A crescente visibilidade do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em plataformas digitais, como TikTok e Instagram, tem impulsionado a conscientização, mas simultaneamente gera um fenômeno preocupante: a banalização da condição e o aumento do autodiagnóstico.
Estudos publicados em periódicos como o Journal of Autism and Developmental Disorders (Jornal de Autismo e Transtornos do Desenvolvimento, em tradução livre) e revisões sistemáticas, como as de Oluwoye et al. (2020) sobre a disseminação de informações sobre TEA, apontam que o conteúdo fragmentado e sensacionalista das redes pode simplificar excessivamente a complexidade do autismo, focando em "traços" superficiais em detrimento dos critérios diagnósticos formais estabelecidos pelo DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).
Essa simplificação, segundo especialistas em saúde mental, contribui para que indivíduos busquem o autodiagnóstico sem embasamento, desviando a atenção da necessidade de uma avaliação multiprofissional rigorosa - envolvendo neurologistas, psiquiatras e psicólogos.
O paradoxo é que, ao promover estereótipos, essa "cultura do scroll" pode levar ao diagnóstico tardio – ou até mesmo a diagnósticos incorretos – prejudicando o acesso a intervenções precoces e personalizadas que são cruciais para o desenvolvimento e a qualidade de vida, especialmente de adultos e mulheres, cujas características autísticas já são frequentemente mascaradas e subdiagnosticadas.
Autismo e busca por audiência
O psiquiatra e professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Eugenio Horacio Grevet, concorda que embora as redes sociais possam ser úteis para a conscientização, também apresentam o risco de distorcerem autismo. “A busca por audiência pode levar à polemização e à disseminação de informações imprecisas”, alerta.
Ele reforça que estudos mostram que a maioria dos canais sobre neurodesenvolvimento nas redes sociais contêm distorções. “É importante lembrar que o autismo envolve um conjunto de sintomas, incluindo isolamento, dificuldades nas relações sociais, repetição de assuntos e movimentos, e hipersensibilidade a sons”, completa.
Sintomas e sinais de alerta envolvendo autismo
Grevet descreve o autismo como uma condição em que a pessoa está "em si mesma", interiorizada em seu mundo interno. “Essa característica leva à preferência pela solidão e à dificuldade em compartilhar experiências. Para quem observa de fora, pode parecer um monopólio de um ou dois assuntos”, explica.
De acordo com o especialista, em ambientes sociais, esses indivíduos podem ser mais isolados e calados, com dificuldade em entender piadas e em se sentir à vontade em conversas.
“A dificuldade em "ler" os sinais não verbais das outras pessoas – como expressões faciais de cansaço, aprovação ou desaprovação – é uma característica marcante. Essa adversidade impede a regulação da própria conduta com base nas reações alheias”, observa.
Outra característica são os interesses repetitivos e, por vezes, inusitados, como sistemas estelares ou o mundo microscópico, exemplifica o médico. “Esses interesses podem assumir uma proporção enorme na vida do indivíduo, preenchendo-o e proporcionando conforto, mesmo que não haja sofrimento direto por parte do autista. O desconforto, muitas vezes, é percebido pelos familiares devido ao isolamento”.
Quando buscar ajuda?
A busca por um especialista é recomendada quando a pessoa está sofrendo ou causando sofrimento significativo à família. As dificuldades em relação às condições podem se manifestar como obsessividade, rigidez cognitiva e a impossibilidade de flexibilização. A hipersensibilidade a estímulos como barulho e luz também pode gerar angústia e dificuldade de concentração.
Apesar dos riscos que oferece e da banalização sobre o assunto, as redes sociais podem auxiliar nesse momento de decisão em buscar a ajuda apropriada. É o caso da publicitária Lilian de Fraga, de 31 anos. A moradora de Igrejinha, no Vale do Paranhana, foi buscar respostas com profissionais de saúde após a influenciadora da área de design Diana Coe compartilhar a sua jornada de autodescoberta depois de ser diagnosticada com TEA. Foi então que Lilian passou a enxergar a possibilidade.
Para ela, o diagnóstico trouxe um "grande alívio". "Tudo que eu sentia, tudo que eu passava, tinha um motivo e ele não é uma doença, não é algo que possa ser mudado, transformado, mas aceitável mesmo por mim", afirma.
Ela descreve a sensação de tirar um "peso gigantesco" das costas, o que a permitiu ser mais leve e tranquila, com uma redução significativa nas medicações para ansiedade e depressão que já tratava antes.
Característica do TEA na vida adulta
O diagnóstico de autismo, tradicionalmente associado à infância, tem ganhado um novo e importante foco na vida adulta. Grevet destaca que os casos diagnosticados tardiamente geralmente envolvem indivíduos com quadros mais leves, que conseguiram desenvolver certa funcionalidade ao longo da vida. “Em alguns casos, o diagnóstico na vida adulta pode ser uma revisão de um diagnóstico comportamental incorreto feito na infância”, pontua.
Conforme o psiquiatra, o TEA em adultos, muitas vezes, manifesta-se como problemas de relacionamento e um "jeito de ser" particular. Ele explica que essas pessoas frequentemente apresentam disfunções de nível 1, ou seja, sintomas mínimos, ou são ainda mais funcionais. “No entanto, essas características podem gerar questionamentos sobre a validade do diagnóstico devido à sua sutileza”, afirma.
“Cerca de 30% das pessoas com autismo apresentam deficiência intelectual significativa, o que pode dificultar o desenvolvimento escolar e a socialização, exigindo apoio intensivo. No entanto, existe um subgrupo de autistas com inteligência normal ou elevada, e um desenvolvimento da linguagem que pode ser perspicaz e focado em assuntos específicos”, detalha.
“O autismo é um espectro, o que significa que os sintomas variam em grau e intensidade. Não é uma condição categórica como a gravidez, onde se está ou não está grávida”, conclui.
Impacto positivo do diagnóstico tardio
O diagnóstico tardio pode ter um impacto positivo significativo na qualidade de vida. Em vez de ser visto como uma crítica, ele oferece um entendimento de como a mente da pessoa funciona, permitindo o desenvolvimento de estratégias para lidar com desafios. “Muitos autistas são profissionais de alto nível, e o autoconhecimento pode ajudá-los a gerenciar o estresse e a flexibilizar comportamentos”, destaca Grevet.
O professor da Ufrgs enfatiza que a psicoterapia tem se mostrado eficaz, pois os autistas tendem a captar rapidamente as orientações. “Um exemplo é a dificuldade de contato visual, que pode ser amenizada com a simples sugestão de olhar para um ponto específico no rosto do interlocutor, aliviando o desconforto”, observa o especialista.
Apoio e tratamentos recomendados
O primeiro passo após o diagnóstico é a psicoeducação, que envolve o entendimento da condição, seus sintomas e o que não é sintoma. “É crucial diferenciar informações de qualidade na internet de estereótipos e estigmas”, diz Grevet.
Segundo ele, para lidar com a rigidez cognitiva e a pressão de pequenos problemas, é importante que o autista aprenda a "descomprimir", buscando ambientes mais calmos e reduzindo estímulos.
“Muitas pessoas com autismo apresentam comorbidades como TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), depressão e transtornos alimentares. O tratamento dessas condições é fundamental para diminuir o estresse e melhorar a qualidade de vida, podendo envolver o uso de medicamentos como antidepressivos”, explica.
A busca por profissionais capacitados – psiquiatras, psicólogos ou neurologistas – é essencial. A rede pública de saúde também oferece suporte, embora possa haver filas de espera.
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Como lidar com o estigma social e o ambiente de trabalho
Pessoas com autismo podem ter uma sinceridade muito grande, o que pode ser interpretado como "sincericídio" em ambientes sociais e profissionais. É fundamental a pessoa aprender a se proteger e a discernir em quais ambientes é seguro ventilar o diagnóstico.
“Em locais de trabalho mais estruturados, os Recursos Humanos podem auxiliar na explicação das características do autista à equipe, esclarecendo que certas atitudes não são por maldade. Estratégias como o "masking" (adaptação a códigos sociais) podem ser utilizadas, mas é importante que não extrapolem a capacidade do indivíduo”, orienta o psiquiatra.
Grevet cita o exemplo de uma paciente que, para lidar com o barulho de reuniões, utilizava tampões de ouvido discretos. Isto ajudou ela a se sentir mais confortável e tranquila.
Acesso ao diagnóstico e tratamento
No Brasil, o acesso ao diagnóstico e tratamento pode ser feito por meio de convênios, particulares ou pela rede pública. O psiquiatra e professor da Ufrgs alerta que” não existe um "teste" diagnóstico único e caro que seja mais eficaz do que a avaliação de um especialista. A observação das características, a conversa com o profissional e a reação do paciente durante a consulta são fundamentais”.
Programas como o TEAcolhe, no Rio Grande do Sul, buscam facilitar o acesso a profissionais e a um diagnóstico apropriado. Além disso, grupos de pesquisa em universidades e fundações oferecem atendimento a baixo custo. “A persistência é uma característica importante para quem busca atendimento no sistema público”, pontua.
Em suma, o diagnóstico tardio de autismo em adultos é um campo em expansão, oferecendo a oportunidade de autoconhecimento, desenvolvimento de estratégias e melhoria da qualidade de vida, desde que seja abordado com seriedade e com o apoio de profissionais qualificados.