Saúde

Consumo normal e dúvidas sobre procedência: setor de bebidas no RS reage após contaminações por metanol no Brasil

Abrasel-RS destaca que Estado ainda não possui nenhum caso suspeito de intoxicação e dá dicas para consumidores sobre como identificar procedência

São Paulo, Distrito Federal, Bahia e Pernambuco registraram casos suspeitos de contaminação por metanol após ingestão de bebidas alcóolicas destiladas adulteradas
São Paulo, Distrito Federal, Bahia e Pernambuco registraram casos suspeitos de contaminação por metanol após ingestão de bebidas alcóolicas destiladas adulteradas Foto : Marcello Casal Jr/Agência Brasil/CP

Mesmo sem nenhuma suspeita até o momento de contaminação por metanol após ingestão de bebidas alcoólicas destiladas no Rio Grande do Sul, as mais de 60 notificações de suspeita de intoxicação pela substância no Brasil já começam a refletir no setor gaúcho de bebidas, bares e restaurantes. Até o momento, foram confirmados casos em São Paulo, com suspeitas também em Pernambuco, Distrito Federal e Bahia.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes Seccional RS (Abrasel-RS), Leonardo Dorneles, aponta que ainda não há registro de queda no consumo de drinks e bebidas em estabelecimentos gaúchos. Entretanto, ele destaca que há relatos de questionamentos por parte de consumidores em bares e restaurantes sobre a procedência da bebida comercializada após a onda de casos de intoxicação em outros estados, principalmente em SP.

“Isso já está chegando na ponta, mas de fato ainda não reduziram as vendas. O pessoal da procedência, alguns até em tom de brincadeira, mas continua bebendo seu drink e sua bebida nos estabelecimentos daqui. Por isso, ficamos felizes que os consumidores estão sabendo diferenciar o joio do trigo. Os estabelecimentos que trabalham dentro das regras, com produtos de procedência e marcas fortes atreladas à qualidade, seguirão não tendo problemas”, reforçou.

Dorneles também cita a atuação ativa da fiscalização, através da Vigilância Sanitária, como forma de garantir que o RS siga sem casos suspeitos. “Recentemente, acompanhamos em Porto Alegre e em outras cidades a atuação ativa da vigilância, inclusive com interdições. Eles não fiscalizam apenas os alimentos, mas as bebidas também. Caso eventualmente alguém operasse com bebidas sem procedência, com certeza, quando começaram as fiscalizações, tiveram de se adequar. Se eu for sair hoje, vou tomar minha bebida pois tenho confiança nos estabelecimentos”, completou.

Na quinta-feira, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, alertou para que a população evite consumir bebidas destiladas sem origem comprovada. “Recomendo na condição de ministro da Saúde, mas também como médico: evite, neste momento, ingerir um produto destilado, sobretudo os incolores, que você não tem a absoluta certeza da origem. É um produto que é objeto de lazer. Não faz problema nenhum na vida de ninguém evitar o consumo”, afirmou o ministro.

Já o presidente da Abrasel-RS ressalta que a maioria dos casos suspeitos até o momento não estão relacionados com o consumo de bebidas em bares e restaurantes. “Os casos são de pessoas que compraram bebidas em pequenas lojinhas, ambulantes ou pessoas informais. Quem adquire em situações assim que estão mais sujeitos à possibilidade de consumir uma bebida adulterada. Em via de regra, o estabelecimento devidamente legal, que opera dentro das normas, vai comprar de um distribuidor reconhecido. Por isso eu tenho muita tranquilidade aqui no RS”, completou Dorneles.

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Educação para o vendedor e para o consumidor

Por isso, a Abrasel-RS tem promovido desde o início da semana uma série de treinamentos gratuitos, online e abertos ao público em geral, com foco no empresário do ramo de bares e restaurantes e do público consumidor. Apenas nos primeiros dois dias, Dorneles cita que cerca de 10 mil pessoas participaram dos cursos, com dicas de como identificar uma garrafa adulterada e também de como descartar uma garrafa corretamente, entre outras orientações práticas.

“É importante registrar que, em primeiro lugar, os falsificadores utilizam garrafas originais dessas bebidas sofisticadas. Então temos que ter um cuidado no descarte dessa embalagem. A orientação é não apenas colocá-la no lixo, mas tentar quebrá-la ou fazer alguma ranhura na tampa ou no vidro para que ela não venha a ser reaproveitada pelos falsificadores. Além disso, ao comprarmos, é importante verificar a qualidade do lacre de papel da Receita Federal que tem em cima da tampa. Se estiver um pouco borrado ou não ter todos os detalhes, desconfie”, citou.

Manifestações de empreendimentos no RS

Ao longo da semana, com os desdobramentos das investigações e aumento no número de casos suspeitos em outros estados, muitos estabelecimentos gaúchos do ramo de bares, restaurantes, alimentos e bebidas têm se manifestado reforçando a procedência dos produtos utilizados, assim como adotando medidas para reduzir ainda mais o risco de contaminação por metanol no RS.

Um destes exemplos está no bar Mondo Cane, da Cidade Baixa, que divulgou uma nota explicando que as marcas com as quais trabalha não foram afetadas. Além disso, a manifestação cita ainda que a empresa está buscando alternativas viáveis para produtos destilados produzidos ou engarrafados em SP ou em Pernambuco, utilizando apenas as garrafas dos lotes já utilizados.

Outro exemplo é da empresa George Foods, do bairro Humaitá, que iniciou nos últimos meses a produção de licores artesanais e divulgou em suas redes sociais algumas orientações para seus clientes. O proprietário da marca e consultor para a área de alimentos e bebidas há mais de três décadas, Alexandre Fantinel, reforça a importância do consumidor em ter marcas de confiança.

“No processo de fabricação, quando tu produz um álcool que nós chamamos de potável, tu tem um tipo de processo industrial, que é diferente de quando tu faz um álcool grosseiro. Essa denominação de álcool potável já define que é o produto para aplicar em bebidas. O ponto agora é confiar na marca e identificar situações que possam gerar desconfiança, como o valor do produto e a procedência. Pelo que acompanhei, os casos são de pessoas que compraram em comércio informal. Quem produz uma bebida adulterada não consegue entrar em um supermercado. Então tem todas essas nuances que o consumidor precisa ter”, finalizou.

Procurada, a Vigilância Sanitária de Porto Alegre, através da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), informou que não se pronunciará sobre o assunto no momento por não ter casos registrados ou investigações em cursos na Capital. Entretanto, a pasta ressalta que tem emitido para toda a rede a nota técnica do Ministério da Saúde com orientações para atendimento e notificação em caso de intoxicação por metanol, com o objetivo de preparar e atentar a saúde de Porto Alegre para a situação.