Saúde

Inovação no tratamento de arritmia: nova tecnologia auxilia na cirurgia de fibrilação atrial

Procedimento de ablação da arritmia mais prevalente prevê ser menos invasivo, protegendo os demais órgãos e promovendo recuperação mais rápida

A tecnologia começou a ser utilizada em hospitais como o Mãe de Deus, em Porto Alegre
A tecnologia começou a ser utilizada em hospitais como o Mãe de Deus, em Porto Alegre Foto : Pedro Piegas

A arritmia cardíaca afeta cerca de 1,5 milhão de pessoas no Brasil e aproximadamente 132 mil no Rio Grande do Sul. A fibrilação atrial, arritmia mais prevalente, tem seu tratamento com a chamada ablação, o procedimento mais eficiente para a condição.

Porém, uma alternativa de cura mais eficiente e menos invasiva em relação a ablação térmica, que pode causar danos a outros órgãos, começou a ser utilizada no país: o procedimento de ablação por campo elétrico pulsado. Ele ocorre por meio de um cateter guiado para o interior do coração, e evita danos às áreas externas e próximas ao órgão, além de apresentar recuperação rápida e eficaz. A tecnologia começou a ser utilizada em hospitais como o Mãe de Deus e São Lucas da PUCRS, em Porto Alegre.

O que é a arritmia

A arritmia é uma alteração no ritmo cardíaco. Esse ritmo pode apresentar duas situações: o coração bater mais devagar, condição chamada bradicardia, e bater mais rápido, com a taquicardia. Para os tratamentos para corações acelerados, a opção de tratamento mais atrativa por trazer mais possibilidade de cura, indicado a pacientes com alto risco, é a ablação, para restaurar seu ritmo normal. O procedimento, com um cateter, mapeia o foco da arritmia e cauteriza seu foco.

Dentro das arritmias, a mais prevalente é a fibrilação atrial, que aparece na parte alta do coração e desorganiza os batimentos. A condição causa falta de ar e palpitação, e pode provocar o desenvolvimento de insuficiência cardíaca, formar um coágulo no coração e gerar um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Novo aparelho para tratar arritmias cardíacas no Hospital Mãe de Deus | Foto: Pedro Piegas

Ablação por campo pulsado

Sendo uma arritmia mais difusa, sem um foco específico, o tratamento para ablação tem técnicas novas de mapeamento, chamadas de mapeamento eletroanatômico. O sistema permite entrar com um cateter dentro do coração para mapear o foco da arritmia, possibilitando o tratamento por cauterização. O procedimento esquenta a ponta do cateter, chamado de ablação por radiofrequência, e cauteriza a zona de arritmia.

Uma nova tecnologia, chamada de ablação por campo pulsado (Pulsed Field Ablation – PSA, na sigla em inglês), começou a ser utilizada em hospitais como o Mãe de Deus e São Lucas da PUCRS, em Porto Alegre, liderada pelo cardiologista Eduardo Bartholomay. Os sistemas utilizados são o EnSite, da empresa global de cuidados para a saúde Abbott, e o Carto, da Johnson e Johnson, com módulos de mapeamento que auxiliam a localizar com exatidão os focos das arritmias.

"É diferente das [operações] que gente ainda usa tradicionalmente, em que esquenta o tecido e cauteriza fazendo uma lesão no foco da arritmia ou que esfria o tecido até que maate aquela parte do tecido do foco da retificação, a pulse field ablation é uma energia por campo pulsado. Então, libera uma energia para naquele tecido, atravessa aquele tecido e abre os poros da célula, e ela morre", explica Bartholomay.

O método é o mesmo que as outras ablações, em que, para alcançar a área afetada, o médico introduz um tubo flexível fino em um grande vaso sanguíneo na virilha do paciente. A tecnologia, porém, apresenta uma vantagem em relação à cauterização, por conta do cuidado com as demais estruturas localizadas perto do coração. "Essa tecnologia nova consegue identificar pela característica do tecido o que é coração, o que que é veia e o que é estrutura adjacente, como o esôfago. Ela consegue fazer a lesão no músculo cardíaco e passar através dessas outras estruturas sem fazer lesão", explica. O novo procedimento já atendeu cerca de 10 pacientes no Mãe de Deus e no São Lucas da PUCRS.

O engenheiro civil Luciano Haraldo Erbert, de 68 anos, realizou dois procedimentos no Hospital Mãe de Deus | Foto: Pedro Piegas

Paciente que teve tratamento com tecnologia relata rápida recuperação

O engenheiro civil Luciano Haraldo Erbert, de 68 anos, já sofria com arritmia e descobriu ter a fibrilação atrial, com a pulsação elevada e descompassada. Inicialmente, recebeu indicação do uso de coagulante e, também, a utilização de marcapasso. Ele realizou sua primeira ablação por cateter em abril no Hospital Mãe de Deus, cauterizando o tecido cardíaco e pontos com vazamento. O procedimento foi feito pelas veias femorais, próximo da virilha, evitando a abertura do tórax.

Sua fibrilação teve queda de 2%, mas a pulsação continuou elevada. De acordo com o cardiologista, é comum que se trate um problema e apareça outro. Além dos medicamentos anticoagulantes, ele realizou um segundo procedimento em setembro deste ano, a ablação de flutter atrial, para os batimentos cardíacos elevados, com o objetivo de retornar para o ritmo sinusal e ser minimamente invasivo. Enquanto no primeiro procedimento foram cauterizados 130 pontos, no último foram apenas 15. "Dei entrada no hospital em um dia, e em 24 horas, tive alta. A pulsação foi reduzida e está em ritmo normal", conta Erbert.

Hoje, ele continua apenas com o uso de anticoagulantes. Antes dos procedimentos, os batimentos cardíacos do engenheiro chegavam a 105 por minuto, independentemente do que estivesse fazendo. Após a segunda ablação, entrou no ritmo considerado normal, entre 50 a 75 por minuto. Ele acompanha os batimentos por meio de um aparelho, que mostram a atividade cardíaca durante o sono, em caminhadas diárias ou outras atividades físicas, que consegue fazer sem qualquer sintoma cardíaco.

Luciano acompanha os batimentos por meio de um aparelho, que mostram a atividade cardíaca | Foto: Pedro Piegas

A arritmia mais prevalente de todas, fibrilação atrial, contou com grandes evoluções no seu tratamento ao longo dos anos, afirma Bartholomay. “Antigamente, o tratamento da fibrilação atrial era realizado baseado em anticoagulante para que o paciente não tivesse um AVC, porque essa arritmia pode formar coágulos, e controlava a frequência cardíaca, mas não resolvia a arritmia, não trazia o ritmo normal de volta”, explica. “As últimas evoluções começaram a melhorar o resultado da ablação dessa arritmia. Essa arritmia, como é mais complexa, teve que ter uma evolução do conhecimento e da tecnologia do material para fazer o procedimento, para que a gente alcançasse melhores resultados”, completa.

A mais recente Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, afirma que a condição tem alta prevalência, afetando pelo menos 2% da população. De acordo com Bartholomay, foi a primeira diretriz que trouxe um posicionamento sobre o controle do ritmo sinusal, baseado na evolução do tratamento para os pacientes.

“A gente tem mostrado que a manutenção do ritmo sinusal, em relação a manter o paciente fibrilado, diminui eventos isquêmicos, e diminui, inclusive, a mortalidade desses pacientes ao longo do tempo. Antes, só anticoagulava e aceitava que ficasse ali, com o ritmo e frequência controlada, não acelerada. Hoje, a gente tem um outro objetivo, que é trazer o ritmo de volta”, pontua o cardiologista.