Motor histórico da economia gaúcha e responsável por movimentar mais de 40% do Valor Adicionado Bruto (VAB) da agropecuária em anos de safra cheia, a soja vive um contraste no Rio Grande do Sul. Enquanto o país avança em eficiência, o Estado colhe, em média, 14,2 sacas por hectare a menos do que a média nacional de produtividade. Essa diferença de desempenho, que foi mostrada na edição passada do Correio do Povo Rural, não afeta apenas o campo, ela impacta os cofres públicos, o comércio, a indústria e os serviços.
Quando o Estado deixa de colher milhões de toneladas de grãos devido a frustrações de safra e a gargalos técnicos, a arrecadação de impostos diminui e os investimentos acabam travados, comprometendo o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho. Na sequência da matéria especial iniciada na semana passada, que analisou as causas e o abandono de manejos fundamentais nas lavouras, a reportagem detalha agora o tamanho da “sangria econômica” provocada pela baixa produtividade do grão e como o desempenho do campo dita o ritmo da economia gaúcha.
“A importância da soja vai além de sua participação direta na produção, em razão das relações que mantém com diversas outras atividades econômicas. Entre elas, destacam-se a produção e a comercialização de insumos, máquinas e equipamentos, a indústria de processamento, incluindo a produção de óleo e biocombustíveis, além das atividades de armazenagem e transporte”, detalha o pesquisador do Departamento de Economia e Estatística (DEE), da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão, Martinho Lazzari.
O cultivo ainda representa efeitos indiretos na renda dos gaúchos, já que as riquezas geradas no campo movimentam outros setores principalmente por meio do consumo das famílias. “Assim, uma menor produção decorrente de condições climáticas adversas pode repercutir sobre diferentes segmentos da economia e, consequentemente, sobre a arrecadação estadual”, analisa. Embora não exista um cálculo oficial dos impactos totais sobre a arrecadação em função do volume produzido, ele afirma que “estimativas internas indicam que esses efeitos são relevantes”.
Em razão de sua expressiva participação na economia estadual, as oscilações provocadas especialmente por questões climáticas, como estiagens, entre as safras têm impactos significativos sobre o desempenho do PIB do Rio Grande do Sul, segundo Lazzari. “Um exemplo ocorreu em 2021, quando o Estado registrou uma supersafra de 20,4 milhões de toneladas de soja. Naquele ano, o VAB da Agropecuária cresceu 53%, contribuindo, direta e indiretamente, para o desempenho do PIB estadual, que avançou 9,3%, acima do crescimento de 4,8% registrado pela economia brasileira. No ano seguinte, porém, uma forte estiagem provocou uma queda de 54% na produção, que recuou para 9,4 milhões de toneladas. Como consequência, o VAB da agropecuária caiu 43%, contribuindo decisivamente para a retração de 2,6% do PIB estadual”, exemplifica.
Se a agricultura gaúcha conseguisse atingir a média nacional de produtividade de 60,36 sacas por hectare apurada no último ciclo pela Conab, o Rio Grande do Sul teria colhido mais de 24 milhões de toneladas de soja, considerando a sua área cultivada de 6,73 milhões de hectares. Como o volume efetivamente produzido ficou em torno de 18,6 milhões de toneladas em 2025/26, o déficit do Estado representaria cerca de 6 milhões de toneladas de grãos. Considerando o preço médio da saca pago ao produtor, que atualmente é de R$ 139,71, segundo a Emater/RS-Ascar, seriam quase R$ 14 bilhões deixando de circular na economia.
“Uma redução da atividade econômica associada a uma frustração de safra pode repercutir sobre a arrecadação estadual e, consequentemente, sobre a disponibilidade de recursos para o financiamento das políticas públicas em áreas essenciais”, diz Lazzari.
Contudo, esse efeito, na avaliação dele, não se traduz automaticamente em uma redução equivalente dos investimentos, pois a capacidade financeira do Estado também depende de outros fatores, “como o comportamento das demais atividades econômicas, as transferências recebidas, as despesas obrigatórias e os demais gastos que influenciam a situação fiscal do Estado”.
O efeito multiplicador da lavoura
Cada R$ 1 gerado no campo gera mais R$ 3,2 fora dele, na indústria e nos serviços. Essa é a conta que o economista-chefe do Sistema Farsul, Antônio da Luz, faz para mostrar a dimensão do setor rural na economia.
“Logo, quanto mais produzir, mais crescimento, mais oportunidades para empreendimentos micro, médios e grandes e também empregos”, avalia.
A influência do agro sobre os demais setores também é destacada pelo economista do Instituto Fecomércio-RS de Pesquisa Lucas Schifino. Ele explica que a renda gerada pelo cultivo é proporcional à produtividade obtida. “Quando eu tenho menos produtividade, eu gero menos renda. E, se eu gero menos renda, isso vai impactar outros setores, porque eu vou ter menos consumo, vou ter menos pessoas circulando pelo Estado, menos demanda na economia. Então os setores são bastante interligados. Um setor gera demanda para o outro”, explica Schifino, ao analisar o efeito cascata gerado quando o principal produto agrícola do Estado, a soja, não atinge o seu potencial máximo por hectare.
O economista observa que a produtividade está associada ao valor adicionado e ao PIB.
“Se eu consigo produzir mais com a mesma área, significa que eu estou adicionando mais valor. Quanto menos dessa produtividade, menos PIB”, resume.
Sobre os segmentos mais atingidos nas cidades do interior pela baixa produtividade da oleaginosa, Schifino aponta que os impactos se concentram nos serviços prestados às pessoas e às famílias. “Os serviços que são dependentes da geração de renda acabam sendo mais afetados. Tu pegas o consumo em geral, consumo de alimentos, consumo de alimentação fora de casa e dentro de casa, comércio, supermercados, serviços pessoais básicos que as pessoas usam. Se tu tens um problema de ter menos renda por causa de menos produtividade, certamente isso vai acabar impactando os serviços pessoais.”
Ele acrescenta que as regiões com grande presença da soja, como o norte do Estado, sentem esses efeitos de forma mais direta: “Se a gente conseguisse ter uma produtividade maior, essas regiões ganhariam mais, o PIB delas aumentaria mais e isso acabaria tendo um reflexo para outros setores também”. Schifino complementa que o efeito atinge inclusive os pequenos produtores sem vínculo formal de emprego.
“Você tem propriedades menores que têm agricultores que não têm relações de emprego CLT, que têm um cadastro de agricultor, que são empresários, na verdade, e essa produtividade afeta a renda dele e de toda a cadeia”, diz.
Arrecadação
A variação na produção agrícola reflete-se também no recolhimento tributário. Segundo nota técnica da Farsul, em anos de estiagem no Rio Grande do Sul, a perda de produção no campo, incluindo outras culturas além da soja, impacta diretamente a arrecadação de impostos federais ligados ao consumo e à circulação econômica, como PIS, Cofins e IPI. A entidade estima que a mitigação dessas perdas por meio da irrigação poderia preservar entre R$ 1,45 bilhão e R$ 3,66 bilhões em impostos federais arrecadados no Estado durante um ciclo de seca, por exemplo.
Analisando o histórico de investimentos em irrigação, Antônio da Luz ressalta as dificuldades enfrentadas pelos agricultores gaúchos para expandir a área irrigada no Estado. “Os produtores tentaram desesperadamente investir em irrigação entre 2012 (seca grande) e 2020 e não conseguiam por causa de posicionamentos histéricos de parte do poder público. Agora houve uma mudança muito grande, um ajuste que coloca o RS mais próximo das experiências internacionais, mas agora ele não tem dinheiro. As perdas que tivemos foram uma escolha da sociedade”, declarou o economista-chefe da Farsul.
Segundo dados da entidade, desde 2020, estavam projetadas produções que chegariam a 227.030.120 toneladas de grãos, mas as colheitas atingiram 178.474.842 toneladas. A perda nesses anos foi de 48,6 milhões de toneladas. Em termos financeiros, os produtores deixaram de faturar R$ 126,3 bilhões, que movimentariam R$ 400 bilhões para a sociedade gaúcha, o equivalente a 49% do PIB do Estado.
Dificuldade de investir
Sobre as perdas do produtor de soja, o coordenador do Levantamento de Safra da Agroconsult e do projeto Rally da Safra, Gildomar Lindemann, chama atenção para um efeito “bola de neve”. No Rio Grande do Sul, diante das frustrações de safra, o produtor acaba reduzindo o custo e, em algumas propriedades, adotando um manejo mais enxuto, o que limita o potencial produtivo, conforme Lindemann.
“Com uma menor geração de caixa, o produtor precisa recorrer ainda mais ao capital externo no momento de maior endividamento.” Ao mesmo tempo, segundo ele, o aumento do risco torna os credores mais cautelosos, restringindo o crédito ou ainda elevando o custo.
“Nesse cenário, o principal problema passa a ser o comprometimento do fluxo de caixa. Quando o produtor não consegue gerar caixa suficiente para honrar os seus compromissos e financiar o próximo ciclo, aumenta o risco de inadimplência, de novos endividamentos e cria um efeito bola de neve sobre a situação financeira”, esclarece.
Essa dinâmica também reduz a circulação do recurso na economia estadual e pode afetar toda a cadeia ligada ao agronegócio, na avaliação dele.
Gargalos que impactam o consumidor final
Os gargalos em eficiência que impactam o campo têm uma série de causas nos ambientes de atividade cotidiana dos produtores rurais, assim como consequências para quem nunca chegou perto de um pé de soja. O engenheiro agrônomo Ricardo Balardin, integrante do Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB), que foi professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) por 30 anos, lista os entraves do setor, sobretudo no Rio Grande do Sul, e menciona um dos desdobramentos: “A população que está do outro lado, que não entende da agricultura, se pergunta: ‘Cara, mas por que estou pagando tão caro pelo óleo de soja? Por que estou pagando tão caro pela manteiga? Por que estou pagando tão caro pela comida?’ E vamos analisar no final do dia: está pagando caro porque existe uma ineficiência na produção, que tem uma série de razões.”
Motivos para nível baixo
O especialista lista os motivos que levaram a sojicultura gaúcha a um nível tão baixo de produtividade. Naturalmente, não tem como dissociar do comportamento climático, visto que houve “uma ou duas safras razoáveis nos últimos dez anos”.
Ele afirma que isso comprometeu as condições econômicas dos produtores. “Ao tirar a capacidade financeira, houve uma espécie de seletividade entre os produtores que seguiram apostando em tecnologia e aqueles que reduziram a tecnologia. Então, a capacidade financeira, de pagamento, de investimento caiu muito”, esclarece. Mas, adverte:
“Agora, o grande ponto que, me parece, também está um pouco na esteira disso é que perdemos muito a capacidade e a visão empresarial da agricultura no Sul.”
Necessidade de qualificação
O professor explica que em outros estados, como a Bahia, que lidera a média nacional de produtividade de soja, estão presentes muitas empresas agrícolas, com gestão, governança e planejamento. “E, no Sul, nesse ponto, existem algumas empresas agrícolas, mas a maioria são produtores, filhos de produtores, que fazem aquela agricultura mais tradicional, aquela coisa familiar, que (o agricultor) vai na cooperativa ver o preço, que não tem uma consultoria agronômica alinhada com a última tecnologia”, descreve.
“Nós precisamos reverter o cenário. E acho que passa muito por uma visão empresarial da agricultura. A agricultura deixou de ser o ‘colono’. Com todo o respeito, os meus familiares, o pai do pai eram colonos...”, complementa Balardin. Ele relata ter circulado pelo país em eventos, oportunidades em que observou o seguinte:
“Andei muitos anos no campo. As regiões mais difíceis de você fazer uma palestra, uma consultoria, um treinamento eram no Sul. Porque o gaúcho ‘sabe’ mais que todo mundo, tem uma resistência muito grande. E tu ias para o Cerrado, para essas áreas de empresas agrícolas, os caras escutavam, conversavam, dialogavam, trocavam ideia, trocavam opinião. Esse tipo de postura tem que mudar”, alerta.
“A gente não sabe mais. Não é porque o berço da soja foi Santa Rosa que vamos sempre, para todo o sempre, (ser) os que sabem de soja. Não é assim. E isso eu acho que tem que mudar, uma questão cultural que é aliada a essa questão de falta de dinheiro que exige uma nova postura. Isso somado vai fazer com que as médias (de produtividade), mesmo em anos de clima normal, possam ter dificuldade”, avalia o professor.
Antes e depois da porteira
Balardin contextualiza que existe uma série de situações que influenciam na agricultura, desde a logística deficitária, sobretudo se comparada ao agronegócio do concorrente americano, à dependência de importação de fertilizantes, com sucessivos aumentos de preços em dólar. “A agricultura não é só dentro da porteira. É também antes e depois da porteira. Isso faz com que o frete fique mais caro. Você não tem tanta disponibilidade de caminhão, porque aonde os caminhões vão ir? Vão aonde tem volume. Onde é que tem volume? Cerrado”, salienta.
E conclui: “Se o produtor não entender que tem que ser um empresário, que tem um negócio na mão e que esse negócio não pode depender só de chuva, não pode fazer a escolha de um defensivo porque o vendedor é amigo dele. Enquanto não entender que mudou, ele vai ter problema”, decreta. “Existe uma série de situações que fazem com que a gente dê uma ré histórico na questão de produtividade. E que haja um sentimento de incapacidade da produção”, descreve.
Planejamento para produção e renda
O grão é uma produção de dinheiro na definição do agricultor Paulo Roberto Vargas, que é vice-presidente do Sindicato Rural de Carazinho, município onde conduz a propriedade Granja Capão Grande, com alto teto produtivo de soja por hectare, segundo a Agroconsult.
“Se produzir bastante dinheiro por hectare, a tendência é que as pessoas consigam viver melhor, os funcionários também recebem comissão e vão gastar no município”, afirma.
O produtor, que também integra a diretoria da Farsul, observa que serviços como manutenção de maquinário, comércio e outros sentem o impacto positivo quando se produz o máximo possível. “O produtor e o distribuidor vão ao mercado, à loja de roupas, dentista, médico”, resume.
Na última safra de verão, Vargas colheu cerca de 62 sacas de soja por hectare. Para ele, foi um resultado médio, porque a produtividade obtida já passou de 83 sacas, “quando tudo deu certo”. Em sua avaliação, isso acontece quando o tempo colabora, mas também depende da associação de um minucioso planejamento, que vai desde a definição da quantidade de plantas por hectare, do cuidado das vagens e dos grãos até a aquisição de insumos.
Porém, nada disso adianta se a rentabilidade não for adequada. Por isso, a organização passa por administrar os frutos financeiros da colheita.
“A palavra-chave é rentabilidade. A gente tem que ter produtividade e não gastar mais do que vai ter de retorno. A safra é o salário de um ano de uma família, não é no dia 30 que entra dinheiro. Colheu, vai ter que manter a família durante 12 meses.”
A oscilação do resultado impacta diretamente a economia das cidades. “Todos os amigos que têm lojas e prestam serviço reclamam que também baixa (o movimento de clientes) quando a safra é ruim.”
Assim, é preciso administrar tanto o dinheiro como os recursos técnicos para minimizar qualquer perda. “Nós não temos uma estabilidade. Então, a gente trabalha o planejamento de longo prazo, planejando bastante para poder evoluir”, explica Vargas, destacando as diferenças de altitude e solo do RS.
O produtor ressalta que o processo operacional começa meses antes no laboratório e na gestão administrativa. “Começa, às vezes, com mais de seis meses de antecedência. Planejar qual é o fertilizante que preciso usar na propriedade, ter as amostras de solo para ver quanto precisa botar de nitrogênio, fósforo, potássio, enxofre, magnésio.” Além disso, a estratégia inclui a velocidade de plantio ajustada, escolha da genética, regulagem de maquinário e o uso de até seis variedades de soja com ciclos diferentes para equilibrar os riscos de estresse hídrico.
Apesar de já ter alcançado o pico de 83,7 sacas por hectare há cerca de seis anos, quando as condições climáticas foram ideais, Vargas pondera que a estabilidade é difícil em um estado que tem frequentes episódios de seca. “O plantio direto na palha protege o solo. Só que, se não chover na época ideal, não tem muita mágica para fazer.”