O Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) lançou, nesta quinta-feira, o Pacto Rio-grandense pela Descarbonização da Saúde. A iniciativa busca alertar os profissionais de saúde e a sociedade para os riscos decorrentes da emissão de gases e poluentes atmosféricos, especialmente em ambientes internos. Segundo o Simers, esses poluentes podem comprometer o funcionamento de diversos órgãos e sistemas, principalmente os aparelhos respiratório e cardiovascular e o sistema nervoso central.
O documento, apresentado na sede do Simers, em Porto Alegre, afirma que “há sólidas evidências demonstrando que os poluentes no ambiente interno (domiciliar e laboral) apresentam grandes oscilações em suas concentrações por excessiva emissão e/ou insuficiente ventilação. Estas partículas e gases poluentes frequentemente atingem concentrações muito superiores ao ambiente externo, impactando de forma silenciosa a saúde humana e a qualidade de vida”.
Conforme a entidade, os poluentes são emitidos por múltiplas fontes, como fogões, fornos, aquecedores, chuveiros, caldeiras e sistemas de cocção, além da queima de GLP, metano e outros combustíveis fósseis e da entrada de gases e partículas provenientes do ambiente externo. Idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas e crianças estão entre os grupos mais suscetíveis a complicações de saúde.
Medição
PhD em Transição Energética e Gestão da Informação e diretor do Instituto Safeweb, Alexandre de Souza Tavares explica que, neste primeiro momento, a proposta do pacto é conscientizar a sociedade sobre os riscos relacionados à presença de poluentes em ambientes internos.
“A proposta primeiro é medir esses gases, saber quais são esses gases. A gente tem toda uma configuração de quais são esses gases, medir eles e gerar oportunidades para fazer a mitigação e a troca desses equipamentos. Isso se chama transição energética”, afirma.
A partir da medição, será possível estabelecer limites para áreas laborais, parâmetros de qualidade do ar interior e critérios para identificar situações que possam representar riscos à saúde. Antes disso, no entanto, a população já pode adotar medidas simples em casa.
“A pessoa física já pode fazer a troca do seu botijão de gás em casa por fogão de indução. Ela vai deixar de emitir vários poluentes atmosféricos internos, que são prejudiciais à saúde. Por exemplo, o gás de cozinha nos Estados Unidos: 12% dos problemas de asma são devidos ao gás de cozinha. Isso é de um estudo que saiu em Stanford, mostrando que o uso de gás na cozinha aumenta a incidência de asma”, revela.
Conscientização
Pediatra e diretora do Simers, Valerie Noronha chama a atenção para o tempo que as pessoas passam em ambientes fechados, especialmente os profissionais de saúde.
“É uma aliança entre diferentes áreas da saúde no momento em que a gente se dá conta da exposição interna a gases muito perigosos, cancerígenos, associados a doenças respiratórias. Cada vez mais, com as mudanças climáticas, a gente tem falado de poluição. Só que essa mudança está nos levando a ficar mais tempo dentro de casa. E quando a gente descobre que, dentro de casa, dependendo da situação, pode ser pior ainda que na rua, é muito importante a gente alertar sobre isso”, afirma.
Além da preocupação com a emissão de gases poluentes, os integrantes do pacto chamam a atenção para a ventilação, muitas vezes insuficiente em ambientes de trabalho, como hospitais e restaurantes. Segundo Valerie, a ideia é iniciar um processo de conscientização semelhante ao que ocorreu, no passado, em relação ao cigarro.
“No primeiro momento, se começou a alertar. Depois, se começou a fazer atuações, legislação, até que hoje as pessoas têm uma consciência enorme no mundo inteiro. A mesma coisa a gente quer aqui: a gente começa a identificar o problema, fazer as pessoas entenderem a extensão dele, começa a medir também para, com isso, montar estratégias mitigadoras e, aí, no futuro, passar a ser legislação”, finaliza.