Saúde

Doação de órgãos: confiança e diálogo são essenciais para a tomada de decisão, aponta superintendente-geral da Unimed

Cooperativa promove, em setembro, uma campanha para estimular a importância de conversar com familiares sobre o tema

Tema foi discutido em roda de conversa na Cinemateca Capitólio nesta quarta-feira
Tema foi discutido em roda de conversa na Cinemateca Capitólio nesta quarta-feira Foto : Ricardo Giusti

Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), em 2024, a alta taxa de recusa familiar para doação de órgãos no Brasil chegou a cerca de 45%, ou seja, quase metade dos potenciais doadores não se torna efetiva por falta de autorização dos familiares. Especialistas afirmam que a falta de confiança dos familiares e do acesso à informação são os principais entraves para o aceite de doação.

Marcelo Hartmann, superintendente-geral da Unimed Porto Alegre, destaca a importância de estimular o diálogo dentro de casa. Ele lembrou que falar de morte não é um assunto agradável, mas é necessário. "No momento da morte, quem vai definir, decidir, dizer o sim é alguém por nós", afirmou. O médico lembrou que o Rio Grande do Sul passou por duas crises difíceis para o transplante: na pandemia, com uma escassez de quase dois anos e com perda de pacientes aguardando um órgão e, depois, durante o período das enchentes.

O médico discutiu sobre o assunto em uma roda de conversa na Cinemateca Capitólio, nesta quarta-feira, junto com Juliano Pretto, cirurgião transplantador de córnea e idealizador da campanha de doação de órgãos da Unimed Porto Alegre e duas mulheres transplantadas – Liége Gauterio, de pulmão e Clarissa Auler, de coração.

Ainda que o Brasil seja o segundo país com maior número absoluto de transplantes no Brasil, Hartmann trouxe que alguns estados da federação registraram no primeiro trimestre deste ano índices acima de 80% de recusa familiar, em regiões que estão diretamente relacionadas ao menor nível de desenvolvimento.

Nessa questão, o Brasil tem diferentes realidades, e em algumas regiões do país a questão é educacional e o nível de desenvolvimento socioeconômico tem grandes impactos, afirmou o médico. A falta de informação, principalmente relacionada à morte encefálica, é outro desafio que leva à falta de confiança da família no momento da decisão, aponta.

"É necessário que se esclareça muito bem e que as pessoas tenham confiança nesse diagnóstico, que é um diagnóstico de certeza, que não tem possibilidade de reversão. Nossa cultura associa muito a morte com a parada do coração, e na verdade não é isso", pontuou.

O preparo das equipes assistenciais que atendem ao paciente também têm influência para aumentar o vínculo de confiança, lembra Hartmann. "Pode facilitar esse trabalho de uma abordagem, de uma comissão interhospitalar, que é totalmente desconhecida para aquela família. E isso aumenta o nível de confiança", disse.

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Nova vida

Clarissa Abbadie Auler, transplantada de coração depois de 6 anos, trouxe sua experiência para o debate e ressaltou a importância do diálogo com familiares. Ela tem uma “nova vida” desde agosto de 2019.

Em 2018, ela foi diagnosticada com insuficiência cardíaca, sem causa definida. Ao sentir algo diferente no pulmão, com histórico de bronquite asmática, foi atrás de pneumologista, e até achou que pudesse estar grávida. "Nunca imaginei que ia ser alguma coisa relacionada ao coração", disse. Ela, que sempre fazia exercícios físicos e alimentava-se bem, tentava entender o que poderia ter feito de errado.

"Hoje eu vejo que eu consigo de alguma forma dar voz a essas pessoas, que muitas vezes não conseguem estar aqui, falando das suas histórias e contando as suas experiências", afirmou.

Como um movimento para conscientização para estimular o diálogo sobre o tema, neste mês, a Unimed Porto Alegre está renovando a campanha Seja um InfluenciaDoador, convidando a população a se engajar na causa e reforçando a necessidade de conscientização da sociedade, estimulando o diálogo sobre o tema. O movimento busca desmistificar conceitos e colaborar com a conversa sobre o assunto e a autodeclaração como doador.