O peixe na taquara, outrora a refeição mais pedida por visitantes na Ilha da Pintada, deixou de ser servido. Uma das razões é porque a sede da associação da chamada Colônia Z-5 foi uma das 1,9 mil casas atingidas por chuvas e enchentes no bairro Arquipélago, em Porto Alegre. Outro motivo está relacionado ao próprio ofício dos pescadores, que perderam tudo e não têm previsão para retomar a atividade.
A rua Nossa Senhora da Boa Viagem, onde fica o imóvel gerido por pescadores, está bloqueada por lodo e montanhas de areia, rastros que o dilúvio que estão espalhados por toda a região das Ilhas. Os resíduos também invadiram o interior da sede da associação, que ainda registra vidraças estilhaçadas e teve perda total da mobília, computadores e outros itens. Isso porque o local foi inundado por mais de 2,5 metros de água.
O presidente da Colônia de Pescadores Z-5, Gilmar da Silva Coelho, estima que ao menos 300 dos mil associados foram atingidos no dilúvio. Ele estima que a pesca na região fique suspensa por mais dois meses.
Um dos principais entraves para a retomada dos trabalhos é o assoreamento do rio Jacuí e do Guaíba. Em outras palavras, nacos de terra foram arrastados pela correnteza dos rios Caí, Gravataí e Sinos e acabaram soterrando o leito.
Há ainda a força da correnteza, que arrastaria redes e anzóis, tornando em vão qualquer tentativa de pesca. Como se não bastasse, a enchente levou todo o equipamento da maior parte dos pescadores, o que atinge o coração dá atividade.
“Os pescadoras não têm mais nenhum equipamento para pescar, foi tudo perdido no dilúvio. Além disso, os poucos que não perderam tudo vão ter que ir para outro lugar. Em épocas de cheia, a força da correnteza impede que as redes fiquem paradas”, explicou o presidente da Colônia de Pescadores Z-5.
Gilmar Coelho evita estimar o prejuízo da categoria, mas não descarta que atinja cifras de milhões. Ele destaca que o governo federal vai enviar dois salários mínimos aos pescadores, um na próxima segunda-feira e outro no dia 8 de agosto, o que ainda está longe de ser o bastante para ressarcir os danos.
“Precisamos de mais ajuda para tentar reerguer a pesca. Não restou mais nada, teremos que começar do zero. É uma situação catastrófica”, enfatiza Coelho.
Aproximadamente 80% da população ainda não conseguiu voltar para a casa no bairro Arquipélago. As escolas da região das Ilhas também estão com aulas suspensas. Parte disso é por conta do acúmulo de lixo, que bloqueia vias e impede a passagem de veículos.
Para mitigar a situação, equipes da Secretaria de Serviços Urbanos (SMSUrb) se uniram a representantes da Marinha do Brasil para intensificar os serviços de retirada do entulho acumulado. A região das Ilhas tem uma força-tarefa de 15 garis, que trabalham com sete caminhões e duas retroescavadeiras para o recolhimento dos resíduos.