Cidades

Colecionador expõe antiguidades no Acampamento Farroupilha

Piquete Raiz Missioneira participa dos festejos há 20 anos preservando tradição e memória

Acervo tem mais de 5 mil itens de diferentes períodos históricos
Acervo tem mais de 5 mil itens de diferentes períodos históricos Foto : Mauro Schaefer

Na entrada do galpão de número 100, um pilão de toco acompanhado de uma torneira de poço artesiano chama a atenção de quem transita pelo Acampamento Farroupilha deste ano. De acordo com o responsável pelo Piquete Raiz Missioneira, Neodir da Costa, de 53 anos, como o nome sugere, o objetivo do piquete é resgatar a memória, o conhecimento do passado e deixar a Capital com mais jeito de casa.

Neodir é natural de Soledade, no Noroeste do Rio Grande do Sul, cresceu em Lajeado, no Vale do Taquari, se casou com uma missioneira, mas mora em Porto Alegre desde os anos 1990, quando se mudou para trabalhar. “No interior eu trabalhava na roça, criava uns bichinhos. Outro dia me perguntaram minha profissão e eu respondi ‘colono’. O colono não tem carteira assinada, mas levanta às 5h para tirar leite e tratar as galinhas”, conta com orgulho.

Além de diversos itens que remetem às origens campeiras, Neodir é um colecionador de antiguidades. Desde que o piquete foi criado, 20 anos atrás, são necessárias quatro viagens de caminhão para levar todos os artigos que costumam ficar em exposição no galpão. Nesta edição, o acervo foi resumido, com cerca de 10% dos itens, que ele arrecadou ao longo da vida, decorando o espaço.

O colecionador se mudou para Porto Alegre na década de 1990 para trabalhar em um mercado. Quando chegou, o choque cultural entre a vida urbana e o campo, que conhecia bem, fez a saudade de casa apertar. “No meu primeiro final de semana aqui, me levaram no Parque da Redenção, mas não era o que eu estava procurando. No final de semana seguinte me trouxeram aqui e daqui nunca mais eu sai”, afirma deixando escapar o riso.

Com o passar do tempo, Neodir passou a trabalhar em uma empresa de demolições, onde adquiriu boa parte do acervo de antiguidades. Em casa, cada item é identificado pela sua origem ou dono anterior. “Eu desmanchei a casa que era do Paixão Côrtes, ali na Fernandes Vieira, e guardei um tijolo da casa e uma cadeira que era dele. Então, cada peça sempre tem uma história”, relata.

São várias televisões de diferentes épocas, computadores antigos, telefones de discar e dezenas de máquinas de escrever que remontam a evolução da tecnologia e um pedaço da história, que se relaciona diretamente com o fundamento do Acampamento Farroupilha: preservar a tradição. Enquanto a prosa acontece, o sol entra pela janela do piquete, iluminando uma cangalha. “Isso aqui nós usávamos para colocar no cavalo e carregar o cesto de milho, ou outros mantimentos”, explicou.

Para além das saudades do campo, as relíquias preservadas por Neodir mostram que o passado tem muito para ensinar à contemporaneidade. Ele defende que assim como pessoas mais velhas são incentivadas a se atualizar às novas tecnologias, a nova geração também pode ser ensinada a revisitar a história e absorver a sabedoria dos mais velhos.

Assim como os mais de 5 mil itens da coleção de Neodir, o legado do passado tem sido passado de geração em geração por diversas famílias gaúchas, que celebram o sentimento de pertencimento, identidade e tradição durante os festejos farroupilhas. “Eu digo que eu saí do interior mas o interior não saiu de mim. Isso eu passo para os meus filhos, Ana Paula e Cauã. Eu sempre digo que a hora que eu me for, quem vai continuar são eles.”

Sob o tema “400 anos das Missões Jesuíticas e Guaranis”, a 44ª edição do Acampamento Farroupilha reúne 236 piquetes até o dia 20 de setembro. Neste ano, o início das festividades foi antecipado para o último final de semana de agosto com a abertura do parque aos visitantes. A cerimônia de abertura oficial será mantida no dia 7 de setembro, com o recebimento da Chama Crioula às 12h30 e a homenagem à patrona da edição, a cantora e compositora Fátima Gimenez.