Esteroides anabolizantes para fins estéticos são tema de fórum do Cremers

Esteroides anabolizantes para fins estéticos são tema de fórum do Cremers

Considerado um problema de saúde pública, evento com especialistas da área abordou o uso indevido desses produtos

Guilherme Sperafico

Encontro contou com a palestra do doutor em Endocrinologia Clínica e professor da Unifesp, Clayton Macedo

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O Auditório do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers), recebeu nesta segunda-feira o fórum “Esteroides anabolizantes para fins estéticos: um problema de saúde pública”. O evento, organizado pelo Cremers, reuniu especialistas e autoridades para discutir os riscos e consequências do uso indevido destas substâncias.

O encontro contou com a palestra do doutor em Endocrinologia Clínica e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Clayton Macedo. Ele destacou que o uso indiscriminado de esteroides anabolizantes tem se tornado uma preocupação crescente no contexto da busca pelo ‘corpo perfeito’. “Os hormônios são reservados para indicações éticas e científicas, principalmente para quem tem deficiência hormonal ou em situações específicas. Os danos são muito maiores que qualquer ganho, prejudicando cérebro, coração, rins, fígado, fertilidade e função hormonal, além de causar infecções e lesões musculares”, afirmou.

Segundo Macedo, aproximadamente 3,3% da população geral usa esteroides anabolizantes. Esse número sobe para 30% entre frequentadores de academias e ultrapassa 90% entre fisiculturistas. "É tudo muito underground. A gente não tem as notificações das complicações, e muitos pacientes pedem para ficar no anonimato por medo de se expor", explicou.

O presidente do Cremers, Eduardo Neubarth Trindade, também ressaltou a importância do evento para a sociedade. “Estamos vendo um uso abusivo de substâncias proibidas, que acarretam graves sequelas à saúde. Muitas vezes, as pessoas buscam atalhos para atingir o corpo perfeito, mas isso gera sequelas nefastas em curto espaço de tempo”, disse Trindade.

Ao final do fórum, foi lançada a Carta de Porto Alegre, um documento alertando sobre os riscos do uso de esteroides anabolizantes e propondo medidas para combater esse problema de saúde pública. "O intuito principal dessa carta é alertar a sociedade e buscar apoio de instituições como o Ministério Público para coibir o uso abusivo de esteroides. As pessoas precisam entender os malefícios a longo prazo dessas substâncias", concluiu Trindade.

O evento contou com o apoio da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM/RS), Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Serviço de Endocrinologia do HCPA, Faculdade de Medicina da UFRGS e Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

Carta de Porto Alegre

Assinada por diversas entidades, ao final do evento os participantes assinaram a “Carta de Porto Alegre”, que alerta sobre o uso de esteroides anabolizantes e similares para fins de estética, performance e antienvelhecimento como um grave problema de saúde pública

Confira o documento na íntegra:

O uso de esteroides anabolizantes e similares (EAS) para fins estéticos, recreativos, de rendimento esportivo ou antienvelhecimento tornou-se um grave problema de saúde pública. O Fórum sobre Esteroides Anabolizantes, promovido pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul, com apoio das Sociedades de Endocrinologia e Metabologia, Urologia, Ginecologia e Obstetrícia, Diabetes, Obesidade e Síndrome Metabólica, Cardiologia, Psiquiatria e Dermatologia do RS, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do Serviço de Endocrinologia e Metabologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, congregou diversas entidades representativas da sociedade e abordou o tema com ampla participação da ciência, do esporte, da comunidade e do Estado na discussão das evidências científicas e na proposição de ações para:

  • Minimizar o uso indevido de esteroides anabolizantes e similares;

  • Esclarecer a população acerca da utilização e dos riscos que representam;
  • Acolher e reabilitar os usuários;
  • Preservar as indicações éticas para o uso terapêutico de hormônios.

Considerando que:

  1. A Resolução CFM 2333/2023 veda ao médico o uso de terapias hormonais com a finalidade de retardar, modular ou prevenir o envelhecimento (anti-aging), e melhorar a performance, a potência ou a composição corporal por razões estéticas.
  2. O Código de Ética Médica veda ao médico divulgar informações sobre temas de saúde de forma sensacionalista, promocional ou contendo conteúdo inverídico.
  3. Há farta evidência, elencada em diretrizes e posicionamentos de sociedades científicas nacionais e internacionais, de que indicar hormônios anabolizantes para fins estéticos e esportivos não é seguro, bem como oferece riscos importantes, muitas vezes não monitoráveis.
  4. Existem riscos quando doses inadequadas de hormônios são empregadas. Mesmo em doses terapêuticas, se uma deficiência hormonal não foi corretamente diagnosticada antes da instituição do tratamento, há potencial de dano ao paciente, muitas vezes de caráter irreversível.
  5. Mesmo com acompanhamento médico e realização de exames laboratoriais periódicos, o uso de esteroides anabolizantes e similares, fora das indicações terapêuticas aprovadas, acarreta grande risco de complicações graves.
  6. Os Códigos de Conduta Ética do Comitê Olímpico Brasileiro e do Comitê Olímpico Internacional vedam o uso de substâncias para melhoria do desempenho físico na prática esportiva.
  7. O Conselho Federal de Medicina veda a promoção de “especialidades médicas” não reconhecidas, como “hormonologia” e “medicina funcional integrativa”, ou procedimentos de “modulação hormonal” e “soroterapias” indevidas.
  8. Estão proibidos, no Brasil, cursos de “extensão”, “educação continuada” e “pós-graduação” sobre terapias hormonais voltadas à estética, ao antienvelhecimento e ao ganho de desempenho esportivo com objetivos meramente comerciais.
  9. As mídias sociais servem de plataforma de difusão crescente de terapias não comprovadas e potencialmente danosas sem que haja um crivo, induzindo as pessoas à crença de que são desejáveis, seguras e eficazes.
  10. O direito à livre manifestação e opinião não deve ser abusado quando estiver em jogo a segurança individual e coletiva.

Esta carta aberta é dirigida à população, à imprensa e a todos os atores da sociedade organizada (Conselhos, Associações e Sociedades), em especial aos Governos e seus organismos relacionados à segurança, aos esportes e à saúde.

Clamamos por ações efetivas que intensifiquem projetos de educação, e apelamos para todas instituições e entidades envolvidas no sentido de que se manifestem oficialmente.

São necessários, com premência:

  • A regulamentação e a fiscalização imediata da fabricação, da comercialização e da prescrição de hormônios e similares, sobretudo implantes hormonais manufaturados (com exceção de produtos devidamente aprovados e regulados pela Anvisa, com finalidade única de anticoncepção). Conclamamos especificamente o órgão competente, a Anvisa, a se manifestar oficialmente sobre o tema.
  • Atenção especial para a prescrição e o uso sem indicação ética ou científica de hormônios em jovens atletas na tentativa de maximizar artificialmente a estatura, a força e o rendimento atlético, expondo a saúde a riscos em uma fase crucial e determinante do desenvolvimento saudável.
  • A responsabilização solidária das redes sociais quanto à apologia e à divulgação de práticas não aprovadas e deletérias de prescrição indevida de hormônios.
  • A revisão urgente dos critérios do Ministério da Educação para a chancela de cursos que tentam ensinar, divulgar e propagar práticas não respaldadas cientificamente, relacionadas ao uso de hormônios, como assunto de interesse público.
  • A atuação decisiva e urgente do Ministério Público, dos Procons e das Polícias, entre outros órgãos de segurança pública, para coibir os crimes de contrabando e comércio irregular de hormônios, em defesa do direito do cidadão à proteção da saúde e em defesa do direito do consumidor de não ser submetido a práticas enganosas e desleais.

Conclamamos os órgãos de imprensa, geradores de conteúdo e influenciadores para que divulguem amplamente este documento como forma de proteger a população.

Juntos, podemos melhorar esse grave cenário e impedir que maus profissionais continuem a promover práticas irregulares e danosas. Podemos e devemos proteger a saúde individual e coletiva contra o mau uso de hormônios, sempre garantindo acesso, acolhimento e acompanhamento para quem realmente precisa utilizar essas substâncias por doenças específicas ou terapia de retirada (ou desmame) para quem deve suspender o uso dessas drogas.

Que não se dê mais guarida a profissionais não habilitados, incluindo todos aqueles cujas práticas são enganosas, irregulares, potencialmente danosas e que estão pondo em risco a saúde e afrontando os interesses da população.


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