Atendimentos sobrecarregados, equipes médicas insuficientes para a demanda, casos que poderiam ser resolvidos na rede básica e até relatos de violência com profissionais foram registrados em hospitais e unidades de pronto atendimento de Porto Alegre pelo Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) após realizar vistoria nas emergências nesta sexta-feira, dia 23. Diante de um cenário emergencial por conta da superlotação diária em todas as unidades e pelo aumento de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag), que levou a prefeitura de Porto Alegre e o governo do Estado decretarem situação de emergência, as unidades de saúde estão em estado crítico e vivem “colapso silencioso”, aponta o sindicato.
“Encontramos superlotação e condições de precarização no atendimento aos pacientes em algumas unidades, muitos deles aguardando nos corredores há dias, por leitos. Conversamos com os médicos e agora, após os relatos, estamos elaborando um relatório com as condições de trabalho e melhorias que devem ser feitas no sistema de saúde”, relatou o vice-presidente do Simers, Felipe Vasconcelos, que coordenou a ação. Ele acrescenta que a superlotação registrada no Estado também impacta e agrava a situação de Porto Alegre. O hospital reforça que a rede hospitalar de Porto Alegre opera em níveis “alarmantes”, com instituições excedendo a capacidade máxima.
Cinco equipes saíram da sede da entidade médica e percorreram nove hospitais e quatro unidades de pronto atendimento de saúde da Capital para verificar as condições de trabalho dos médicos e de atendimento à população, além de observar se há falta de medicamentos, equipamentos médicos, produtos descartáveis e Equipamentos de Proteção Individual. Também, as condições de trabalho das equipes médicas, além da segurança e situação de violência.
O Simers vai elaborar um relatório com o que foi encontrado, que será entregue para os governos municipal e estadual para solicitar providências. Confira, abaixo, o balanço do Sindicato sobre os hospitais e unidades de pronto atendimentos vistoriados:
Hospitais
O Hospital São Lucas da PUCRS registrou a maior ocupação de todos os hospitais da Capital: 300% de superlotação. Segundo funcionários, é comum que os pacientes desistam da espera. Atualmente, o hospital não tem mais atendimento SUS para saúde da mulher, como obstetrícia, pediatria e psiquiatria. São 10 leitos clínicos e dois de UTI, e naquela manhã havia 28 pacientes internados. Os pacientes que não puderam ser acomodados nos leitos recebem atendimentos em sofás e cadeiras no corredor. A média de espera para internação desses pacientes é de três a cinco dias. Segundo a coordenação da unidade, quando a lotação ultrapassa os 200% é feita uma notificação ao poder público, mas os atendimentos não são interrompidos.
O Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) registrou 200% de ocupação durante a vistoria, e vive um “colapso silencioso”, segundo o sindicato. São 123 pacientes aguardando atendimento e 60 à espera de leito clínico, enquanto a emergência dispõe de apenas 56 leitos cadastrados. A equipe médica já atua no limite, com 50 profissionais, quando o ideal seria pelo menos 54. A espera para transferência chega a 14 dias.
No Hospital Conceição, além da superlotação da emergência, foi relatada escassez de médicos para atender à alta demanda, comprometendo a qualidade do atendimento e gerando sobrecarga aos profissionais, que relataram falta de estrutura adequada para enfrentar o volume de pacientes.
No Hospital da Restinga e Extremo-Sul, a equipe ouviu relatos de violência de médicos, como o de um paciente que não se conformou em ser liberado e agrediu verbalmente a médica, e que um segurança foi a vítima da agressão. Ainda, a instituição não possui maternidade, e gestantes em trabalho de parto precisam ser encaminhadas ao Fêmina, 21 km de distância.
No Hospital Vila Nova, a equipe verificou que a emergência adulta atende cerca de 300 consultas em dias de alta demanda, o dobro do geralmente registrado, e também ouviram relatos de casos de violência verbal.
A emergência da Santa Casa também é sobrecarregada, operando com 300% da sua capacidade. Com apenas 28 leitos cadastrados e atendimentos restritos a casos gravíssimos como AVCs, infartos e pacientes oncológicos, o hospital não possui leitos reservados para internação direta da emergência. Os fluxos de transferência dentro do próprio complexo enfrentam entraves, e muitos pacientes chegam com diagnósticos tardios. A maioria dos atendidos vem de fora da capital, o que revela a centralização da alta complexidade na instituição.
No Hospital de Pronto Socorro (HPS), o relato é de que metade dos atendimentos diários, que chegam a 350, poderiam ser resolvidos na rede básica. Apesar de não faltar insumos nem medicamentos, a sala amarela acumula dezenas de pacientes aguardando leito. O principal gargalo está na equipe de enfermagem, que é insuficiente para a demanda.
Ao contrário de outras emergências, no Hospital Ernesto Dornelles, o atendimento estava normalizado após ficar restrito em razão da lotação de 100%, o que tem acontecido recorrentemente. A casa de saúde atende pacientes da rede privada e credenciados do IPÊ. Segundo o médico responsável, no local, atuam cinco médicos por turno. Ocorrem 4,5 mil atendimentos mensais, dos quais, 800 são convertidos em internações.
O cenário também é diferente no Cristo Redentor, que realiza, em média, 200 atendimentos diários e opera com cerca de 50% dos leitos ocupados. O hospital, que é referência em traumatologia, mantém um fluxo constante de pacientes, segundo a instituição. Embora os médicos tenham relatado momentos de sobrecarga, destacaram que essa não é uma situação recorrente.
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Unidades de pronto atendimento
Na unidade de pronto atendimento Moacyr Scliar, zona Norte de Porto Alegre, a que mais registra superlotação na Capital, foram apontadas irregularidades relacionadas à estrutura e às condições de trabalho dos médicos. Os atendimentos estão sobrecarregados e com demanda diária excessiva. Estima-se que cerca de 60% dos atendimentos sejam realizados, enquanto o restante não é possível devido à alta demanda e às limitações estruturais. Não há unidade de pediatria.
Na Lomba do Pinheiro, foram relatados casos de violência verbal contra os profissionais. A empresa que administra a UPA, ao contrário da maioria, contrata a equipe via CLT.
No Pronto Cruzeiro do Sul (PACS), vistoriado pelo vice-presidente do Simers, Felipe Vasconcelos, além da superlotação, foi relatada falta de medicamentos. Também chamou atenção a presença de pacientes que necessitam de leitos em UTI, mas permanecem na emergência. No Bom Jesus, relatos de pacientes que aguardam por leitos por muitos dias. O local atende cerca de seis mil pessoas por mês, o que representa uma média de 200 atendimentos diários.