Com uma frota superior a 932 mil veículos em 2024, sendo 613,5 mil automóveis, Porto Alegre está na 11ª posição no ranking nacional, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Prático e com cada vez mais itens de conforto, o carro continua sendo o transporte individual por excelência não apenas na Capital, porém sua adesão causa problemas na mesma medida em que soluções, como poluição e engarrafamentos. Dois terços das emissões dos gases causadores do efeito estufa em Porto Alegre são causados pelo segmento do transporte, o que leva à reflexão sobre o conforto a despeito do bem coletivo.
Esta segunda-feira é o Dia Mundial Sem Carro, data relembrada todo dia 22 de setembro para incentivar uma mobilidade mais sustentável, como o uso do transporte coletivo. “O papel do poder público não é impedir a circulação do veículo individual, mas ofertar novos modos de transporte. Múltiplas opções de mobilidade ajudam, evidentemente, a termos uma cidade para todos”, salientou o secretário municipal de Mobilidade Urbana (SMMU), Adão de Castro Júnior.
“O transporte público é uma premissa de qualquer cidade e temos avançado muito nele, recuperando o sistema e modernizando a frota. Se fossem transportados individualmente de carro os 600 mil passageiros por dia que utilizam ônibus, o sistema viário colapsaria”, acrescentou. Desde a implantação do programa Mais Transporte, em 2022, a Capital passou de 819 para cerca de 1,2 mil ônibus circulando, além do aumento de 10 mil para 14 mil viagens diárias.
Doze dos veículos são elétricos, projeto este iniciado em agosto de 2024, e mais um, articulado, foi anunciado na semana passada. Mais 100 veículos eletrificados para o transporte coletivo serão adquiridos pela Prefeitura. “Temos um projeto sendo desenvolvido para um VLT em Porto Alegre, e estamos avançando para que as pessoas possam ter vários modais e, consequentemente, optar por aquele que melhor lhe atende no momento de sua necessidade”, pontuou Adão. Conforme ele, atividades educativas pontuais são realizadas pela Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) em alusão à data.
A Pesquisa CNT de Mobilidade da População Urbana, publicada no ano passado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), mostrou que, na Capital gaúcha, motoristas levam, em média, em dias de bom tráfego, 26 minutos para percorrer dez quilômetros. Durante congestionamentos, este mesmo percurso mais do que dobra, para 53 quilômetros. Ambos os índices são maiores do que os do Rio de Janeiro, com mais de 3,2 milhões de veículos, ou seja, superior do que o triplo da frota.
"Solução é complexa e requer integração”, diz especialista
Para a professora da Escola Politécnica da PUCRS Cibele Vieira Figueira, pós-doutora em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e coordenadora do curso de Pós-Graduação em Cidades Sustentáveis e Inteligentes, o Brasil adotou um modelo de urbanização inspirado no norte-americano, em que o carro é símbolo de prosperidade e modernidade. De acordo com ela, embora representem 35% das viagens motorizadas, os veículos particulares são responsáveis por 60% das emissões de dióxido de carbono nas áreas urbanas brasileiras.
“A política atual de moradia está empurrando os trabalhadores para as periferias. Quanto mais periférico o trabalhador fica, mais caro é levar o transporte público até lá. Em alguns casos, os custos com transporte correspondem a 40% do seu salário. Estamos olhando o problema de uma forma muito específica e focada. O mundo está cada vez mais complexo, com todas as questões interligadas”, comentou ela, acrescentando que a modernização da frota é positiva, mas não resolve problemas fundamentais de planejamento, moradia e gestão da cidade.
Para a professora, o transporte público deve ter seus alicerces operacionais baseados na integração com políticas de moradia, emprego e saúde; governança, com a criação de institutos de planejamento de longo prazo; e qualidade, para se tornar viável, frequente e atrativo em relação ao transporte por aplicativo. Empresas que operam com este serviço, na visão dela, também deveriam contribuir financeiramente para o transporte público, já que atuam sobre um bem coletivo.
A tarifa zero, cuja adesão tem sido popularizada nos últimos anos no Brasil, também é uma simplificação do problema, na visão de Cibele. Ela sugere que o transporte público seja financiado por toda a sociedade como um serviço essencial, a exemplo da Taxa de Coleta de Lixo cobrada no IPTU. “Não há soluções simples, mas a questão precisa ser respondida coletivamente”.