Elas continuam aparecendo e causando curiosidade a moradores e frequentadores da orla de Porto Alegre, requerendo cuidados quanto à aproximação. A diferença é que as capivaras, cuja aparição na Capital foi muito provavelmente motivada pelas enchentes de 2024, agora ocorre em lugares diferentes dos comumente vistos há alguns meses, como a orla da Vila Assunção, na zona Sul. Até então, estes exemplares dos maiores roedores do mundo eram vistos somente na foz do Arroio Dilúvio, junto à avenida Ipiranga, onde encontram abundância de alimentos, ausência de predadores naturais e a calmaria da região.
Segundo a vice-prefeita Betina Worm, cujo gabinete está diretamente envolvido com a questão, hoje há 28 delas na cidade, número que quadruplicou desde maio de 2024, quando sete foram vistas pela primeira vez na cidade. Ou seja, o aumento proporcional ocorreu há menos de 30 meses. “Já fizemos várias reuniões e existe uma ação de acompanhamento destes animais. A ideia é fazer o manejo reprodutivo delas, onde nós fazemos vasectomia nos machos, e ligaduras de trompas nas fêmeas, de forma que vamos manter a colônia no número em que está, podendo ser monitorada e acompanhada”, disse a vice-prefeita.
“Como elas são territorialistas, é importante que tenhamos este mecanismo de dominância dentro da colônia mantido, e por isso os animais não são castrados, mas apenas impedidos de se reproduzir”, acrescentou. Mas conforme Betina, isto somente pode ser feito se houver autorização dos órgãos competentes. A prefeitura está buscando autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para este manejo. Junto a isso, a administração está fazendo um levantamento aproximado das populações de capivaras em áreas lindeiras à região do Arquipélago, de onde elas, em tese, vieram inicialmente. Em ao menos duas ilhas, elas já foram encontradas, porém o trabalho de inspeção continua.
“A população nos cobra, mas precisamos das autorizações legais para fazer o manejo produtivo. Vemos elas como uma fonte potencial de risco, na medida em que os animais transitam em áreas de tráfego de veículos, pessoas e bicicletas. Nossa ideia é achar uma solução para a realocação delas para áreas onde ficam mais afastadas destes polos onde há esta grande circulação”, disse Betina.
De qualquer forma, a foz do Dilúvio tornou-se um ponto informal de observação, com placas tendo sido instaladas pela Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) e pelo Gabinete da Causa Animal (GCA) da prefeitura. Tudo indica que esta movimentação, portanto, passou a se estender a lugares mais ao sul da cidade.
Funcionário de um estabelecimento localizado de frente para a avenida Guaíba, Gilberto Martins contou ter conseguido fazer um registro fotográfico há alguns meses de uma delas, algo que outros frequentadores da área também têm feito, assim como iate-clubes do entorno também têm registrado a presença destes animais. “De forma geral, elas são bem pacíficas, e tenho sentido a presença delas neste ano de maneira mais frequente. É nos dias mais ensolarados que elas gostam de dar o ar da graça. Acho que tudo o que é novidade, o pessoal gosta de parar, tirar foto, fazer vídeo”, comentou Martins.
Mudança de hábitos e ação “pouco efetiva”
Na mesma orla da zona Sul, funcionários da limpeza urbana contaram ver com alguma frequência estercos destes animais na orla, mas vê-las vivas diretamente é mais raro. Na visão do professor Demétrio Luis Guadagnin, especialista em fauna silvestre do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), esta fauna está abandonando refúgios tradicionais e buscando novos ambientes, em parte porque eles têm sido cada vez mais ameaçados e inseguros. Para ele, ações como a demandada pela prefeitura são “pouco efetivas”.
“As populações são abertas, indivíduos chegam e vão. Seria necessário um programa permanente de esterilização. Tradicionalmente a fauna é perseguida por humanos, por diversas razões. Mas esta relação mudou em muitas sociedades modernas. A fauna deixou de ser perseguida e passou a ser tolerada ou mesmo apreciada. Está associado a uma mudança de valores em algumas sociedades modernas, valores mais humanitários, que são expandidos para certas espécies”, comentou Guadagnin.
“Esta fauna está perdendo o medo dos humanos, reagindo a estes novos comportamentos e permitindo maior aproximação. As paisagens, tanto as rurais quanto as urbanas, estão mudando. As cidades têm perdido áreas verdes, mas onde elas persistem têm se tornado às vezes mais amigáveis à fauna, com mais espécies nativas”, acrescentou ele.