças que estão colocadas no país entravam, entravam o desenvolvimento mais célere. Que as pessoas vão fazendo, estão desenvolvendo, tanto é que a agricultura vem crescendo exponencialmente neste país gigantesco. Mas isso são dificuldades que eu diria muito graves.
Na CNA, além de segundo vice-presidente, Gedeão trabalhou pelo agro brasileiro em missões fora do país como diretor de Relações Internacionais
E, com isso tudo, o que te preocupa sobre o futuro do agro gaúcho, algo que até te provoque um medo sobre alguma estagnação nos próximos anos?
Por isso que eu sempre digo, não é o agro gaúcho, é o agro nacional, porque o Rio Grande é a meca do agro brasileiro. O Brasil há 30 anos como agricultura não existia. E eu acompanhei, porque eu sou formado em 1971, eu já tenho 54 anos de formado, eu assisti quando vocês, gente mais jovem, não sabem o que é isso, quando eu chegava no supermercado não tinha comida, não tinha carne para vender. Carne bovina não existia, carne de frango nem falar. A carne de frango era um produto que se comia no domingo, alguma galinha caipira. O Brasil não existia. Então, nós somos um fenômeno da epopeia do povo brasileiro que, em 30 anos, saiu de importador de alimentos ao maior exportador líquido de alimentos do mundo. E se essas coisas não nos atrapalharem pelas descobertas, os avanços tecnológicos que nós descobrimos aqui no Brasil, que é agricultura tropical, que não tem nenhum caso no mundo, porque o mundo sempre se desenvolveu e sempre foi alimentado pela agricultura de clima temperado, e, de repente o Brasil, com a Embrapa e com os gaúchos, descobriu a agricultura tropical, fazer duas e até três do mesmo hectare no ano - não é exatamente o caso do Rio Grande do Sul - é o que está nos levando a sermos essa potência agrícola que já somos hoje, e seremos muito maior. E agora com uma nova faceta, a agricultura brasileira evoluiu e muito, ela não é mais só a responsável pela produção de alimentos, senão alimentos e energia renovável através dos investimentos em etanol e biodiesel, são biocombustíveis. Veja bem ao ponto que nós estamos chegando pela evolução da agricultura, sem competir com a barriga humana. Porque eu faço um etanol de milho, eu tiro esse produto, o seu subproduto, que é o DDG, e o que que eu faço com esse produto? Vai para a indústria suína, indústria do frango e indústria bovina para engordar, fazer proteína.. As proteínas do mundo estão despontando, principalmente com outra evolução tecnológica que veio através do Ozempik. Olha o que eu estou falando, através do Ozempic e do Mounjaro, produtos para emagrecimento, só que para as pessoas utilizarem esses produtos elas têm que aumentar o consumo de proteína, porque tem que tirar a gordura do corpo e tem que preservar a musculatura, isto está impactando a indústria de proteína no mundo. Isso está impactando a agricultura no mundo sob a forma da produção de proteína, por incrível que pareça, são coisas que estão acontecendo na humanidade. Então, cada vez nós precisamos de mais proteína no mundo. Então, hoje, inclusive, as commodities virando muito para o lado da proteína. Hoje, na carne bovina, o Brasil passou a ser agora, a notícia desta semana, o maior produtor mundial do carne bovina, acabamos de superar os Estados Unidos. Já somos assim o maior da soja, estamos crescendo muito no milho, somos enormes no frango e no suíno, tudo é proteína, meu amigo.
Gedeão Pereira é uma das principais lideranças do agro gaúcho há muitas décadas
E o que o senhor espera que mude para o agro gaúcho e brasileiro na questão de consciência das pessoas sobre tudo o que conversamos? Porque muito do exposto as pessoas não sabem.
Melhorou muito e vocês são muito responsáveis por isso, vocês da imprensa. E por quê? Nós éramos num passado bem recente considerados pela população urbana o que Roberto Campos (economista) já dizia: “Não existe opinião pública, existe opinião publicada”. E isto não mudou, esta lógica, porque vocês são formadores de opinião, eu preciso de vocês para ir conversando com as pessoas ao longo da história. Há 20 anos, 30 anos atrás, nós éramos “latifundiários”, nós éramos destruidores de tudo. E nem tanto (tempo) assim, nós éramos “improdutivos, latifundiários improdutivos”. O outro termo que eu vou usar é “gigolô de vaca”, que era o apelido que nos era dado. Nós éramos considerados “latifundiários e gigolôs de vacas”, ou seja, tinha muita terra, produzia pouco e vivia de uma pecuária… Bom, ao longo desses 20, 30 anos vem mudando este conceito através das publicações da imprensa. É muito difícil se hoje abrir um jornal, pegar uma rede social, agora é rede social, que tá na moda, mas antes era jornal, e vocês estarem nos chamando com estes termos pejorativos. De repente nós passamos a ser o “agribusiness”, que depois evoluiu para agronegócio, melhorou, aportuguesou o termo, e quando nós viramos agronegócio, aí a esquerda nos atacou de uma outra maneira: “envenenadores do ambiente”, “destruidores”, criaram a agroecologia, outros nomes assim, orgânico, não sei quê. Nada contra isso, porque tudo é produtor rural. Agora, se dependêssemos só da agroecologia, a comida no supermercado teria outro preço bem diferente, porque não consegue, evidentemente, produzir o mesmo nível. Mas o produtor não é um envenenador do ambiente, pelo contrário, o produtor é o maior zelador, porque hoje com as tecnologias que nós temos, porque eu tenho que cuidar a saúde do solo que eu não enxergo. Eu vejo o resultado. É sinal que estou investindo para cuidar do solo. Eu não posso ter erosão, não posso ter destruição ambiental. A natureza me impõe regras, eu apenas quero melhorar as regras da natureza. Tanto é que o Brasil transformou um cerrado improdutivo de solos ácidos, solos difíceis de trabalhar, nos solos mais produtivos do mundo. O que que é isso se não eficiência? Cuidado, capricho. Então, esta evolução foi detectada por por vocês da imprensa e foi colocada. Então, hoje as pessoas, às vezes, não se dão conta, porque não existe escassez no supermercado, pelo contrário, existe abundância e preços razoáveis, porque o Brasil é um dos países que têm os preços mais baratos, mais baixos em termos de alimentação. Vai à Europa, aos Estados Unidos, à Ásia para ver quanto é que custa o mesmo quilo de carne, de frango, de suíno, de arroz, ou seja lá o que for o produto no supermercado para ver se o nosso preço não é muito mais barato. Tanto é que a inflação de alimentos nos países exportadores é muito mais baixa do que a inflação de alimentos nos países importadores. Então, a população observou uma eficiência, que o agro hoje é eficiente no país. A esquerda não, porque a esquerda continua tentando denegrir essa imagem. Mas a população como um todo já tem a percepção de que o agro é algo eficiente que está colocado no país e que ele é tão responsável pela vida, não só de oferecer alimentos, como garantir a vida das pessoas, porque o agronegócio brasileiro é o responsável pela superavit da balança comercial como nenhuma outra atividade, porque os outros, a indústria deficitária, no serviço somos deficitários, nós somos superavitários é no agro. Então, não só garante a alimentação e hoje também parte da energia, como também garante uma balança comercial saudável que nos permite fazer as relações comerciais com o mundo inteiro, porque se não fosse o agro, possivelmente estaríamos com dificuldade de importar muita coisa, inclusive os automóveis que estão chegando aí do mundo inteiro. Nem só automóvel, o iPhone, o Samsung, não sei o quê. Tudo é dólar.
E como vai ser o seu trabalho na na CNA e a sua expectativa?
Eu estou muito honrado de ter sido convidado. Nós temos um grande presidente na CNA. João Martins da Silva Júnior, baiano. Um homem que tem uma visão de país no entendimento do crescimento do agronegócio e tem colocado a CNA à altura deste crescimento. Porque a CNA é a casa da defesa do produtor para todas essas complicações de insegurança jurídica, inclusive. E lá está a CNA com reconhecimento, porque na realidade o sistema mais robusto de defesa do produtor rural começa no nosso sindicato rural, que no momento nós somos 138 (RS), no Brasil são mais de dois mil, 27 federações de agricultura, uma em cada estado brasileiro, com a nossa CNA em Brasília, que junto com as suas coirmãs da indústria, do comércio, dos transportes, é a cúpula: CNA, CNI, CNC, CNT. Então, são as confederações. Esse é o sistema mais robusto do país, que existe em todos os setores: comércio, indústria, transporte, agricultura e agronegócio. A CNA tem essa envergadura. Então, ela tá lá na defesa do produtor rural. Quando eu fui convidado por este grande presidente a ser o seu primeiro vice, eu já era segundo (vice) e com a área de mercado internacional (diretor de Relações Internacionais da entidade), com nuances de trabalho no exterior e também no interno, porque tu só exporta o que tu produz. Para produzir aqui dentro, tu tem que estar com todas essas condições equilibradas. E além do mais, a CNA não intervém nas grandes commodities. Cada uma tem o seu seu setor, porque já estão organizados, já se apresentam ao exterior. Hoje o Brasil tem as grandes multinacionais, as da carne bovina, por exemplo, são brasileiras. E as de frango e de suíno também. São empresas brasileiras, as maiores do mundo. É algo realmente fantástico. Então, não é isso aí que nós estamos preocupados. Isso, por si só, caminha. Nós estamos preocupados é com o resto que não aparece lá fora. E o Brasil não tem marcas lá fora. São poucas. O setor mais desenvolvido em marca, made em Brazil, com marcas conhecidas, é o setor do frango. Então, a CNA tem o trabalho de pegar produtores médios e levarmos a participar das grandes feiras do mundo, etc., etc. Isso é um trabalho. Mas o principal trabalho da CNA é justamente na defesa do produtor, é onde nós estamos inserindo nesse momento. Eu estarei me inserindo nesse processo de fazer um acompanhamento, ajudar o presidente a fazer e os grandes investimentos em treinamento e educação que é nacional, não é aqui. Não é só aqui que nós estamos fazendo, não, é o Senar Brasil e com grandes desafios novos, que é a inteligência artificial que está aí, que são coisas que também nós estamos desenvolvendo através da CNA para o agronegócio.
