Em uma ação rápida envolvendo Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), Batalhão de Aviação da Brigada Militar (BABM) e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, dois órgãos chegaram ao HCPA, seus destinos finais, em segurança e prontos para ser transplantados em um paciente. Mas este procedimento, que chamou a atenção na tarde deste sábado na Capital, foi apenas simulado, no entanto feito para demonstrar a importância da agilidade do serviço real para salvar vidas.
O comboio saiu do Aeroporto Internacional Salgado Filho, onde já havia um avião aguardando. Na sequência, um helicóptero pousou no local. Duas caixas térmicas contendo os órgãos, retiradas uma de cada aeronave, foram levados para um táxi, que percorreu algumas das principais vias de Porto Alegre e chegou ao Clínicas em cerca de 15 minutos, sendo escoltados por batedores da EPTC ao longo do trajeto.
A ação foi realizada para celebrar o Dia Nacional da Doação de Órgãos, comemorado hoje. “Tudo isso aconteceu porque uma família, no momento de muita dor, teve empatia e solidariedade de fazer uma doação. Então, fica aqui nosso agradecimento a todas as famílias que, nesta hora de angústia, conseguem pensar em ajudar outras pessoas”, disse a enfermeira coordenadora da Captação de Órgãos do HCPA, Fabiane Marek, há 24 anos na função de buscá-los, e que neste sábado conduziu a atividade.
“Costumo dizer que este processo cirúrgico é uma dança, e conhecemos as equipes de outros pontos do Estado, e ganhar tempo é sempre essencial. Compreendemos que o tempo que a família se prepara para aquele luto é muito curto, mas, por outro lado, isto ressignifica a morte de um ente querido, e é um renascimento”, acrescentou Fabiane.
Simulação de escolta de órgãos
O serviço é regulado no âmbito do Rio Grande do Sul pela Central Estadual de Transplantes (CET), vinculada à Secretaria da Saúde (SES), mas, caso seja necessário, um órgão pode ser buscado em outras unidades da federação, como Paraná e inclusive Minas Gerais, como já ocorreu. Porém os times precisam trabalhar contra o relógio, e por isso a integração é fundamental: entre um coração parar de bater em um doador e começar a atuar em um receptor, o tempo é de quatro horas.
A coordenadora geral do Programa de Transplante Cardíaco do HCPA, Nadine Clausell, reforçou que o trabalho na captação é, na realidade, o de uma grande orquestra. “É cada um trabalhando na sua parte para fazer com que isto aconteça, um transplante em um paciente que aguarda, às vezes, meses ou anos, e isso passa pela importância da doação. Acho que é um momento de chamarmos atenção para isso, e o tempo é absolutamente fundamental”, salientou ela. O diretor-presidente da EPTC, Pedro Bisch Neto, não escondeu a emoção.
“Esta escolta é padrão presidencial. Fazemos o mesmo serviço para autoridades, clubes de futebol, artistas em grandes shows, mas aqui é a escolta número um, a mais importante de todas. Aqui é de uma delicadeza absoluta e uma prioridade total, e damos muita atenção para garantir que o serviço fundamental dos médicos seja feito. Fazemos isto com muita satisfação, e é importante que todos saibam que, quando há uma movimentação destas sirenes, é para garantir a exatidão e presteza no serviço”, destacou Neto. Vera Marília da Cunha Schossler, moradora do bairro Humaitá, em Porto Alegre, completou dois anos de transplante de coração no último dia 24, e foi convidada a acompanhar a ação.
“Eu não sabia como era a chegada do órgão. E as pessoas precisam entender que a dor da perda é grande, mas ela ameniza, sabendo que você pode salvar vidas. No meu caso, o coração está aqui dentro, estou viva graças a ele e vou cuidar dele com todo o carinho”, disse ela. Fabiane disse concordar. “Às vezes não valorizamos a vida adequadamente. Quem não precisa do transplante vive de forma independente, o que não acontece com quem está esperando um órgão. Então este processo todo nos faz pensarmos no valor das pequenas coisas”, salientou a enfermeira.