Cidades

Assembleia Legislativa do RS debate modelo de transporte para a Região Metropolitana

Audiência ocorreu com participação de autoridades municipais, representantes da Metroplan, Trensurb e empresas de ônibus

Deputada Laura Sito percorreu principais pontos de embarque e apresentou a situação durante a audiência
Deputada Laura Sito percorreu principais pontos de embarque e apresentou a situação durante a audiência Foto : Lucas Kloss / ALRS / CP

Longo tempo de espera nas paradas, duas horas para percorrer trajetos antes feitos em 30 minutos e ônibus lotados. Além disso, o drama de quem teve que deixar a família durante a semana e alugar um quarto para morar em Porto Alegre para garantir a permanência do emprego e a incerteza sobre a volta para casa depois do trabalho nos finais de semana. Essas foram algumas das situações relatadas pela deputada Laura Sito (PT), proponente da audiência pública da Comissão de Assuntos Municipais para debater a ampliação dos serviços de transporte metropolitano para atendimento aos usuários de Cachoerinha, Guaíba e Eldorado do Sul, que precisam se deslocar a capital, neste cenário pós-enchente. O encontro, que foi presidido pelo presidente do colegiado, deputado Joel Wilhelm (PP), ocorreu na manhã desta terça-feira (16) e contou com a participação de autoridades municipais, representantes da Metroplan, Trensurb e empresas de ônibus.

Laura percorreu os principais pontos de embarque, como o do bairro Mathias Velho, em Canoas, colhendo os depoimentos, que foram trazidos à comissão. E constatou que o setor, que já apresentava problemas antes da calamidade, piorou bastante. “Nos deparamos, de um lado, com a incapacidade do Poder Público estadual de dar as respostas que a população necessita, já que não conta mais com um órgão estruturado de planejamento. E, de outro, com os trabalhadores que perderam tudo e agora temem perder seus empregos também, em virtude de impossibilidades de deslocamento”, sintetizou.

Os fatos relatados pela parlamentar foram corroborados por vereadores, prefeitos e secretários municipais de Transportes. “O problema era anterior à enchente e foi agravado. Temos comunidades que necessitam de mais horários para atender, especialmente, os trabalhadores e enfrentamos uma enorme dificuldade para aumentar o número de ônibus”, revelou o prefeito de Eldorado do Sul Ernani Freitas Gonçalves.

O secretário de Transportes de Canoas, Diego Cingolin, afirmou que a ampliação da frota que atende o município não está sendo suficiente para resolver o problema. “Mais linhas e mais ônibus já não dão conta de atender a população, pois as condições do transporte mudaram e precisam ser consideradas”, ponderou.

Já o diretor da empresa Transcal, que atende Canoas, Clíferson Pelisson, atribuiu grande parte das dificuldades de operação à impossibilidade de os veículos acessarem áreas alagadas e à superposição de linhas urbanas e metropolitanas. Ele acredita, no entanto, que o contrato firmado com a Trensurb para levar passageiros da estação Mathias Velho até a estação Mercado irá desafogar o sistema.

Metroplan e Trensurb

A melhoria das condições de transporte na região passa pela Fundação Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional (Metroplan), órgão responsável pela coordenação, fiscalização e gestão do Sistema Estadual de Transporte Metropolitano Coletivo de Passageiros, e pela Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre (Trensurb), que antes da enchente transportava 110 mil pessoas por dia. Representantes das duas instituições apresentaram na audiência as ações que vêm desenvolvendo para enfrentar as consequências do evento climático e garantir condições mínimas de atendimento à população.

De forma emergencial, a Trensurb colocou em prática, dia 30 de maio, a Operação Trilhos Humanitários que, mesmo com as oficinas próprias paradas, botou em funcionamento 15 trens, da estação Novo Hamburgo a Mathias Velhos, com capacidade de transportar cerca de 30 mil pessoas diariamente.

No último sábado, começou a vigorar nova operação da Trensurb para o deslocamento gratuito de passageiros por ônibus da estação Mathias Velhos até a estação Mercado. O presidente da empresa, Ernani Fagundes, afirmou que já está encaminhando pedido para Metroplan e para Empresa Pública de Transporte e Circulação de Porto Alegre (EPTC) para que os veículos façam paradas na Zona Norte da capital, atendendo pleito dos usuários. Fagundes reafirmou que em, 20 de Setembro, os trens deverão operar até a estação Farrapos e, em 24 de dezembro, chegarão na estação Mercado, que foi invadida pelas águas. O principal entrave para que o sistema volte a operar na plenitude, segundo ele, está relacionado aos danos causados a duas das cinco subestações de energia da empresa, responsáveis por “fornecer o combustível para os trens”. “Não é por falta de recursos financeiros ou de capacidade técnica. A dificuldade é com o fornecedor de tecnologia para realizar os consertos, pois nem sequer os trilhos são vendidos no Brasil. Tudo vem de países que ainda têm ferrovias”, revelou.

O representante da Metroplan Jaime Keunecke afirmou que já é possível verificar uma reação do sistema, que atende 90% da oferta existente antes da enchente. Todos os terminais, segundo ele, já foram restabelecidos e há 1721 horários de ônibus em vigência. Ele revelou que a enchente gerou uma queda no número de passageiros na Região Metropolitana de 5,5 milhões, em abril, para 1,6 milhão em maio, representando uma retração de 70%.

Sobre as queixas de superlotação, Keunecke argumentou que a legislação permite até 50 pessoas de pé, fato que não ocorre pois impossibilitaria que o veículo transitasse. Explicou também que uma Ação Civil Pública, transitada em julgado, não permite que a Metroplan crie novas linhas de ônibus até que seja realizada uma licitação para o transporte público metropolitano.

Ao encerrar a audiência, Laura Sito afirmou que a calamidade abriu uma janela de oportunidade para a discussão sobre um novo modelo de transporte para a Região Metropolitana de Porto Alegre. Propôs que o debate continue nos municípios com as lideranças políticas, usuários e empresas e com o acompanhamento da Comissão de Assuntos Municipais.