Regulamentada há menos de três anos no Estado, a meliponicultura, como é chamada a criação de abelhas-sem-ferrão, ganhou um estímulo no território gaúcho desde então. Apesar da falta de dados atualizados sobre o número de criadores, representantes de associações do setor confirmam que o manejo das espécies nativas atrai cada vez mais adeptos, movimentando a venda de colmeias e a oferta de treinamentos aos interessados em se aventurar na atividade.
O escoamento da produção do mel, atrativo mais cobiçado desses insetos com nomes indígenas, porém, ainda enfrenta barreiras, especialmente no processamento do alimento coletado nos meliponários.
As normas para a meliponicultura são detalhadas no decreto estadual nº 57.372/2023, que regulamentou Lei 14.763, de 2015. Pelo texto, o comércio de abelhas-sem-ferrão é autorizado a criatórios cadastrados nos órgãos de controle sanitário animal e ambiental do Estado.
Mas, para vender o mel nativo legalmente, o produtor precisa comprovar a autenticidade do alimento por meio de análises laboratoriais, observa o presidente da Federação das Associações da Meliponicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Femers), Nelson Angnes.
O mel também deve passar por uma inspeção e receber algum tipo de selo, concedido por um órgão municipal, estadual ou federal. São as certificações conhecidas por siglas como SIM, SIF e SISBI, que atestam a segurança de produtos de origem animal e delimitam a área de comercialização.
“Muitos produtores não produzem grande quantidade por causa da certificação. Eles têm 150, 200 quilos de méis da espécie jataí, mas poderiam ter uma produção muito maior”, diz Angnes.
Segundo o meliponicultor, o comércio depende da disponibilidade das chamadas casas de mel, instalações que fazem o beneficiamento, o envase e a rotulagem do alimento dentro das normas. A pequena escala de produção, porém, dificulta o acesso a esses entrepostos.
Ao contrário da Apis mellifera, a espécie com ferrão predominante no país, de origem estrangeira, as melíponas formam colônias pequenas. Enquanto um enxame das abelhas “operárias” fabrica de 30 a 40 quilos de mel por ano, a colmeia da legitimamente “brazuca” jataí, por exemplo, rende em torno de 1 quilo por safra.
“Se você vende um frasquinho de 150 ml a R$ 25, R$ 30, a pessoa compra dois e fica feliz. Porque está muito escasso o mel das abelhas-sem-ferrão”, destaca Angnes.
O presidente da Associação de Meliponicultores do Vale do Alto Taquari (Amevat), Paulo Conrad, diz que, em razão da falta dos selos de inspeção, a maioria dos produtores opera com foco no comércio de colmeias.
Um enxame de jataí pode ser comprado por R$ 200, enquanto espécies mais raras, como a guaraipo, chegam a custar R$ 600. Com em torno de 120 associados, a Amevat foi a primeira organização de meliponicultores criada no Estado, mas poucos dos filiados oferecem mel certificado.
“O mel é vendido muito ainda no mercado informal, para conhecidos. Ele (o produtor) não participa de feiras (do setor) porque não pode ir, não está legalizado”, diz Conrad.
Incentivo
Para incentivar a produção e fazer com que o mel nativo chegue à gôndola do supermercado, ele defende a disseminação das boas práticas de colheita e processamento. No caso das abelhas-sem-ferrão, explica o presidente da Amevat, a extração do mel é feita diretamente da colmeia, por sucção, com uso de sugadores elétricos.
“O mercado tem de ser organizado. E é um trabalho lento. Mas o Estado preparou a unidade de processamento de mel de Apis, vale também para meliponicultura”, avalia Conrad.
Produtor de soja, milho e trigo, o apicultor e meliponicultor Claudir Marciano Dapper, de Três Passos, foi um dos pioneiros na comercialização de mel de abelhas nativas certificado no Estado. Proprietário do Meliponário & Apiário Dapper, ele tem em torno de 500 colmeias de 18 espécies, das quais 200 são colônias de jataí destinadas à produção de mel.
O primeiro passo foi dado em 2023, com a instalação de uma agroindústria para envase do alimento. No ano passado, a empresa obteve o selo do Sistema Unificado Estadual de Sanidade Agroindustrial Familiar (Susaf-RS) e, como isso, pôde expandir as vendas a outras regiões gaúchas.
Demanda
Agora, o meliponicultor comemora o recém-conquistado Selo Arte, certificação do governo federal para produtos artesanais que permite a venda em todo o território nacional. “Depois que as pessoas descobriram os benefícios do mel da abelha-sem-ferrão, elas procuram muito. Creio que a gente não vai ter produção própria para conseguir atender ao comércio”, diz Claudir.
Sua colheita anual totaliza 130 quilos de mel, e o alimento é oferecido no mercado em frascos de 250 gramas, com preço médio de R$ 60. Em sua propriedade, Claudir recebe gratuitamente grupos de estudantes de escolas e universidades.
“O fato de elas (as pessoas) poderem abrir a caixinha e degustar o mel chama muita atenção”, conta.
O fascínio do agricultor pelas abelhas vem do histórico familiar: elas entraram na vida dos Dapper há seis décadas e hoje fazem brilhar os olhos de Arthur Henrique, de 8 anos. Filho do agricultor, o pequeno já tem colmeias próprias de sua espécie favorita, a mirim-guaçu, e gosta de dar explicações aos visitantes.
“Nesta espécie, a rainha geralmente fica em cima, mais à vista. Não tem invólucro ao redor dos discos de cria, é bem grande, dá para diferenciar. Todo mundo quer saber, e aí a gente consegue mostrar”, explica o pai.
Paixão pelas melíponas vira fonte de renda
Apesar das dificuldades de envase, mel de abelhas-sem-ferrão tem alta procura e alcança preços elevados devido à escassez da produção
Distribuídas entre os biomas brasileiros, como a Mata Atlântica e o Pampa gaúcho, as abelhas-sem-ferrão são inofensivas e têm papel importante na preservação da biodiversidade. Mas o interesse em torno desses polinizadores de ecossistemas não se deve apenas à docilidade com que reagem aos curiosos e ao seu serviço ecológico.
O mel que fabricam pode apresentar diferentes sabores e texturas, dependendo dos recursos florais disponíveis nas regiões habitadas, sendo muito valorizado pelas propriedades nutricionais. No Rio Grande do Sul, muitos criadores de abelhas nativas iniciaram a atividade como um hobby e acabaram transformando a meliponicultura em fonte de renda.
O programador Marcelo Passos, de Maquiné, é um dos que vêm obtendo sucesso no ramo. Em um sítio no distrito de Rio do Ouro, ele se dedica à criação de abelhas jataí, mandaçaia, manduri e mirim-emerina. São cerca de 120 enxames que produzem a cada ano, em média, 180 quilos de mel, além de própolis e cera.
Vendido principalmente em feiras sob a marca Produtos da Colmeia, o doce nativo pode ser adquirido em três apresentações: embalagens de 30 ml e 140 ml e sachês (kits com 35 unidades de 4 gramas), com valores de R$ 30, R$ 85 e R$ 95, respectivamente. Passos também aluga colmeias para polinização de cultivos agrícolas, como o morango, e oferece treinamentos a outros produtores.
“É uma atividade que exige certa dedicação, conhecimento, um investimento, mas dá retorno e rápido. Hoje, ela é totalmente sustentável para mim”, afirma Passos. Em seu trabalho, ele buscou apoio do engenheiro agrônomo Carlos Gustavo Nunes, especialista em análise sensorial de méis, e da Unipampa, que faz a análise de própolis para o meliponário.
“Tem uma série de parcerias que ajudam a compor essa cadeia (do mel) e entender o produto, para que a gente tenha tanto posicionamento no mercado quanto o respaldo técnico para explicar o que é aquilo ali”, observa.
Gargalos da atividade
Para comercializar o produto fora de seu município de acordo com as normas, Passos teve dificuldades em encontrar, no Estado, um estabelecimento para o envase de mel de abelhas nativas com o selo SIF, certificação máxima de qualidade concedida a produtos de origem animal. Por isso, recorreu a um entreposto no município catarinense de Balneário Gaivota.
“Você vai fracionar (o mel) e vender em frascos pequenos para o entreposto que está acostumado a envasar toneladas. Para ele, não compensa”, explica o meliponicultor. Atualmente, ele se prepara para encaminhar o mel coletado a uma agroindústria certificada no município de Santo Antônio da Patrulha, que passará a envasar o alimento.
A exemplo do que se tornou comum na apicultura, Passos acredita que o futuro do mel de abelhas-sem-ferrão está na diferenciação. Nesse cenário, ele destaca a importância do investimento em análises polínicas. O exame dos grãos de pólen presentes no mel permite identificar as flores visitadas pelas abelhas que predominam em sua composição, funcionando como um selo de autenticidade dos méis.
“Já se abriram os olhos do produtor para isso. Você tem o mel silvestre, de uva-japão, de aroeira. Então, isso dá uma valorização para o produto e nos coloca num outro patamar, numa linha de alta gastronomia”, avalia Passos.
Alto valor
Os preços atingidos pelo alimento impressionam. Segundo Passos, o mel de jataí, uma das abelhas tupiniquins mais conhecidas, é negociado entre produtores a R$ 200 o quilo. Mas o alimento maturado pode alcançar valorização ainda maior, ultrapassando R$ 1 mil o quilo, afirma o programador.
É que, diferentemente dos méis dos insetos africanizados, o das melíponas apresenta alta umidade (25% a 30%), o que facilita a fermentação natural. Para ser consumido in natura, deve ser mantido sob refrigeração.
Já no processo de maturação, o doce é colocado em recipientes selados e passa por um processo controlado, o que evita a fermentação excessiva, preserva suas propriedades e permite a armazenagem em temperatura ambiente. “Pode levar seis meses para ficar pronto”, diz Passos.
Selo e renda
da Associação de Apicultores e Meliponicultores de Caraá, que reúne em torno de 30 filiados, o técnico agrícola Vinicius Deloel Monteiro Gomes vê boas perspectivas de mercado para o mel nativo. Após investir na estruturação de uma “casa do mel”, a entidade se prepara para iniciar o envase do alimento com o selo da inspeção federal. Para Gomes, o empreendimento significa a oportunidade de estender as vendas do produto a outros municípios e até redes de supermercados.
“A gente acredita que vai ter uma ótima recepção, mas vamos ter de botar no comércio para verificar isso. Tendo mais gente colocando o seu produto no mercado, acredito que talvez nem vá ser suficiente”, avalia.
Gomes conta que começou a enxergar as abelhas-sem-ferrão como um negócio em 2016. Em seu Sítio Bella Mata, que abriga apiário e meliponário, ele mantém hoje mais de 400 enxames dos tipos mandaçaia, guaraipo, jataí e manduri. De cada espécie, coleta em torno de 80 a 100 quilos de mel por ano. O alimento é vendido em potes de 50 gramas e 250 gramas, com preços de R$ 30 e R$ 95, respectivamente.
Além do doce, o meliponicultor produz hidromel e aguardente de mel, por meio de uma parceria com a hidromelaria Norseman, de São Leopoldo, própolis e ceras artesanais. “Hoje, a minha renda maior é da apicultura e da meliponicultura”, afirma.
Em Nova Petrópolis, a meliponicultura trouxe renda crescente a Leandro Voltz e Márcia Birk, que atuam na venda de enxames e mel certificado. O processamento do mel é feito na agroindústria Nova Mel, que no ano passado recebeu o selo SISBI-POA — o selo unifica os sistemas de inspeção de alimentos, permitindo a venda em todo o país.
Mas, na propriedade do casal, a matéria-prima fornecida pelas abelhas é usada também na fabricação de itens como sabonetes e cremes, sob a marca RosaMel. “Aprendi com cursos e amigos que já fazem esses produtos. Estou fazendo cursos para me especializar cada vez mais”, diz Márcia.
Segundo Márcia, o negócio familiar começou como um hobby do marido, que, graças à internet, foi adquirindo cada vez mais conhecimento sobre os insetos e ampliando as colônias. Hoje, eles cuidam de cerca de mil colmeias de abelhas-sem-ferrão. Os preços dos enxames, explica Márcia, variam de R$ 150 a R$ 1 mil, dependendo da espécie e do tipo de caixa fornecido.
Um parque inteiro para elas em Águas Claras
Projeto é focado no turismo de experiência com os insetos sem ferrão e recebe visitantes, que incluem famílias e grupos de estudantes
Jataí, bugia, guaraipo, guiruçu, mirim-droriana, mirim-emerina, mirim-saiqui, mirim-nigriceps, mirim-meridionalis, iraí, tubuna, canudo, manduri e (ufa!) mandaçaia. Todas essas espécies de abelhas nativas podem ser vistas “ao vivo” no Parque Mel e Cravo, projeto idealizado pela meliponicultora Janaína Alves de Lima Mello e focado no turismo de experiência com os insetos sem ferrão. Na propriedade de dois hectares, situada no distrito de Águas Claras, em Viamão, ela recebe visitantes, famílias e grupos de estudantes interessados em conhecer as melíponas.
A imersão no mundo das abelhas começa com um passeio guiado entre os hotéis de insetos, estruturas feitas de madeira, bambu e materiais reciclados que servem de abrigo aos polinizadores solitários, que não vivem em colônias. Segundo Janaína, essa primeira etapa ajuda a tranquilizar os visitantes que demonstram receio de se aproximar das abelhas-sem-ferrão.
Depois, a atividade prossegue em meio às estrelas do parque. No local, há quase 100 casinhas de abelhas decoradas e mais de 300 das chamadas caixas racionais, projetadas para facilitar o manejo dos ninhos. Jardins sensoriais, áreas para relaxamento e piqueniques completam as atrações, além – é claro – da possibilidade de degustar o mel direto da fonte.
“A gente brinca assim: no início, eles (os visitantes) estão a dois metros de distância; no final do passeio, já estão quase dentro da caixa. À medida que a gente vai contando as particularidades das abelhas, as pessoas vão gostando e perdendo o medo”, diz Janaína.
Referência em meliponicultura no Rio Grande do Sul, Janaína trabalhou com marketing, mas há quatro anos passou a se dedicar exclusivamente às abelhas. “O primeiro evento que eu fui foi em Igrejinha. Saí de lá com cinco caixas de abelhas nativas”, recorda. Depois de muitos cursos e qualificações na área, ela estudou cosmetologia natural e desenvolveu uma linha com 60 produtos à base de insumos das abelhas, como mel e própolis.
Foi, então, diversificando os serviços prestados, que hoje incluem implantação e manutenção de meliponários, aluguel de colônias para polinização, cursos sobre manejo de abelhas e consultorias na área.
“A maioria das espécies não conseguem viver sozinhas. Hoje, não existe oco de árvore, não existe uma abundância em alimentação para que elas possam viver sozinhas. Por isso, os meliponicultores são tão importantes”, enfatiza Janaína.
Aprendizado
Ao participar de feiras e eventos, Janaína percebeu um grande desconhecimento sobre as abelhas nativas, o que a motivou a criar o Parque Mel e Cravo. O espaço é aberto ao público nos finais de semana, e o ingresso custa R$ 45 para adultos e R$ 25 para menores de 5 a 10 anos. Hoje, o cuidado das abelhas envolve também o marido da meliponicultora, Leonardo Medeiros de Mello, e os filhos Julia e Joaquim.
“A grande maioria tem a meliponicultura como segunda atividade. Acho que somos uma das poucas famílias que vivem 100% da meliponicultura”, afirma Janaína. Mais do que um fonte de renda, os insetos nativos proporcionaram a ela um aprendizado. “Elas trabalham em comunidade. Mudei o meu modo de ver as coisas. Quando uma colmeia morre, outra ocupa aquele local, então sempre tem uma regeneração. Isso foi uma coisa que me encantou”, diz.
RIQUEZA GAÚCHA
No Rio Grande do Sul, são citadas 24 espécies de abelhas nativas. Confira os nomes populares e científicos:
Iratim, abelha-limão (Lestrimelitta limao)
Iratim, abelha-limão (Lestrimelitta sulina)
Guaraipo, pé-de-pau (Melipona bicolor schencki)
Manduri (Melipona obscurior)
Mandaçaia (Melipona quadrifasciata)
Mirim do chão, bieira (Mourella caerulea)
Iraí (Nannotrigona testaceicornis)
Mirim-sem-brilho (Paratrigona subnuda)
Mirim (Plebeia catamarcensis)
Mirim-droriana, boca de sapo (Plebeia droryana)
Mirim-emerina (Plebeia emerina)
Mirim (Plebeia meridionalis)
Mirim nigriceps (Plebeia nigriceps)
Mirim-guaçu (Plebeia remota)
Mirim-saiqui (Plebeia saiqui)
Mirim-mosquito (Plebeia wittmanni)
Tubuna (Scaptotrigona bipunctata)
Canudo (Scaptotrigona depilis)
Tubuna (Scaptotrigona tubiba)
Mel-de-chão, guiruçu (Schwarziana quadripunctata)
Vorá, borá, jataizão (Tetragona clavipes)
Jataí, alemãozinho (Tetragonisca angustula)
Jataí, alemãozinho (Tetragonisca fiebrigi)
Irapuá (Trigona spinipes)
Fonte: SEMA