Saúde

Santa Casa de Porto Alegre celebra 35 anos do primeiro transplante hepático no RS

Até hoje, já foram realizados mais de 2 mil procedimentos, em média 60 por ano

Marilene da Rosa, hoje com 59 anos, foi a primeira paciente transplantada de fígado
Marilene da Rosa, hoje com 59 anos, foi a primeira paciente transplantada de fígado Foto : Alina Souza

Prestes a completar 60 anos, Marilene da Rosa lembra de todos os detalhes do dia em que estava no carro, a caminho de realizar um procedimento que salvou sua vida. "Parecia que ia para uma festa". Há 35 anos, ela foi a paciente do primeiro transplante hepático do Rio Grande do Sul, realizado na Santa Casa de Porto Alegre.

Diagnosticada com cirrose hepática por hepatite B, ela tinha apenas 24 anos, e esperou por um ano para finalmente conseguir um órgão. "Em momento algum pensei que não ia dar certo. Cheguei aqui, encontrei a equipe e as coisas foram acontecendo. Fiz o transplante, fiquei internada, fui para casa, e tenho até hoje o acompanhamento com a equipe", diz, sorrindo.

A Santa Casa celebrou, na manhã desta segunda-feira, os 35 anos da realização do primeiro transplante de fígado, que ocorreu na madrugada de 15 de junho de 1991 na instituição e representou um marco para a medicina gaúcha ao introduzir no Estado uma das intervenções consideradas mais complexas da área da saúde. Para marcar a data, o complexo realizou o encontro da equipe chefiada pelo cirurgião Guido Pio Cracco Cantisani e pela médica cirurgiã Maria Lúcia Zanotelli, responsáveis pelo procedimento realizado à época no Hospital São Francisco, da instituição. Marilene também esteve presente na celebração, ao lado do seu filho, Rogério Giovani da Rosa, que foi concebido dois anos após o transplante.

Marilene da Rosa e sua família guardaram memórias deste momento. | Foto: Alina Souza

Na época, o procedimento de Marilene durou 11 horas. Havia muitas dificuldades relacionadas à técnica da cirurgia, lembra Zanotelli, que hoje é chefe do Grupo de Transplante Hepático da Santa Casa. "Foram vários processos evolutivos, tanto do ponto de vista técnico, do manejo anestésico e especialmente o manejo da coagulação. Hoje, em média, um transplante dura em torno de quatro ou cinco horas, praticamente a metade do tempo", explica.

A cirurgia de Marilene foi considerada de sucesso. "Tanto é que ela está viva até hoje, e vieram vários pacientes depois dela. É um marco exatamente por ser o início do pioneirismo e, de fato, ela ter abraçado a ideia, sabendo que era a primeira nessa situação. Nós já tínhamos feito cirurgias experimentais em animais e treinamento fora do Brasil, mas na instituição, todo o pioneirismo foi nesse primeiro caso", relembra a médica.

Marilene segue em acompanhamento médico a cada seis meses e orgulha-se de ter disciplina com a alimentação. "Não que eu seja proibida. Eu é que me proíbo de gorduras e frituras. Álcool, nunca encostei um gole. Também cuido, por exemplo, de noite, com a janta pesada. Só tomo um cafezinho com bolacha, com pão e pronto", detalha.

Protagonista do pioneirismo, ela guarda com carinho recortes de jornais de notícias que saíram à época sobre o procedimento pioneiro, inclusive no Correio do Povo. Também demonstra a gratidão que tem pela doadora do órgão e pela sua família da maneira que pode. Tanto que a foto da sua doadora é o papel de parede do relógio de pulso de Marilene.

Marilene da Rosa e sua família guardaram memórias deste momento. | Foto: Alina Souza

"Me sinto uma pessoa abençoada. Acho que estava no lugar certo, na hora certa. Hoje, para mim, é um dia de festa, mas também lembro que para a família de quem perdeu a vida, é um dia de tristeza".

Zanotelli reforça a importância da doação de órgãos para os transplantes. "Não tem como fazer transplante de órgãos, principalmente vitalícios, sem que haja um doador falecido. A imensa maioria, mais de 95% dos transplantes de fígado são de doadores falecidos". Desde aquele 15 de junho, foram mais de 2 mil procedimentos realizados pela Santa Casa, sendo em média 60 por ano.

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