Saúde

Evento promove discussão e fortalece prevenção à Doença Renal Crônica

Palestra conduzida por médico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre traz dados sobre o cenário da complicação no Brasil e no mundo, com reflexões sobre os desafios do diagnóstico e tratamento na saúde pública

Dr. Fernando Saldanha Thomé, médico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, falou sobre os principais desafios da DRC para a saúde pública
Dr. Fernando Saldanha Thomé, médico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, falou sobre os principais desafios da DRC para a saúde pública Foto : Mauro Schaefer

A Doença Renal Crônica (DRC) afeta milhões de brasileiros e pode evoluir silenciosamente, levando a complicações graves. A soma de incompreensão e desconhecimento, das consequências para a saúde, dos desafios para o tratamento e da escassez de assistência gera uma “tempestade perfeita”. Quem traz a expressão é o Dr. Fernando Saldanha Thomé, médico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, que falou sobre os principais desafios da DRC para a saúde pública na palestra ”Doença Renal Crônica”, ocorrida nesta segunda-feira, dia 24, na Sala Adão Pretto da Assembleia Legislativa do RS.

Promovido pelo Rotary Porto Alegre Centenário, o evento contou com um público majoritário de médicos e entidades representativas do setor da saúde, da nefrologia, de hospitais e entidades filantrópicas. Houve, também, a presença do deputado estadual Delegado Zucco (Republicanos), um dos realizadores, que defendeu o diálogo e a busca de soluções para o problema do atendimento doença.

Referência nacional em nefrologia, Thomé reforçou o objetivo de demonstrar à sociedade os problemas da DRC – que é desconhecida até mesmo entre médicos, e da importância de divulgar o sofrimento dos doentes renais e focar na prevenção. “A população, os gestores e administradores de hospitais não sabem do que a Doença Renal Crônica se trata e ela vai sendo relegada, esquecida, e isso traz consequências para os pacientes, que são submetidos a sofrimentos e certas dificuldades.”

“Uma incompreensão desconhecimento tem gerado por parte de autoridades, gestores de hospital e convênios porque ninguém entende muito a complexidade do tratamento da doença renal. Ela tem consequência sombrias, é uma doença incurável, é assintomática e o paciente tem um alto custo. Por isso estamos encaminhando para uma escassez de assistência”, diz Dr. Fernando Thomé

Thomé trouxe o exemplo de uma paciente mulher de 42 anos, que, em 2018, teve um quadro infeccioso, buscou posto de saúde e foi diagnosticada com diabetes e hipertensão. Carregando sequelas e histórico de diabetes, diversas oportunidades foram perdidas para que a paciente tivesse um atendimento adequado e prevenção. Sem saber dos seus diagnósticos, ela teve complicações e precisou fazer hemodiálise. Após, continuou tendo problemas e não foi encaminhada adequadamente para fazer a prevenção. Anos depois, evoluiu para uma infecção na corrente sanguínea e nas válvulas do coração, exigindo uma cirurgia cardíaca, seguido de artrite, complicações na coluna e incapacidade motora. Além de todo o sofrimento, a falta de atenção para os sintomas e a doença gerou custos. “Essa é a rotina de muitos hospitais terciários que recebem pacientes com dificuldade de tratamento em suas cidades e acaba tendo uma cascata de complicações e gera custo e sofrimento”, lembra Thomé.

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O que é a Doença Renal Crônica

A DRC é uma doença difusa que afeta os dois rins. Um rim saudável, por exemplo, filtra 180 litros por dia. Quando sofrem agressões ao longo da vida, geram fibrose e o risco de perder a função renal. Essa situação pode ser causada por muitas doenças, mas as principais são diabete e hipertensão. O diagnóstico deve ser simples e barato: para dosar a creatinina no exame de sangue e proteína na urina, o custo estimado é de R$ 20. Mas não tem sido feito rotineiramente pela população.

Quando não diagnosticada cedo, há consequências: aumento do risco cardiovascular, com doenças cardíacas como o Acidente Vascular Cerebral (AVC), que estão associadas a doença renal crônica. Muitos médicos, em um primeiro momento, pensam em controlar o colesterol, sendo que o problema está na creatinina.

O desenvolvimento da doença aumenta as taxas de internação hospitalar, gerando custos. Não é à toa que ela é a responsável pelo grande número de internação em emergências, e com maior risco cirúrgico. Os casos aumentam a morbidade em geral – como câncer e demais infecções, ou uma proporção que evolui para a insuficiência renal avançada, com a necessidade de diálise ou transplante.

No mundo, a prevalência de casos ativos vem aumentando ano a ano, progressivamente. Dados do Global Burden of Disease (GBD), apresentados na palestra, mostram que, no Brasil, atualmente é de 18,8 milhões de pessoas – 9% da população. Já no Rio Grande do Sul, 10% – alcançando 1 milhão de pessoas. Mas essas incidências de novos casos anuais vêm aumentando concomitantemente no Brasil e no mundo, e o indicador significa anos perdidos por morte e incapacidade, atesta Thomé. Para piorar, fatores de risco relacionados à doença, como hipertensão, diabetes e obesidade não vêm reduzindo.

Dados do Global Burden of Disease também fez uma estimativa que prevê que a doença renal crônica é atualmente a 16ª causa de anos de vida perdidos; em 2040, se tornará a quinta no mundo inteiro. “Ou seja, está rivalizando com outras doenças, como doença cardíaca pulmonar e Alzheimer. A incidência da incapacidade da doença renal crônica vai aumentar os fatores de risco”, projeta Thomé, reforçando a necessidade de olhar com maior atenção para a doença, a importância do diagnóstico precoce e do tratamento adequado para evitar a sua progressão.