Saúde

Resistência antimicrobiana preocupa cientistas; entenda

OMS apontou que uma em cada seis infecções bacterianas apresentou algum nível de tolerância aos antimicrobianos

Um fator que agrava a situação é a automedicação e o não cumprimento do ciclo completo do tratamento prescrito
Um fator que agrava a situação é a automedicação e o não cumprimento do ciclo completo do tratamento prescrito Foto : Marcos Santos / USP Imagens

A Resistência aos Antimicrobianos (RAM) — fenômeno em que bactérias, vírus, fungos e parasitas deixam de responder aos medicamentos disponíveis — continua avançando em ritmo alarmante. Embora esse processo seja natural e faça parte da evolução dos microrganismos, o uso inadequado de medicamentos está acelerando drasticamente o efeito.

Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em outubro de 2023 e baseado no Sistema Global de Vigilância da Resistência (GLASS), apontou que uma em cada seis infecções bacterianas apresentou algum nível de tolerância aos antimicrobianos. Em comparação com 2018, o aumento da resistência a esses fármacos ultrapassou 40%.

Cenário mundial e regional

Atualmente, o Sudeste Asiático e o Mediterrâneo Oriental concentram os níveis mais elevados de resistência, com uma em cada três infecções já sem resposta aos tratamentos convencionais.

No continente americano, o cenário, embora menos grave, é igualmente preocupante, com um a cada sete casos de infecções sendo causadas por microrganismos resistentes aos antimicrobianos.

No Brasil, dados do Ministério da Saúde sugerem que a RAM é responsável por cerca de 34 mil mortes a cada ano e contribui indiretamente para o agravamento de outros 138 mil quadros clínicos. Além disso, o país registra anualmente 221 mil falecimentos por infecções bacterianas e 400 mil casos de sepse (infecção generalizada), o que evidencia a gravidade da situação de saúde pública.

Como os microrganismos evoluem

A resistência dos microrganismos a compostos antimicrobianos existe na natureza, mas foi intensificada a partir de meados do século 20, com a introdução desses produtos na prática clínica. Variantes resistentes foram selecionadas, perpetuando organismos mais aptos a sobreviver às terapias.

Há diversos mecanismos biológicos que permitem aos microrganismos escaparem da ação dos tratamentos modernos. Entre eles, estão alterações na permeabilidade do envoltório celular, que dificultam a entrada dos fármacos; e mutações genéticas, que modificam os alvos dos antibióticos, impedindo que se liguem aos patógenos.

O farmacêutico-bioquímico Pedro Eduardo Almeida da Silva, professor da FURG, explica que a combinação desses mecanismos torna os tratamentos menos eficazes e favorece a persistência das infecções. Além disso, a transferência horizontal de genes entre bactérias e a formação de biofilmes (estruturas que protegem as células) aceleram a disseminação da resistência.

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Empecilhos no combate e desafios de diagnóstico

O aumento da resistência está ligado a fatores como o crescimento populacional e a desigualdade social. "Baixa higiene pessoal, saneamento básico precário e pouca adesão às campanhas de vacinação são questões que colocam a região em uma posição vulnerável ao problema", avalia o infectologista Moacyr Silva Junior, do Einstein Hospital Israelita.

A identificação rápida da causa da infecção é crucial para o tratamento eficaz. Contudo, métodos tradicionais de microbiologia demoram cerca de 48 a 72 horas para fornecer resultados.

Outro fator que agrava a situação é a automedicação e o não cumprimento do ciclo completo do tratamento prescrito. A resistência torna os quadros clínicos mais complexos, resultando em internações prolongadas e maiores custos. Em longo prazo, a ausência de antimicrobianos eficazes poderá inviabilizar procedimentos médicos essenciais, como transplante de órgãos e cirurgias de grande porte.

Racionalização e prevenção

"Não vivemos um cenário de calamidade. Contudo, os dados indicam que os médicos e a população em geral precisam ter mais consciência sobre a prescrição e o uso de antimicrobianos", destaca Silva Junior, reforçando a necessidade de racionalizar o uso de remédios.

O Brasil já conta com iniciativas importantes nesse sentido, como a Diretriz Nacional para Implantação de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Neonatologia e Pediatria, lançada pela Anvisa em maio de 2025. A diretriz orienta o uso estruturado de antimicrobianos por meio de Programas de Gerenciamento (PGAs), que promovem prescrição adequada e acompanhamento multiprofissional.

No âmbito individual, a principal medida preventiva é a vacinação, que atenua o impacto das infecções e, consequentemente, diminui a necessidade de antimicrobianos. Práticas como lavar bem as mãos e usar máscara em gripes e resfriados também são cruciais. "A prevenção é chave para combater o avanço do problema", conclui Silva Junior.