A crise na saúde ocupou o centro das discussões no evento "Tá na Mesa" da Federasul desta quarta-feira. Com o tema "Os desafios da saúde pública gaúcha: financiamento cruzado entre SUS e Planos de Saúde", líderes como Julio Flávio Dornelles de Matos, diretor-geral da Santa Casa de Porto Alegre, Luciney Bohrer, administrador do Hospital de Clínicas de Passo Fundo, Rogério Pontes Andrade, diretor administrativo-financeiro do Hospital São Lucas da PUCRS, e Jocélio Cunha, presidente do Hospital de Clínicas de Carazinho, destacaram as dificuldades e preocupações enfrentadas no setor.
Eles alertaram para uma crise já prevista na saúde do Rio Grande do Sul, ressaltando a necessidade urgente de intervenção do Estado, políticas públicas a longo prazo, reorganização nos repasses de valores e aumento da tabela do Sistema Único de Saúde (SUS) para evitar uma escalada ainda maior da crise.
O coordenador do grupo de trabalho da saúde da Federasul, Luciano Zuffo, ressaltou a importância da discussão do trabalho dos hospitais filantrópicos no Estado e a situação crítica enfrentadas por eles. Zuffo apresentou uma pesquisa realizada pela federação em 173 empresas – 51% serviços 31% comércio 17% indústria – e que mostra que 63% das empresas não possuem plano de saúde para os funcionários e 72% não possuem medidas de promoção e prevenção da saúde.
Os dados apresentados mostraram que o financiamento do SUS no Brasil é de R$ 538,7 bilhões. Esse valor está dividido em 28,5% oriundos da União, 28,5 dos Estados e 43,1% dos municípios. Dos recursos do SUS vindos do Estado são R$ 13,6 bilhões, sendo que 49,6% é destinado a assistência hospitalar e ambulatorial, 37,8% para a atenção básica e 12,6% outros serviços. No Estado são 3,598 milhões de beneficiários de planos de saúde, sendo 27,2% do IPE, 17,3% da Unimed Porto Alegre, 24,3% da Unimed estadual, 24,3% da Unimed federação e 31,1% de outros planos.
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Crise era esperada
O diretor-geral da Santa Casa, Julio de Matos, afirmou que a crise imposta é uma realidade prevista há anos e agravada recentemente pela situação do Instituto Cardiologia e, consequentemente, com a redução do atendimento nos hospitais da região Metropolitana. "As demandas não encontraram acesso e a sobrecarga veio para Porto Alegre", explica. De acordo com Matos, em 2023 a Santa Casa atendeu pacientes de 491 dos 497 municípios.
Matos afirmou que os hospitais estão no limite das suas estruturas assistenciais. E é necessário que se reveja a situação no entorno de Porto Alegre, que também está atendendo na sua capacidade máxima.
Ele ressaltou, ainda, que o hospital é a última instância e que as ações devem começar na base, na atenção primária e nas linhas de cuidados para o processo assistencial. Ele considera que há necessidade de uma intervenção do Estado e uma política pública a longo prazo. O diretor-geral da Santa Casa observa que desde o nascimento do SUS, há 30 anos, as políticas públicas são descontinuadas e “para dar certo é necessário um projeto de saúde de estado, não de governo”.
O presidente do Hospital de Clínicas de Carazinho, Jocélio Cunha considerou que o problema e as dificuldades são os mesmos em todos os hospitais. Ele pontuou que o atendimento SUS no município passou dos 80% e que o déficit gerado no ano passado foi de R$ 17 milhões. “Estamos indo para uma situação complexa e que se agrava com a situação do IPE Saúde”.
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Financiamento em xeque
Para o administrador do Hospital de Clínicas de Passo Fundo, Luciney Bohrer, o grande agravante na crise da saúde é o autofinanciamento dos hospitais filantrópicos do Estado. Ele revelou que 127 hospitais filantrópicos do Rio Grande do Sul devem aos bancos o montante de R$ 1,6 bilhão e são responsáveis por mais de 80% dos atendimentos no Estado.
Bohrer considera que o agravamento da crise também é consequência do fechamento de mais de 80 hospitais nos últimos anos. O administrador ainda faz um alerta sobre o possível aumento da demanda no SUS devido a atual situação do IPE Saúde. “Precisamos nos preparar para as pessoas que vão deixar o IPE e ir para a fila do SUS”, destacou Bohrer.
Na conclusão de sua fala Bohrer fez um apelo aos agentes públicos e empresários para que a rede filantrópica do Estado seja preservada. “Esses são realmente quem estão na ponta salvando a população gaúcha”, afirmou.
O diretor administrativo-financeiro do Hospital São Lucas da PUCRS,Rogério Pontes Andrade destacou que o maior número de atendimento nas emergências da capital são de classificação grave e que o quadro epidemiológico e a situação atual de gestão da saúde pressionam para uma mudança urgente. Ele acredita que um dos grandes problemas dos hospitais filantrópicos é a busca por outras fontes de recursos para viabilizar o déficit do SUS.
Andrade lembrou que o atendimento na PUCRS é 60% SUS e 40% planos de saúde e que o atendimento na área de cardiologia praticamente dobrou, além dos atendimentos das doenças neurológicas e cardiovasculares.