Dez meses após a maior enchente já vista na Capital, a vida segue em processo de readaptação. Muito se fala de marcas deixadas, da recuperação econômica e da prevenção contra novos eventos climáticos de porte semelhante. Porém, o distanciamento causado pelo tempo também oferece o olhar para a necessidade de transformar aqueles dias vividos em patrimônio social. É uma espécie de transição da dor em legado. É ainda compreender que algumas mudanças forçadas por 2024 são permanentes, ao passo que não se pode deixar de lutar para recuperar o que for possível.
Para jamais esquecer desses momentos, a Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ) promoveu ações tão pontuais quanto simbólicas. Além de uma placa demarcando o nível atingido pela água, fixada na fachada externa, esse importante espaço da Capital agora mostra a seus visitantes o quanto a relação do Centro Histórico está interligada ao Guaíba.
Foram nove meses desde o alagamento até a entrega da reforma total dos espaços atingidos. A intervenção, inaugurada em 20 de fevereiro, marca a devolução da CCMQ à população.
Um pequeno trecho do calçamento em pedras portuguesas da travessa dos Cataventos foi removido e, no lugar, foram instaladas plaquetas de metal, formando um trilho. A intervenção cultural representa a área aproximada onde ficava a margem do corpo d’água antes dos aterros realizados para o processo de expansão urbana da região Central, no Século 19. De forma sutil e artística, a trilha brilhante que corta a rua de um lado a outro, junto das portas de entrada da CCMQ, é uma lembrança permanente do passado e um alerta de convivência respeitosa com o meio ambiente no futuro.
O Mercado Público de Porto Alegre ainda não está 100% em ação. Há obras no interior, as marcas da enchente de maio não sumiram completamente, falta repintura de alguns espaços, assim como o piso ainda está sendo refeito em algumas áreas. Em busca da retomada, lojistas continuam repondo e aprimorando os seus estoques.
Situado no coração do Centro Histórico, o empreendimento popular tem 104 lojas dos mais variados produtos, mais restaurantes e quiosques de artesanato, discos antigos, livros usados e quinquilharias em geral, mas nem tudo está funcionando.
As escadas rolantes já estão funcionando, mas os banheiros, as escadarias e os elevadores ainda não estão trabalhando a pleno. Ainda precisam de alguns reparos. O objetivo inicial, na reabertura, em junho, era atender 30 mil pessoas por dia, segundo a Associação dos Permissionários.
Aos poucos, os clientes retomam o espaço simbólico da Capital. A arquiteta Ana Paula Ribeiro, moradora do Menino Deus, faz questão de prestigiar os comerciantes do local.
“Restaurantes, cafés lojas de artigos naturais, gosto de muitos cantinhos daqui. Vamos apoiar e todos vão dar a volta por cima”, espera a frequentadora do Mercado.
Recuperação total só em 2026
O sistema da Trensurb entre Porto Alegre e Novo Hamburgo, no Vale do Sinos, ainda sofre os impactos. Últimas a reabrir, estações como Mercado, Rodoviária, São Pedro, Farrapos e Aeroporto ainda apresentam elevadores quebrados, escadas rolantes fora de operação e tapumes no lugar de vidros quebrados.
Enquanto a recuperação do sistema elétrico não for finalizada, as viagens ocorrerão com intervalos mais espaçados mesmo em horários de pico, atualmente de 15 minutos. Também há necessidade de substituição de trilhos.
A direção da empresa estima que a volta ao patamar de serviço ofertado antes da catástrofe só será possível nos primeiros meses de 2026. O investimento para tanto é estimado em mais de R$ 400 milhões.
O aeromóvel, sistema que liga o trem de superfície ao Aeroporto Salgado Filho, está inoperante desde maio de 2024. A empresa Aerom, responsável pela tecnologia, avaliou os componentes danificados e previu que a recuperação e reinstalação de sistemas elétricos e eletrônicos avariados pela água pode demorar mais 12 meses. O prejuízo supera a casa dos R$ 40 milhões.
De acordo com o presidente Nazur Garcia, a Trensurb avalia o laudo da empresa para definir pelo reaproveitamento ou pela aquisição de novos equipamentos.
Imóveis vazios
Avenidas como a Azenha, a Farrapos, a Cristóvão Colombo e a Ceará, que antes eram pontos movimentados de comércio e serviços, hoje estão repletas de imóveis fechados, com placas de “aluga-se” ou “vende-se”. Em bairros como o Sarandi, a locação para fins comerciais praticamente parou.
Apesar dos imóveis vazios, o presidente do Sindicato da Habitação do Rio Grande do Sul (Secovi-RS), Moacyr Schukster, afirma que o mercado imobiliário segue movimentado. Segundo ele, a paralisação nas vendas ocorreu apenas no período imediato à enchente, mas os negócios voltaram a ser fechados desde então.
“No mês da enchente, as vendas caíram pela metade, mas hoje o mercado está estável. Quem pode alugar ou comprar um imóvel segue buscando seu teto, seja na Cidade Baixa ou no Moinhos de Vento. O mercado não para”, diz Schukster. Ele destaca que, embora tenha ocorrido um aumento de 20% no valor dos aluguéis nos últimos 13 meses, a procura por imóveis continua.
“As pessoas sempre vão precisar de um lugar para morar e trabalhar. O mercado pode ter oscilações, mas é seguro para aplicações”, conclui.
Impacto até na Liquida Porto Alegre
A edição de 2025 do Liquida Porto Alegre traz mais uma demonstração da resiliência dos moradores da Capital.
O prejuízo e a comoção provocados pela inundação de maio de 2024, também se traduz em números. Conforme a Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL POA) indica que, apesar de quase 300 novos negócios foram abertos nos 23 bairros afetados pelo evento climático, o Liquida Porto Alegre deste ano encolheu 6,7% na comparação com a edição passada. E ao realizar levantamento a fim de entender os motivos, a entidade identificou correlação entre o número de inscritos e a enchente.
“Diante da gravidade e da extensão do que ocorreu, essa diminuição poderia ter sido ainda mais acentuada. Contudo, graças à força de vontade e ao espírito de não se dar por vencido dos gaúchos, a maioria permaneceu no Liquida. Inclusive, grande parte destes 292 novos negócios (12%) foram abertos na mancha da cheia, ocupando locais vagos”, analisa o presidente da CDL POA, Irio Piva.
A queda mais significativa veio da área mais impactada pelos alagamentos, em números absolutos – o Centro Histórico, com 12% de negócios encerrados, de acordo com a CDL POA. Nesta região, 160 empreendimentos (24%) não participaram da promoção em 2025.
No bairro Navegantes, mais da metade dos negócios não voltou para o Liquida (56%). Também bastante afetados, o Praia de Belas registrou 54 lojas desistentes (35%), enquanto o Cristal, teve 53 saídas (25%).