A dona de casa Susi da Silva Andrade, moradora do bairro Humaitá, na zona Norte de Porto Alegre, desde o final de abril tem convivido com um problema inquietante e que já causou problemas de saúde, segundo ela, em seus dois filhos, de 14 e 6 anos de idade. O gosto duro como terroso e o cheiro fortes na água distribuída pelo Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), de acordo com ela, fez com que ambos precisassem de atendimento médico, sendo que o menor apresentou vômitos, enquanto o maior teve dores de cabeça, dor no corpo e ânsia, ao que ela atribui ao consumo da água.
Ambos estão em tratamento. “Eles estavam tomando água da torneira e ficaram doentes. E mesmo que não fizessem isso em casa, na escola existem aqueles bebedouros, onde eles acabam tomando”, disse Susi, relatando que o cheiro “parece de mofo”. “Até no café está estranho. Para tomar banho é difícil”. A cor, relatou a moradora, está normal. Para evitar mais problemas, ela contou que está indo com frequência a um supermercado próximo e adquirido galões de água mineral.
Relatos de água com gosto e odor fora do habitual não estão sendo incomuns, porém o Dmae, procurado, afirmou que houve melhora em ambos os aspectos a partir de análises realizadas na última segunda-feira. Também no final de abril, o departamento havia informado que realizou ajustes na rotina de tratamento da água, para restabelecer suas características habituais, a partir da confirmação, pelo próprio Dmae, de alterações detectadas em seus painéis sensoriais de monitoramento.
O órgão disse ainda que os fatores ambientais que podem influenciar estes aspectos “não comprometem a segurança nem a potabilidade da água”. Imagens do satélite Copernicus, da Agência Espacial Europeia (ESA), mostram, de fato, a água do Guaíba, de onde a água bruta da Capital é captada, com cores mais marrons, principalmente no Saco de Santa Cruz, em frente a Eldorado do Sul; nos bairros Ponta Grossa e Belém Novo, na zona Sul da Capital; além da região de Itapuã, em Viamão.
Imagens de satélite mostram presença de algas no Guaíba, em Porto Alegre
Segundo o professor Fernando Dornelles, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS), o gosto e cheiro detectados podem ter relação com a presença de algas, mas que isto deve ser resolvido naturalmente nos próximos dias. A questão é que, nestes locais citados, não há captação, com exceção do Belém Novo, segundo ele. “Há uma turbidez natural do Guaíba também. Com a redução da temperatura da água, menos sol e renovação da água das chuvas, a situação deve melhorar”, comentou o professor.
Também nas regiões citadas, Dornelles observou não haver indícios de aporte de carga orgânica, ou nutrientes vindos dos esgotos sanitários. De acordo com a plataforma ClimaRS, do governo do Estado, na manhã desta quinta-feira o nível do Guaíba estava em 92 centímetros, na área do Cais Mauá, em estado de normalidade. Já na Usina do Gasômetro, estava em somente 51 centímetros, indicando alerta de estiagem.