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Tecnologia possibilita a eternidade no mundo virtual

Divulgação de informações e fotos de pessoas mortas na Internet abriu discussão sobre direito aos dados

Para Marina Schreiner, manter perfil do pai traz conforto
Para Marina Schreiner, manter perfil do pai traz conforto Foto : Samuel Maciel
A tecnologia trouxe a tão almejada eternidade, pelo menos no campo virtual. Se até recentemente após a morte o que sobrava eram objetos e bens, agora, há uma quantidade gigantesca de informações na Internet que fazem com que a vida se prolongue. Ao mesmo tempo essa eternidade abre questões sérias e complexas, como até que ponto essa versão virtual auxilia nos processos de luto, ou mesmo, a quem cabe o poder dos dados.

São questionamentos que ainda carecem de debates nos segmentos especializados, mas que estão presentes na vida daqueles que ficam. A integrante do Instituto Brasileiro de Direito Eletrônico e promotora Têmis Limberger diz que, assim como acontecesse na morte física, a guarda das informações passa a ser normalmente de um familiar ou de um responsável.

O Marco Civil da Internet, sancionado neste ano, aborda a questão de proteção de dados, mas a lei é modesta em relação ao legado digital de cada um. Por exemplo, tendo as informações de login e senhas, familiares ou terceiros podem manter ativos perfis nas redes sociais de entes falecidos, inclusive com postagens e estabelecendo comunicação com outras pessoas. “Atualmente na lei não há nada que proíba esse comportamento. Claro que, se alguém se sente ofendido ou incomodado, pode expor isso aos responsáveis pelas redes sociais”, afirma.

Até que ponto manter os perfis em redes sociais auxilia no luto, principalmente nos casos de mortes inesperadas? Para a coordenadora do Cora —  Núcleo de Intervenção no Luto do Centro de Estudos da Família e do Indivíduo de Porto Alegre, Adriana Zilberman, depende do sentimento que visualizar o perfil provoca no familiar. “Se quem interage com os perfis sente conforto, pode auxiliar no processo de despedida. Porém, se gera excesso de tristeza, deve ser evitado.”

Para a estudante de Direito Marina Schreiner, 20 anos, o perfil do pai, Sandro, jornalista que morreu de câncer em março, é como um memorial. “É onde posso dizer o quanto sinto saudade e compartilhar informações com amigos dele”, comenta, ao recordar que, recentemente, um ex-colega de Sandro postou uma foto antiga. “Fiquei muito feliz quando vi a imagem, até então desconhecida.” Marina periodicamente escreve mensagens vinculando o perfil do pai. “Ele era tão feliz e isso não pode ser esquecido. Manter o perfil dele com essa proposta traz um conforto grande.”

Manifestações ajudam a confortar

Na madrugada do dia 7 de junho, o ex-jogador Fernando Lúcio da Costa, o Fernandão, morreu aos 36 anos de maneira trágica e totalmente inesperada na queda de um helicóptero em Aruanã, interior de Goiás. Porém, ele ainda está presente em milhares de postagens feitas por torcedores de futebol de clubes em que ele atuou, como o Inter, assim como de adversários.

Uma dessas páginas em que Fernandão ainda está vivo é o de sua mãe, Marli Ribeiro, 61. Periodicamente, ela posta imagens do filho e mensagens de saudades. Como retorno, recebe centenas de curtidas e, em pouco tempo, dezenas de comentários. “Não há como agradecer o carinho que das pessoas, em especial os gaúchos. Sabia que gostavam dele, mas jamais teve ideia da dimensão”, acredita ela, que mora em Goiás.

As manifestações de carinho, assim como postagens de fotos em outros perfis, servem de conforto. “Jamais imaginei que pudesse suportar ver meu filho morto. O apoio faz com que tenha uma força enorme para enfrentar a dor”, confidencia ela, dizendo que só não publica mais conteúdo pelo pouco tempo.

A coordenadora do Cora — Núcleo de Intervenção no Luto, Adriana Zilberman, reconhece que o mundo virtual se tornou um recurso a mais no enfrentamento da perda. “Se antes muitos pais mantinham o quarto dos filhos, agora não deletam as suas páginas na Internet, para continuar essa relação com a pessoa falecida”, afirma a psicóloga. Também é possível acessar imagens e mensagens deixadas por amigos após a morte.

Cristina Gonçalves dos Santos perdeu o filho, Vitor, 18, assassinado perto de casa, em Alvorada, há seis anos. Assumiu a página dele numa rede social. “É uma maneira de mantê-lo vivo, mesmo depois da morte.”

É possível deixar legado digital

Quem está preocupado com o destino de seus dados virtuais tem à disposição a possibilidade de fazer uma espécie de testamento virtual. O serviço ainda é recente, mas tem ganhado cada vez mais adeptos. Existem sites e aplicativos que permitem ao usuário indicar ou orientar o que deve ser feito com o seu “legado digital”. Por exemplo, direcionar o seu arquivo de fotos para um familiar específico e, ao mesmo tempo, dados e senhas para outra pessoa. Uma das vantagens é a privacidade, ou seja, as informações serão acessadas somente por determinadas pessoas e os conteúdos mais particulares ou sigilosos não se tornarão públicos.

No aplicativo do Facebook If I Die (Se Eu Morrer, em inglês), o usuário pode gravar vídeo ou deixar mensagens personalizadas. O vídeo será publicado no seu perfil. O objetivo é permitir que o usuário possa postar a sua última mensagem na rede social aos seus amigos e familiares. Para ter validade, é necessário indicar no mínimo três pessoas que vão confirmar o seu falecimento, garantindo que a mensagem seja disparada.

Quem está disposto a pagar tem a opção do site Legacy Locker (legacylocker.com, Guardião de Legado). Todo em inglês, oferece uma série de serviços que vai desde o compartilhamento de dados até o armazenamento de senhas e logins, que apenas serão divulgados após o falecimento do usuário. Outro site disponível é o You Departed (www.youdeparted.com, Você Partiu), que organiza a vida digital, caso a pessoa morra de forma inesperada. Ele repassa as informações importantes para quem realmente precisa saber. O serviço também é pago.