De crises de abstinência a ataques de pânico, a psicóloga Caroline Aguirre já presenciou uma série de situações no abrigo que atua enquanto voluntária. Apesar disso, nos mais de 20 dias que vêm se dedicando para esse trabalho, poucas foram as vezes que exerceu seu papel enquanto especialista em saúde mental. "A preocupação vai ser de ordem prática. É uma roupa seca, uma comida", conta.
Os relatos de Caroline vão de encontro com aquilo chamado de primeiros socorros psicológicos. A prática consiste naquele primeiro contato com vítimas de desastres (ou demais situações traumáticas) cujo objetivo é ofertar segurança e atender as necessidades básicas daquelas pessoas, seja uma coberta, uma água ou uma informação. Esse atendimento pode ser prestado por quaisquer pessoas em condições, informa a OMS (Organização Mundial da Saúde), não necessariamente um profissional de saúde mental.
"É algo que qualquer pessoa, qualquer cidadão que tem conhecimento de primeiros socorros pode realizar, assim como primeiros socorros de vida, segue a mesma lógica. Diferente do que tem sido visto de que isso seria uma coisa que só psicólogo, psiquiatra ou assistente social podem fazer. Mas esse processo de escuta qualificada é um segundo momento, quando a pessoa já está em um ambiente seguro, fora de uma zona de risco", explica a psicóloga e mestre em psicologia Mariana Valls Atz. Isso não exclui a necessidade de um atendimento especializado em casos específicos, a exemplo de vítimas com uma situação mental mais vulnerável que podem estar tendo crises, sendo necessário contenções físicas. Mas, na maioria dos casos o que se tem visto, conta Mariana, é o atendimento prático de suprimento de necessidades.
Atendimento esse que se estende, também, para aquilo que deve ser feito quando a pessoa já se encontra segura. Essa "segunda etapa", compreende em mapear preocupações e necessidades a fim de conseguir acionar a rede apoio ou os órgãos necessários e vão desde informações sobre parentes e amigos, a documentos perdidos ou a situação de animais de estimação. "São demandas diferentes e tá tudo bem. Se para aquela pessoa é importante, por exemplo, que o pet dela esteja alimentado, sendo cuidado e seguro, aquilo é uma demanda importante", conta Caroline, que complementa: "eu tenho atuado mais como voluntária do que como psicóloga".
Mas, em nenhum desses momentos, frases como "vai ficar tudo" ou "era só uma casa" são indicadas. "Não vai ficar tudo bem e não era só uma casa, essa casa representa um conjunto de memórias, de sonhos, de muito esforço de muitas pessoas. A casa é uma realização de algo muito mais complexo do que aquilo que se foi. E também não vai ficar tudo bem porque tem muitos meses a frente, tem desafios, muitas coisas podem acontecer, não tem como fazer essa promessa", ressalta Mariana. Também não é indicado, ao menos não nas primeiras 72h depois do ocorrido, perguntas e afirmações que façam a pessoa reviver tudo que passou, relembrando o trauma.
Atenção à saúde mental deve ser continuada
Há quase um mês, Caroline vem dividindo seus dias no trabalho, enquanto especialista em pacientes oncológicos, com os afazeres do abrigo onde atua, na Zona Sul da Capital. Envolvida com os afazeres do local desde o começo, foi só nos últimos dias que psicóloga começou a, de fato, atender a demandas do campo psíquico. Justamente porque esse primeiro momento é voltado ao atendimento das necessidades básicas. "A partir de agora, ou quando essa água começar a baixar em todos os lugares, ai sim vai entrar a parte da psicologia propriamente dita. Vai ser essencial, é um trauma para muito tempo, uma dor para ser trabalhada a longo prazo", afirma a psicóloga.
Estudos evidenciam que pessoas que passaram por situações traumáticas podem apresentar sintomas de estresse agudo nas primeiras quatro semanas, como mudanças no sono, alimentação ou uso exagerado de substâncias. O acompanhamento desses quadros por um especialista em saúde mental é essencial, mas nem sempre é possível – principalmente quando falamos de estruturas precárias. "Muitas pessoas encontram esses processos terapêuticos em outros espaços que não um profissional de saúde mental. Essas pessoas conseguem se focar no apoio a sua rede comunitária, em grupos os quais se unem e que aquele esforço em conjunto se torna algo terapêutica", exemplifica Mariana.
Mas cada caso é um caso. Quando as vítimas já possuem algum diagnóstico clínico, como depressão ou ansiedade, ou têm um histórico de vulnerabilidade social, é sempre importante um olhar mais atento e não se recomenda a descontinuidade do medicamentos, em caso de uso, pelo contrário. Pessoas que passaram por situações traumáticas costumam apresentar sintomas de estresse nas primeiras quatro semanas, entre eles mudanças nos hábitos de sono, alimentação ou uso excessivo de substância, como cigarro. Após isso – ou dependendo da intensidade desses sintomas – um 'novo rumo' deve ser calculado.
Além disso, também cabe um olhar mais atento às crianças. "Como as crianças elaboram? Elas elaboram a partir do brincar. Então, abrigos que tiveram espaços para brincadeira, espaços coletivos, a gente vê as crianças elaborando melhor toda essa situação traumática e esse cotidiano conturbado", relata a psicologa. Ela explica que elaborar é o termo técnico para a "a assimilação do mundo externo para o mundo interno" e, assim os adultos, cada criança tem seu tempo e forma específico. Em situações traumáticas como a que centenas de gaúchos têm enfrentando, cada 'elaborar' é de uma forma, mas alguns processos, ao menos para os adultos, são importantes, como a ritualização do luto. E, em especial, do chamado 'luto não reconhecido', que trata da perda de um animal de estimação ou de uma casa.
Para Caroline, que vem convivendo com essa realidade diariamente, é preciso um olhar atento por parte dos profissionais que vão ou estão atuando em abrigos. A psicóloga explica que para conseguir de fato promover uma ajuda de ordem psíquica, a criação de vínculos é essencial. "É preciso se despir de um atendimento tradicional e engessado de consultório. Até mesmo a roupa que você coloca é diferente em uma situação dessa. O (profissional) precisa se colocar de uma maneira o mais próxima possível daquela situação, de forma que você esteja acessível, que olhem para ti sem criar barreiras, isso vai facilitar a escuta e vai facilitar um vículo necessário para expressão de sentimentos, de pedido de ajuda", afirmou.
Saúde mental também deve ser prioridade do poder público
Diferente daquelas doenças cuja cura é objetiva e relativamente rápida, como uma gripe que requer um analgésico, ou um pé quebrado que precisa de gesso, doenças de ordem psiquíca não aparecem em exames e tampouco são facilmente resolvidas. Em um Estado que enfrentou um dos maiores desastres climáticos da história do país, em uma população que viu casas ruírem e cidades levadas, esse deve ser um infeliz legado.
"A gente vai ver nos próximos meses algo que já vem vendo a muito tempo que é os serviços não dando conta dos casos de saúde mental. Tem também (o fato de que) a rede saúde mental está mais precarizada no município e no Estado e vamos ver que vai inflar o número de casos no próximo meses", alerta Mariana.
Cabe lembrar que esse esgotamento mental não se restringe aos diretamente afetados. Histórias de colapso entre voluntários, que tem atuado incessantemente desde que todo o caos começou, já são vistas. Carolina relata que crises de choro, descontrole e desorganização mental entre os colegas. Nesse sentido, apoia-se em dois pilares para continuar na lida: na terapia e no conforto da sua base de apoio. Do lado de lá, Mariana vem prestando esse apoio psicológico a amigos e colegas que têm prestado esse trabalho em front.
Mas ambas as especialistas são unânimes quanto as preocupações com os limites da atuação do poder público no futuro. Se hoje a prestação de serviços de atenção a saúde mental já não é ideal, a longo prazo – em que quadros devem começar a ser vistos com ainda mais frequência – a situação fica ainda mais preocupante, ainda mais quando considerado o perfil das vítimas, normalmente oriundas de baixa-renda e totalmente dependentes do SUS. "É um setor que precisa se fortalecer e pensar em campanhas, pensar em políticas públicas que tem que ser colocadas em prática para fortalecer essa atuação, porque vai ser preciso trazer à tona a importância desse trabalho da saúde mental, que honestamente, eu não vejo muito na prática", reforça Carolina.