Saúde

Fiocruz identifica nova variante da Influenza A (H3N2) pela primeira vez no Brasil

O caso foi classificado como importado, já que se trata uma paciente do sexo feminino, adulta e estrangeira, oriunda das ilhas Fiji

O laboratório da Fiocruz atua como referência nacional para o Ministério da Saúde e internacional para a Organização Mundial da Saúde (OMS)
O laboratório da Fiocruz atua como referência nacional para o Ministério da Saúde e internacional para a Organização Mundial da Saúde (OMS) Foto : Fernando Frazão/Agência Brasil

Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificaram, de forma inédita em território nacional, o novo subclado K do vírus Influenza A (H3N2). A variante genética, que já vinha sendo monitorada por autoridades de saúde internacionais, foi detectada em uma amostra coletada em Belém do Pará, na região Norte do país. O caso envolve uma paciente adulta, do sexo feminino e de nacionalidade estrangeira, proveniente das Ilhas Fiji. Devido ao histórico de viagem da paciente, o caso foi classificado pelas autoridades como importado.

O H3N2 é um dos principais agentes causadores da gripe comum (influenza), e o acompanhamento de suas mutações é fundamental para a atualização de vacinas e estratégias de controle epidemiológico.

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Análise

Inicialmente, o material passou por análise no Laboratório Central do Estado do Pará (Lacen-PA). Após a confirmação de que se tratava de um vírus Influenza A (H3N2), a amostra foi enviada para o Rio de Janeiro para um estudo genético mais aprofundado.

O Papel do Sequenciamento Genético

A caracterização detalhada da linhagem foi realizada pelo Laboratório de Vírus Respiratórios, Exantemáticos, Enterovírus e Emergências Virais do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). Utilizando técnicas avançadas de sequenciamento genético, os especialistas confirmaram a presença do subclado K.

O laboratório da Fiocruz atua como referência nacional para o Ministério da Saúde e internacional para a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

Vigilância Epidemiológica e Prevenção

Até o momento, não há evidências de transmissão local desta nova linhagem no Brasil. Os resultados foram compartilhados imediatamente com a rede nacional de vigilância de vírus respiratórios, um dos pilares de resposta rápida do Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo Valnete Andrade, diretora técnica do Lacen-PA, o monitoramento de viajantes é uma peça-chave para a segurança sanitária nacional. "A vigilância de patógenos que podem se propagar a partir de viajantes é uma ferramenta estratégica. Esse monitoramento contribui para a detecção oportuna de vírus emergentes e para a adoção de medidas que evitem a disseminação no país", pontuou.

Atenção na Europa

A detecção no Brasil do subclado K, também identificado como J.2.4.1, ocorre em um cenário de maior atenção internacional ao influenza A. Em dezembro, a OMS alertou para o aumento da circulação do vírus em diferentes países, especialmente no Hemisfério Norte, onde a chegada do inverno favorece a disseminação de infecções respiratórias. Na Europa, alguns países registraram início antecipado da temporada de gripe, com predomínio do H3N2 e aumento da identificação do subclado K em amostras analisadas.

A virologista Marilda Siqueira, chefe Laboratório de Vírus Respiratórios, Exantemáticos, Enterovírus e Emergências Virais do IOC, explica que no Brasil a circulação atual do influenza A não está relacionada ao subclado K. “Estamos observando, em diferentes estados, um pico secundário de influenza H3 neste final de ano, mas o clado associado a esse aumento não é o K. O que tem circulado aqui é o clado J.2.3”, frisa.

Esse cenário reforça que, até o momento, não há indícios de que o subclado K esteja impulsionando o aumento de casos no país, embora a vigilância permaneça intensificada diante da possibilidade de novas introduções e disseminação interna. “A gravidade da infecção, como em outros casos de gripe, está relacionada à presença de fatores de risco individuais, como idade avançada, gestação e comorbidades, e, ainda, à falta de anticorpos contra o vírus influenza”, comenta a pesquisadora Paola Resende, do mesmo laboratório.

As especialistas ressaltam que a vacinação contra influenza segue sendo uma ferramenta fundamental de proteção, especialmente para reduzir hospitalizações e casos graves da doença. “A composição da vacina de influenza recomendada pela Organização Mundial de Saúde foi atualizada em setembro para o próximo ano, com cepas mais próximas dos clados atualmente em circulação, incluindo o subclado K”, salienta Marilda. “É fundamental se vacinar. O Ministério da Saúde realiza intensa campanha de vacinação todos os anos. E, mesmo para quem não se vacinou durante a última campanha, vale ir até o posto de saúde mais próximo e solicitar a imunização”, complementa Paola.

Além da vacinação, as pesquisadoras reforçam medidas básicas de prevenção, como higienização frequente das mãos, evitar contato próximo com outras pessoas quando houver sintomas respiratórios, além de procurar atendimento médico o mais breve possível, em especial, em caso de febre, e usar máscara de proteção para cobrir boca e nariz.

Para os serviços de saúde, a principal recomendação é o fortalecimento contínuo da vigilância epidemiológica, laboratorial e genômica. “A rede global de vigilância de vírus respiratórios, da qual o nosso laboratório faz parte, é essencial para detectar precocemente a introdução de novos clados e para subsidiar a atualização periódica das vacinas”, diz Marilda.

A identificação do subclado K no Brasil representa a capacidade do sistema de vigilância em detectar precocemente a introdução de novas variantes. “Do ponto de vista da vigilância, esse achado mostra a sensibilidade e robustez do nosso sistema de monitoramento. Conseguimos identificar precocemente a possível introdução do subclado K, que, até o momento, foi detectado em apenas um indivíduo, caracterizando um caso pontual”, finaliza Paola.