Às vésperas de completar dois anos da enchente que castigou o Rio Grande do Sul, Porto Alegre trabalha em melhorias nas previsões de eventos extremos e nas obras de reconstrução e reforço do sistema de proteção contra cheias. No entanto, muitas entregas ficarão apenas para 2027, enquanto outras ainda não têm previsão para serem concluídas. Em coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira, na sede da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus), foram apresentados os andamentos das obras e os investimentos no sistema de proteção na Capital.
No encontro, também foi detalhado o fortalecimento da estrutura de prevenção e monitoramento e os prognósticos climáticos para o fenômeno. Entre as principais pendências, ainda está a conclusão das obras em algumas comportas, envolvendo tanto o fechamento ou a melhoria, o último trecho do dique do Sarandi, que depende do remanejamento de famílias, obras em condutos forçados, redes e casas de bombas. Veja, abaixo, o que já foi feito e o que ainda falta destravar para proteger a cidade:
Obra emergencial para proteger o Aeroporto
Uma solução imediata a ser desenvolvido nos próximos meses, de uma obra considerada emergencial, é para o sistema de proteção para a região dos pôlderes 7 e 8, visando proteger a região do Aeroporto Salgado Filho. Trata-se do fechamento das galerias do arroio Areia, que leva a água da chuva para o rio Gravataí, com o volume sendo represado na área alagável. Ainda, a construção de um dique no arroio Passo das Pedras, com 100 metros de extensão, entre o curso d'água e o rio Gravataí. O projeto, com investimento de R$ 30 milhões, também compõe a inserção de bombas submersíveis que retiram a água da área alagável para fora do dique, em direção ao Gravataí.
Nos próximos 20 dias, deverá ser concluído um parecer que está sendo elaborado pela procuradoria do Município. Melo comentou sobre a possibilidade de acionar o Exército para auxiliar na obra emergencial. "Se o Exército tiver condições de fazer, seria ótimo se eles tivessem força de trabalho. Agora, essa conversa é preliminar, ela pode evoluir ou não, porque se não tem pedra de engenharia para fazer, eu tenho que contratar no privado", disse.
Porto Alegre investiu, no total, R$ 2,3 bilhões, entre recursos próprios, financiamentos e fundos como o Funrigs e o Firece, para a reconstrução e melhoria dos sistemas, envolvendo drenagem para as casas de bombas (R$ 1,1 bilhão), arroios e galerias (R$ 600 milhões) e proteção de cheias (R$ 624,1 milhões).
O diretor-geral do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), Vicente Perrone, apresentou também o que já foi concluído para a proteção do sistema. Em relação aos diques de proteção, foi concluída a recuperação do Muro da Mauá, a recomposição de pontos frágeis do dique da Assis Brasil e também da Fiergs, cuja estrutura foi elevada à cota de 5,8 metros. O dique do Sarandi foi reforçado em dois trechos, restando o trecho 3, que depende da remoção de famílias. Para esse, ainda não há um prazo para destravar a obra.
Quanto às 14 comportas que compõem o sistema de proteção contra cheias, sete foram extintas em concreto armado (passagens 3, 5, 7, 8, 10, 13 e 14) e três foram reformadas (1, 2 e 6). Atualmente, quatro portões passam por obras: os de números 4 e 9, com conclusão para maio, e os de 11 e 12, com conclusão em junho.
“A gente tem uma estrutura muito mais robusta, conhecedora do sistema e que faz com que as ações do dia a dia se transformem em proteções perenes, e um sistema de drenagem muito mais confiável e mais assertiva e de forma a deixar a cidade mais confiante”, disse Perrone.
Plano urbanístico para a região das Ilhas
A região das Ilhas, por ser uma área de preservação permanente (APP) e de proteção ambiental, não tem um sistema de proteção. A prefeitura tem feito uma cooperação com a Universidade Técnica de Delft (TU Delft), da Holanda, para desenvolver um plano urbanístico sustentável para o território, baseado em riscos e de maneira que os moradores possam ser realocados para locais mais seguros.
"Estamos no momento de desenvolvimento das oficinas temáticas com as comunidades, já apresentamos o resultado desses estudos lá na oficina e agora estamos envolvendo esse plano de ação operacional para que aquela população que eventualmente permanece ali, onde estiver uma condição de permanência, ela esteja mais resiliente, e ela saiba operar, no caso de uma subida das águas", explicou o secretário de Urbanismo e Meio Ambiente, Germano Bremm.
Reforço da Defesa Civil
O coordenador da Defesa Civil Municipal, Evaldo Rodrigues de Oliveira Júnior, detalhou que, em dois anos, houve o reforço da equipe de servidores do órgão. Entre as principais ações, estão a realização de concurso público para agentes efetivos, ampliação de oito para 50 servidores (sendo 25 efetivos e 25 temporários). Uma nova proposta foi protocolada nesta quinta-feira na Câmara de Vereadores para a substituição dos agentes temporários. Estão sendo aguardados os trâmites legislativos para a autorização da renovação a partir do meio do ano.
Além disso, a aquisição de equipamentos, como motos aquáticas, botes, viaturas e materiais de segurança. Em relação à tecnologia e monitoramento, a implantação do Centro de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil (Cemadec) passou a auxiliar nos serviços de meteorologia, hidrologia e geologia e monitoramento 24h. "A Defesa Civil que nós tínhamos antes de 2020 e 2021 é muito diferente da Defesa Civil que nós temos hoje", disse Evaldo.
O prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, reforçou que o sistema mostrou-se insuficiente com a quantidade de precipitação em 2024, e afirmou que o trabalho de proteção é integrado, envolvendo não só o município, mas o Estado e o governo federal. Ainda, que o Guaíba é composto por quatro rios e centenas de afluentes. "Estou falando de uma bacia hidrográfica de 85 mil quilômetros quadrados que compõem a bacia do Guaíba. Quando nós falamos de proteção de cheia de Porto Alegre, nós precisamos levar em conta de que esta proteção tem que tratar da bacia do Guaíba".
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